Pais e educadores de Conselheiro Lafaiete criticam censura a livro de Ziraldo em escolas
Depois de suspender “O Menino Marrom”, prefeito Mário Marcos (União Brasil) admite que houve “pressão de pais e vereadores”

A suspensão do livro "O Menino Marrom", de Ziraldo, por parte da Secretaria Municipal de Educação de Conselheiro Lafaiete, na região central de Minas, provoca repúdio de pais e educadores da cidade. Um dia depois de o caso ganhar repercussão nacional, o prefeito Mário Marcos (União Brasil) afirmou que não considera o ato como censura, mas defendeu a suspensão da obra e afirmou que haverá "um trabalho de esclarecimento junto aos pais sobre a proposta pedagógica".
Para o professor Cesar Souza Costa, que dá aulas de história para o 9° ano do ensino fundamental e pai de uma criança que já leu o livro, a censura praticada mediante pressão de pais é sinal de despreparo e desqualificação.
"Um livro selecionado pela Semed, distribuído para os alunos, lido pelos professores em parâmetros pedagógicos. Aí, alguns pais se manifestam contrários a duas partes específicas do livro e vão até a secretaria. O que a Semed deveria fazer mediante isso? Entender a obra. Não, o que ela faz? De maneira a mostrar despreparo e fugir do debate, fugiu da questão que o livro traz, que são a relação da amizade, defender a queda de preconceitos entre uma criança branca e uma criança preta, o que ela faz? Ela censura o livro. É um despreparo, é uma desqualificação de quem faz isso. Eu falo enquanto educador e enquanto pai. Nós gostaríamos muito que o livro fosse utilizado em sala de aula. Nós gostaríamos, sim, que esse debate ocorresse e que o exercício fosse aplicado", finaliza o professor de história da cidade.
Posicionamento do prefeito
O prefeito Mário Marcos defende a medida da secretaria. “Não haverá nenhuma mudança de conduta por parte da secretaria, que tomou a medida certa. Nós sempre respeitamos muito o grande escritor e renomado escritor Ziraldo. Em Conselheiro Lafaiete, houve questionamento de vários pais e de vários vereadores que cobraram essa suspensão do livro”, disse o prefeito.
De acordo com ele, a medida é temporária. “A Semed entendeu por bem uma suspensão temporária. Não vai retirar esse livro, que vai voltar a ser pauta de estudo nas nossas escolas. Mas (a suspensão foi) para que se fosse feito um trabalho de esclarecimento junto aos pais sobre qual a proposta pedagógica da escola em relação à abordagem desse assunto. A gente sabe que é de extrema importância a questão da diversidade racial, do preconceito e da amizade”, acrescentou.
O prefeito admitiu que a pressão de alguns pais e vereadores provocou a suspensão do livro "O Menino Marrom", que ajuda a ensinar crianças o respeito às diferenças raciais. Publicado em 1986, a obra de Ziraldo retrata a história de dois meninos, um negro (o menino marrom) e um branco (o menino cor-de-rosa) que tentam compreender melhor as cores. Ziraldo utiliza uma linguagem lúdica para falar sobre as cores e fazer a oposição entre o preto e o branco. Dessa maneira, trata de diversidade étnica, amizade e criação da personalidade. No decorrer da obra, os meninos entenderem "se o branco é o contrário do preto".
Mães de alunos criticam medida
No entanto, a decisão gerou reações de outros pais de estudantes, professores do município e a favor do livro.
"Eu sou mãe de um menino de 9 anos que estuda na Escola Municipal Professor Dorival Beato (também em Conselheiro Lafaiete). Nós lemos juntos o livro "O Menino marrom" do Ziraldo, que é um autor já consagrado da nossa literatura infantil. Eu recebi com grande perplexidade a notícia. O livro é de extrema importância nos nossos dias porque trata de questões raciais, trata da importância da amizade, do processo do crescer, né? De passar da criança para a adolescência, para o início da vida adulta e como essas amizades se consolidam ao longo do tempo. São relevantes, além da riquíssima aquisição de vocabulário que este livro proporciona, a questão das crianças ampliarem a sua capacidade de interpretar metáforas", disse Nara Avelar, mãe de uma criança de 9 anos, que frequenta uma Escola Municipal da cidade.
Para a mãe do estudante, o cancelamento do livro é uma censura sem cabimento.
“É uma censura sem cabimento, as pessoas que estão se manifestando contra estão retirando os trechos e imagens totalmente fora do contexto da obra, insinuando de que este livro estaria ensinando coisas inadequadas, comportamentos inadequados as crianças eu gostaria sinceramente de convidar essas famílias a lerem a obra na íntegra, a exercerem a sua capacidade de interpretação, porque tudo que tem sido alegado não faz o menor sentido”, finaliza ela, em entrevista à Itatiaia.
Procurada pela Itatiaia, a Secretaria Estadual de Educação afirmou que não delibera sobre esse tipo de proibição, e que esta foi de responsabilidade do município.
“A Secretaria, em sua função de gestão e articulação entre escola e comunidade, compreende ser necessário momento de reflexão e análise da obra junto aos responsáveis para que não sejam estabelecidos pensamentos precipitados e depreciativos em relação às temáticas abordadas”, disse a nota.
*Com informações da repórter Gina Costa*
A Rádio de Minas. Tudo sobre o futebol mineiro, política, economia e informações de todo o Estado. A Itatiaia dá notícia de tudo.



