MG enfrenta luto e desafios climáticos após recorde de mortes pelas chuvas
Apesar do verão ter acabado no dia 20 de março, mês de abril representa a transição do período chuvoso para o período seco

Com 92 mortes relacionadas às chuvas, Minas Gerais teve, entre outubro de 2025 e março de 2026, o período chuvoso com mais óbitos desde 2020. O estado também registrou o maior número de eventos adversos relacionados às chuvas nos últimos dez anos — passando de 41 em 2015 para 215 em 2025 e 377 em 2026. O estado enfrenta amplos desafios em meio às mudanças climáticas, o que indica a necessidade de colocar as pautas relacionadas ao clima no centro das discussões, aponta especialista ouvida pela reportagem.
O primeiro trimestre de 2026 foi marcado por chuvas intensas em pleno verão que, mesmo rápidas, causaram estragos, como na Zona da Mata, que teve 74 mortes relacionadas ao temporal que atingiu a região no fim de fevereiro. A tragédia provocou alagamentos, deslizamentos de terras, soterramentos, e desfez famílias inteiras, deixando uma lacuna na cidade, além de um prejuízo imensurável.
Em todo o estado, mais de 1 milhão de pessoas foram afetadas por desastres relacionados às chuvas intensas. Mais de 12 mil pessoas tiveram que sair das próprias casas e precisaram de alojamento em abrigos públicos, outras 14 mil ficaram desalojadas.
Apesar da estação ter acabado no dia 20 de março, o mês de abril representa a transição do período chuvoso para o período seco. Neste ano, as expectativas de sol e calor no verão foram frustradas por diversas ocorrências de Zonas de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). O fenômeno provoca chuvas por vários dias entre o fim da primavera e o verão.
A estação, no entanto, não teve nenhum episódio de onda de calor, ou mesmo dias consecutivos de sol. A situação representa um contraste em relação ao verão de 2025. À Itatiaia, a meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) Anete Fernandes explicou que essas diferenças podem ser explicadas pela variabilidade interanual do clima, além de uma consequência da uma La Ninã fraca no Oceano Pacífico.
A meteorologista, no entanto, refletiu que é possível perceber os reflexos das mudanças climáticas em eventos de chuva intensa cada vez mais destrutivos. Ela explicou que a chuva intensa tem sido cada vez mais frequente, em vez de muitos dias de chuva considerada normal. Com isso, muitas vezes, o volume esperado para todo o mês, cai em apenas uma semana.
A situação ocorreu, por exemplo, no início de fevereiro, quando duas regiões de Belo Horizonte superaram a média climatológica do mês. Sem trégua, os primeiros oito dias de fevereiro registraram diversas pancadas de chuva, com um temporal também no dia 8 de fevereiro, quando, em apenas 4 horas, 57 mm caíram na regional Noroeste, o que representou cerca de 32% do volume esperado para o mês inteiro.
“Às vezes, você tem um mês com cinco dias de chuva e o volume de chuva é o normal para aquele mês. Então, você tem chuvas extremas: reduziu o número de dias chuvosos, digamos assim, e potencializou as chuvas extremas. Então, esse comportamento que a gente vem observando ao longo dos anos em relação às chuvas”, explicou Anete sobre as influências das mudanças climáticas.
Diante de temporais cada vez mais destrutivos, as cidades precisam estar preparadas para lidar com os possíveis impactos desses fenômenos, pensando, principalmente, na prevenção. Em entrevista à Itatiaia, a coordenadora do projeto ClimAtiva, Rejane Loura (EA-UFMG), ressaltou a importância das prefeituras desenvolverem e se manterem fieis aos planos locais de ação climática.
“Os eventos climáticos já estão impactando a vida das cidades, em alguns lugares com impactos severos, econômicos e de perdas de vidas, em outros lugares com os impactos ainda não tão severos. Enquanto eles não entenderem e trazerem esse assunto para o processo de tomada de decisão, as nossas vidas e a nossa economia vão ficar cada vez mais reféns do clima. A gente precisa se preparar para estruturar a cidade para dar conta de viver nesse novo contexto climático que já está colocado”, afirmou Rejane.
Percepção de risco
Em meio a grandes tragédias, a Defesa Civil Estadual apontou que um dos principais desafios para medidas de autoproteção está na percepção de risco por parte da população. "Muitas vezes, mesmo com alertas emitidos, há resistência em deixar áreas vulneráveis ou em seguir orientações preventivas. Por isso, a Defesa Civil investe continuamente em campanhas educativas, com conteúdos em redes sociais e ações de conscientização", contou.
Durante os desmoronamentos na Zona da Mata, o órgão teve que pedir para que a população não ficasse em áreas de risco. Na ocasião, o coronel Joselito Oliveira de Paula, do Corpo de Bombeiros (CBMMG), chegou a afirmar que algumas pessoas retornaram para residências que já tinham sido evacuadas.
Ao menos 25% dos moradores de Juiz de Fora, uma das cidades mais afetadas pelo temporal do fim de fevereiro, vivem em áreas de risco. Ao todo, são 130 mil pessoas. O município registrou o fevereiro mais chuvoso da história, com um acumulado de, pelo menos, 584 milímetros.
Diante do aumento da ocorrência de chuvas intensas em curtos períodos, a Defesa Civil afirmou ter intensificado ações de preparação e prevenção. "Entre elas, destaca-se o lançamento do Plano Estadual de Enfrentamento ao Período Chuvoso, em outubro de 2025, que estabelece diretrizes para reduzir riscos, ampliar a proteção da população e garantir respostas mais rápidas e eficientes", afirmou.
Veja o número de mortes por período chuvoso
- Período chuvoso 2024/2025: 92 óbitos
- Período chuvoso 2024/2025: 27 óbitos
- Período chuvoso 2023/2024: 6 óbitos
- Período chuvoso 2022/2023: 22 óbitos
- Período chuvoso 2021/2022: 30 óbitos
- Período chuvoso 2020/2021: 22 óbitos
- Período chuvoso 2019/2020: 74 óbitos
Jornalista formada pelo UniBH, é apaixonada pelo dinamismo do factual e pelo poder das histórias bem narradas. Com trajetória que inclui passagens pelo Sistema Faemg Senar, jornal Estado de Minas e g1 Minas, possui experiência em múltiplas plataformas e linguagens. Atualmente, integra a redação da Rádio Itatiaia, onde acompanha os principais acontecimentos de Minas Gerais, do Brasil e do mundo



