Itatiaia

Construída sobre trilhos, Belo Horizonte só foi um projeto possível através das ferrovias

História da capital planejada passa pela utilização dos trens como instrumento para a construção civil e para a integração do território

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Estação Central ajuda a contar a importância das ferrovias para a construção de BH
Estação Central ajuda a contar a importância das ferrovias para a construção de BH • Isabel Baldoni/PBH

A história da construção de Belo Horizonte, primeira cidade brasileira planejada na republicana, pode ser contada como um dos capítulos das ferrovias como instrumento de integração do território mineiro. As ferrovias foram uma espécie de espinha dorsal que permitiu a transformação do antigo Arraial do Curral Del Rei na capital mineira. O transporte sobre trilhos teve papel fundamental na construção do espaço urbano e, posteriormente, permitiu a integração da região metropolitana até seu ocaso concomitante à falta de investimentos generalizada no modal vivida no Brasil.

Em entrevista à Itatiaia, o professor da Faculdade da Educação da UFMG e pesquisador da história das ferrovias no Brasil, Pablo Luiz Lima, tratou sobre a intrínseca relação entre os trilhos da integração do território mineiro com a construção da nova capital desde os tempos de seu planejamento em Ouro Preto, antigo centro administrativo do estado.

 

“A ideia de construir uma nova capital surge no fim do século XIX. O decreto é de 1893 da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais e a comissão construtiva da nossa capital vai pesquisar a localidade para construir essa nova cidade e acaba escolhendo a região do Curral del Rei, que era relativamente próxima a Ouro Preto, mas não era atendida pela ferrovia ainda. Então, tudo começa na história de Belo Horizonte com o ramal ferroviário de Sabará até a Praça da Estação. Sabará já era servida pela estrada de ferro Central do Brasil. Então, em 1894, 1895, é construído o ramal que vem até a Praça da Estação, em BH. Depois, esse ramal é expandido, ele atravessa a região da cidade, vai para o Oeste e Sul de Minas e  Belo Horizonte acaba se tornando um polo de radiação ferroviária”, analisa o professor.

 

Pátio de obras

 

Antes mesmo da inauguração oficial da cidade em 12 de dezembro de 1897, a ferrovia já operava. O ramal ferroviário entre a Estação de General Carneiro, em Sabará, e a então chamada Estação Minas foi inaugurado em 7 de setembro de 1895, mais de dois anos antes da própria capital.

 

Este ramal foi essencial para o transporte de pessoal e materiais de construção que vinham de fora, inclusive do Rio de Janeiro. Entretanto, a logística interna da cidade também dependia dos trilhos. Para viabilizar a obra faraônica, a Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) estabeleceu uma “rede de viação férrea urbana e suburbana” para o transporte de pedras das diversas pedreiras da região. 

 

Sem essa malha, a construção teria sido impossível, conforme relatos da época que afirmam que o decreto da mudança da capital teria sido “sufocado” pela inviabilidade prática, como destaca material consultado pela reportagem junto à equipe de pesquisa do Museu Histórico Abílio Barreto (MHAB), instituição dedicada aos primórdios da história belo-horizontina.

 

A cidade foi esculpida com pedras transportadas por trens em ramais férreos que conectavam o Centro às principais pedreiras, como as de Acaba Mundo, Morro das Pedras, Lagoinha e Pedreira Prado Lopes.

 

Entre 1895 e 1897, estima-se que 108 mil toneladas de pedras tenham circulado por esses ramais urbanos, movidas por sete locomotivas.

 

Integração da nova capital

 

Os trilhos seguiram importantes além da construção material da nova capital. Sobre as ferrovias se deu a consolidação de Belo Horizonte como o centro urbano que coordenaria todas as regiões dos 586.514,008 km² contidos nos limites de Minas Gerais. 

 

O professor Pablo Lima observa que a ferrovia aliada à política da criação da nova capital  promoveu a integração de Minas Gerais. Essa presença tão forte, por exemplo, consolidou a palavra "trem" no vocabulário identitário do mineiro, inicialmente referindo-se ao maquinário complexo da modernidade e, posteriormente, tornando-se um termo polissêmico e utilizado em uma infindável variedade de contextos.

 

O professor da UFMG destaca como as ferrovias foram importantes para a mobilidade na Região Metropolitana de Belo Horizonte em suas primeiras oito décadas de existência, uma história que ainda tem resquícios observáveis no traçado atual do metrô.

 

“Do início do século XX até os anos 1960, havia uma grande importância do transporte ferroviário na região que foi se tornando a Região Metropolitana de Belo Horizonte. Havia uma estação, por exemplo, entre Sabará e Belo Horizonte, que era a estação General Carneiro, que fazia uma ligação também com Nova Lima. Era uma ligação tripla. E essa malha ferroviária acabou dando também origem ao que veio a ser a linha do metrô. O metrô em Belo Horizonte acompanha o trecho, ferroviário que foi construído tanto pela Central do Brasil, quanto pela Estrada de Ferro Oeste de Minas [,,,] O período do sucateamento nos anos 1980 deu uma enfraquecida no transporte ferroviário interurbano, que acabou sendo substituído pelo metrô, que finalmente agora está em expansão novamente”, comentou o pesquisador.

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Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.

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Formado em Jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), é chefe de reportagem na Itatiaia. Trabalhou durante 10 anos no jornal Estado de Minas, onde foi estagiário, repórter, capista, subeditor e editor-assistente do em.com.br e do portal UAI. Também colaborou com matérias para o portal UOL e foi assessor de imprensa no Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM).

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Jornalista formado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) e pós-graduado em Jornalismo nos Ambientes Digitais pela mesma instituição. Possui experiência como repórter, produtor e coordenador de telejornal.

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Jornalista formado pela UFMG, Bruno Nogueira é repórter de Política, Economia e Negócios na Itatiaia. Antes, teve passagem pelas editorias de Política e Cidades do Estado de Minas, com contribuições para o caderno de literatura.

 

 

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