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'Nós, mulheres pretas, somos atacadas todo dia', desabafa vítima de racismo em BH

Jeniffer, de 28 anos, acusa diretor de concessionária de injúria racial após ser constrangida por usar o cabelo crespo solto no ambiente de trabalho

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Jennifer, de 28 anos, acusa diretor de concessionária de injúria racial após ser constrangida por usar o cabelo crespo solto no ambiente de trabalho
Jennifer, de 28 anos, acusa diretor de concessionária de injúria racial após ser constrangida por usar o cabelo crespo solto no ambiente de trabalho • Arquivo pessoal/foto cedida à Itatiaia

A funcionária Jeniffer Lorraine Rodrigues Braulio, de 28 anos, denuncia que foi vítima de injúria racial e racismo dentro do local de trabalho, em Belo Horizonte.

“Disse que eu deveria prender meu cabelo”

Em entrevista exclusiva à Itatiaia, Jeniffer contou que o diretor entrou em sua sala por volta do meio-dia e determinou que ela deveria prender o cabelo, afirmando que só poderia usá-lo solto fora da empresa.

“Entrei em choque. Consegui responder que gostava do meu cabelo desse jeito e que não iria prender. Ressalto que fiz a entrevista de emprego e participei do treinamento de integração com o cabelo solto. Não há nenhuma norma que imponha regras sobre cabelo. Outras funcionárias brancas usam o cabelo liso solto normalmente”, relatou.

Segundo Jeniffer, o diretor ainda disse que ela precisava “ter a imagem mais limpa para os clientes, porque são eles que pagam o salário”. O episódio foi presenciado por uma funcionária do setor de Recursos Humanos e um assistente, mas, segundo a denúncia, ambos permaneceram em silêncio e não intervieram.

Crise emocional e afastamento médico

Após a situação, Jeniffer afirma que saiu da sala em crise, chorando muito, e no dia seguinte procurou atendimento psiquiátrico. Ela foi afastada do trabalho e receitada com ansiolíticos. Atualmente, a funcionária segue em tratamento terapêutico e afirma que não teve nenhum tipo de apoio da empresa.

“Me senti humilhada, em choque. Comecei a me questionar se meu cabelo era realmente sujo. Nós, mulheres pretas, somos atacadas todos os dias, e isso dói. Racismo é crime e eu espero que essa pessoa pague por isso”, desabafou.

Do boletim de ocorrência à Justiça: entenda os passos tomados pela vítima e pelo advogado

Depois do episódio de racismo, Jennifer procurou o advogado Gilberto Silva, especialista em crimes contra a honra e direito antidiscriminatório, que a orientou sobre os procedimentos legais cabíveis, medidas que também podem ser seguidas por outras vítimas. O primeiro passo foi acompanhá-la até a delegacia, onde registraram o Boletim de Ocorrência (REDS) e formalizaram a representação criminal. A partir desse registro, a Polícia Civil instaurou o inquérito e encaminhou o caso à Justiça.

Na sequência, o advogado ajuizou uma ação na Justiça do Trabalho solicitando a rescisão indireta do contrato de trabalho, com base no artigo 483 da CLT. O objetivo é garantir que a vítima mantenha todos os seus direitos trabalhistas, já que, traumatizada, ela não conseguiu retornar ao ambiente onde ocorreu o crime. Além disso, a ação também pede indenização por assédio moral e racismo no local de trabalho, incluindo reparação pelos danos psicológicos, como ansiedade e depressão, e pelos gastos com tratamento médico, consultas e medicamentos.

Repercussão nas redes sociais

A denúncia ganhou grande repercussão nas redes sociais. Jeniffer publicou um vídeo relatando o episódio no TikTok, que já soma mais de 82,5 mil curtidas.

A Itatiaia entrou em contato com a concessionária e aguarda retorno. O espaço segue aberto para que a empresa e os citados apresentem sua versão sobre o caso.

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Estudante de Jornalismo no Centro Universitário Una. Passagens por assessoria política, assessoria de imprensa e TV Alterosa, onde atuou como repórter, produtor e editor do Jornal da Alterosa. Atualmente, produtor do Plantão da Cidade, na Rádio Itatiaia.