Médica deixa amiga em coma vigil em BH após aplicação caseira de remédio restrito
Engenheira está internada há cinco meses em estado de semiconsciência na capital mineira; família denunciou caso ao Ministério Público e ao Conselho Regional de Medicina

Uma engenheira de produção está internada em coma vigil (estado de semiconsciência), em Belo Horizonte, após uma amiga anestesista fazer uma aplicação caseira de um remédio de uso permitido apenas em ambiente hospitalar. A família da vítima, que já gastou cerca de R$ 500 mil nos últimos cinco meses para tratar a mulher, denunciou o caso ao Ministério Público e ao Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais.
Letícia de Souza Patrus Pena tem 31 anos e é amiga de infância da médica anestesista Natália Peixoto de Azevedo Kalil. Ela sofre de dores crônicas na coluna e já fez cirurgia para corrigir hérnia, mas nos últimos quatro anos as dores pioraram. Por isso, em agosto de 2024, ela e Natalia combinaram de fazer a aplicação de um medicamento. As dores cessaram. Em uma segunda aplicação, em 20 de setembro, no entanto, Letícia teve parada cardiorrespiratória e graves lesões cerebrais. Ela foi levada para um hospital onde está internada até hoje - segundo a mãe, a servidora pública Flávia Bicalho de Souza, de 55 anos, Letícia está "totalmente dependente, não fala nem se movimenta e às vezes abre os olhos".
"Tem médico que fala que é um coma vigil, tem um médico que fala que é um estado de semiconsciência. Às vezes abre o olho e fica com um olhar vago. É totalmente dependente e não há certeza (de recuperação), pois o cérebro todo foi lesado", lamenta a mãe.
A segunda aplicação também ocorreu na casa de Natalia. "Depois de alguns minutos, ela teve convulsão, confusão mental e parada cardíaca". Quando deu entrada no hospital, a amiga de Letícia relatou aos médicos a composição das injeções aplicadas. A Itatiaia teve acesso a esse relatório, que indica tempo de 18 minutos de parada cardiorrespiratória, com consequência "de extensa lesão cerebral". No documento, a médica Natália alega ter utilizado três medicamentos, entre eles o cloridrato de ropivacaína. A bula desse composto orienta manuseio e aplicação somente em ambiente clínico, com equipamentos de monitoramento e suporte à vida.
A mãe pensava que Natalia havia sido essencial no socorro, mas se revoltou ao descobrir que o medicamento era de uso restrito a unidades de saúde e não poderia ter sido aplicado em casa.
"Eu achava que a Natália tinha salvado a vida da Letícia, cheguei a mandar mensagem agradecendo. Até que me falaram que esse procedimento não poderia ter sido feito em casa. Um dos três medicamentos jamais poderia ter saído de uma clínica ou hospital", alerta.
Denúncia por tentativa de homicídio
A família de Letícia, então, tentou enviar uma planilha de custos do tratamento para Natalia e acionou um advogado. "Foi um soco no estômago, eu fiquei arrasada. Ela me chamava de tia Flavinha. Letícia foi madrinha do casamento da Natália, fez um discurso lindo para ela. Procuramos um advogado para saber como agir e ele chegou a fazer contato para apresentar a planilha de gastos, que são enormes. Natalia tentou me mandar mensagem em novembro, mas estava tão arrasada que não respondi. Depois mandei mensagem dizendo que sabia que o medicamento não poderia estar na casa dela, que ela acabou com minha vida e com a vida da Letícia no auge", desabafa. "Até hoje a gente deve ter gastado R$ 500 mil".
A família questiona os atos de Natália e fez uma queixa-crime no Ministério Público por tentativa de homicídio.
"Fizemos denúncia ao CRM pedindo a cassação do registro da Natália. No MP, fizemos a queixa-crime para investigar o dolo eventual, já que a Natália sabia dos riscos, sabia que a Letícia podia ter uma parada cardíaca, e mesmo assim assumiu fazer o tratamento na casa dela", aponta a mãe.
Respostas
Após contato com a Itatiaia, a médica Natália Peixoto de Azevedo Kalil, que é casada com um dos filhos do ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, disse que não iria se pronunciar sobre os relatos da família de Letícia.
Procurado pela Itatiaia, o Conselho Regional de Medicina de Minas alegou que "todos os procedimentos abertos correm sob sigilo, conforme previsto no Código de Processo Ético Profissional".
Mineiro de Urucânia, na Zona da Mata. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Ouro Preto (2024), mesma instituição onde diplomou-se jornalista (2013). Na Itatiaia desde 2016, faz reportagens diversas, com destaque para Política e Cidades.



