Astrofísica da UFMG descobre planeta que orbita estrela jovem: entenda
Esta também é a primeira descoberta de um planeta feita 100% dentro da UFMG por pesquisadora belorizontina

Uma pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) descobriu um novo planeta nos confins do nosso universo. É isso mesmo, o planeta GM Aurigae b tem massa similar à de Júpiter e orbita a estrela GM Aurigae. A responsável pela descoberta é Bonnie Zaire, natural de Belo Horizonte e pós-doutoranda do Departamento de Física da UFMG.
“Observar estrela (GM Aurigae) é como se a gente estivesse observando um recém-nascido com 16 dias de vida pra poder tentar entender um idoso (nosso Sol) de cem anos. A gente pode tentar entender sobre o Sol quando ele era jovem” explica ela.
O corpo celeste foi detectado orbitando no disco circunstelar de uma estrela T Tauri clássica, a GM Aurigae, em uma região de formação estelar situada a 521 anos-luz do Sol. Em suma: é longe. A rigor, trata-se de um candidato a planeta.
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Isso porque, por convenção do campo científico, o termo “candidato” é usado para se referir a planetas detectados pela primeira vez, por meio de uma técnica específica. O termo “confirmado” só passa a ser usado a partir do momento em que o planeta é detectado novamente, por meio de novos dados, coletados com outro telescópio, seja pelo mesmo ou por outro pesquisador. Nesse caso, tanto os responsáveis pela descoberta quanto os que a confirmaram recebem os créditos correspondentes.
Segundo o mapeamento feito por Bonnie Zaire, enquanto a estrela GM Aurigae tem o dobro do raio do nosso Sol, o planeta GM Aurigae b tem massa similar à de Júpiter. Mas, diferentemente do Júpiter do nosso Sistema Solar, aquele é um “Júpiter quente”, como os astrofísicos costumam dizer, já que o planeta se situa realmente muito próximo de sua estrela.
A descoberta
Para chegar à sua descoberta, Bonnie usou técnicas relacionadas à medição da velocidade radial (isto é, relacionadas à medição do movimento relativo que a estrela faz no sentido de se aproximar ou de se afastar do observador). Por meio delas, a pesquisadora pôde perceber que, em vez de fazer um giro perfeito em torno de si mesma, a estrela GM Aurigae de certa forma “dançava” em torno do seu centro.
Essa variação sugeria a hipótese de haver um corpo massivo no disco da estrela — um corpo com massa suficiente para que a força de atração da gravidade gerasse essa pequena variação na posição do astro maior. Era o planeta que ela descobriu.
A pesquisadora destacou também que é muito importante compreender como esses planetas são formados e como ocorre essa amplificação do campo magnético, para tentar entender, por exemplo, o futuro da Terra em relação ao Sol. “Existe um questionamento a respeito do campo magnético do Sol, que pode futuramente gerar alguns eventos danosos para a vida na Terra”, relatou a astrofísica.
A descoberta foi feita por meio de um telescópio situado a mais de 4 mil metros acima do nível do mar, em um vulcão no Havaí, arquipélago dos Estados Unidos. O céu havaiano e a ausência de poluição luminosa urbana tornam a localização estratégica para pesquisas relacionadas à busca de exoplanetas.
Quem é Bonnie Zaire?
Bonnie Zaire tem 30 anos e é natural de Belo Horizonte. Além de ser bacharel e mestre em Física pela UFMG, é doutora em astrofísica pela Universidade Paul Sabatier, em Toulouse, na França. Sua dissertação de mestrado tinha como objetivo investigar a geração de campos magnéticos em estrelas com a mesma massa do Sol, mas com diferentes idades.
Ao final do mestrado, ela precisou aprender uma técnica para reconstruir o campo magnético na superfície das estrelas, mas, na época, não havia especialistas da área no Brasil. Por conta disso, optou por cursar seu doutorado na França e trabalhar com Jean-François Donati, pesquisador líder mundial dessa metodologia.
A primeira detecção de um planeta, ou sistema planetário, orbitando uma estrela jovem com disco protoplanetário ocorreu no fim da década passada. Segundo Bonnie, dos 5.747 planetas detectados até hoje, apenas três foram identificados em estágios iniciais. GM Aurigae b, descoberto na UFMG, é um deles.
Esta também é a primeira descoberta de um planeta 100% feita dentro da UFMG.
“Eu fico muito feliz em liderar essa pesquisa que levou à detecção de um planeta, não só pela importância que ela tem do ponto de vista científico, mas também porque fiz essa descoberta enquanto pós-doc do Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais”, declarou a astrofísica.
Zaire, que em breve será professora no Departamento de Física da UFMG, foi aprovada no último concurso para docente e explicou que pretende montar um grupo alinhado com outros pesquisadores do departamento. “É um reconhecimento também para a sociedade, de colocar o Brasil como um país que desenvolve ciência de ponta” conclui a Professora da UFMG.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), já trabalhou na Record TV e na Rede Minas. Atualmente é repórter multimídia e apresenta o Tá Sabendo no Instagram da Itatiaia.



