Belo Horizonte
Itatiaia

A gente pediu chuva

Desejamos água nos tempos de seca e, já já, começaremos a reclamar do excesso de água e da saudade do so

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Padre Samuel Fidelis  • Padre Samuel Fidelis | Reprodução

O coração vive de procura. O que nos define e indica é que estamos sempre à "busca de", inquietos e insatisfeitos. Isso é o que significa ser humano, não ter lugar que nos caiba, satisfação suficiente, momento que seja para sempre. A gente pediu chuva, e ela vem vindo, timidamente, mas acertada. Desejamos água nos tempos de seca e, já já, começaremos a reclamar do excesso de água e da saudade do sol.

E vida é isso, um ciclo contínuo de "insatisfações". E é isso que a torna bela. A vida é bela porque é insatisfatória e porque passa. Por isso vale a pena apreciar cada momento, ainda que contraditório. Nós somos "instantes feitos de agora". É na distração e na procura que a vida acontece. Somos felizes distraídos na rotina.

Oxalá, que a rotina não nos adoeça! Porque nesse ritmo frenético de "ganhar o mundo”, o cotidiano pode ser tornar um peso insustentável. Aí a gente reclama. E reclamar demais não costuma fazer bem...

É preciso, aqui, nos entendermos bem. Uma coisa é o descontentamento sobre os outros e sobre vida. Outra bem diferente é ser ressentido. Todo mundo precisa de um bom, irônico, às vezes simpático, às vezes cínico, deboche dos outros e da vida para se manter "vivo". Isso não significa que a gente precisa colocar tudo na conta do "outro", com ressentimento e perversidade.

O problema nunca é um dia de sol ou de chuva, mas a insatisfação com a própria vida. Nenhum chefe chato nos "invade" se as portas já nãos estiverem arrombados pela desmotivação. Pensemos, por exemplo, num casamento: todo casamento tem desafios, meias verdades, opostos que ora se atraem, ora se distraem. Quando a convivência se torna monótona, podemos ser tentados a pensar que 'não era amor, era cilada'. No entanto, assim como na vida, esses momentos nos convidam à reflexão e, vendo o que há de bom, sermos mais gratos.

É justamente pensando na vida como um contínuo estado de gratidão que o Apóstolo Paulo sugere, em uma de suas cartas a: em tudo dar graças (Ts 5,18). Paulo escreve esse texto precisamente a um povo ansioso diante das "demoras" e dos desafios da existência.

Faça chuva ou faça sol, num ambiente favorável ou não, com mais ou menos recursos, se a dor é inevitável o sofrimento é opcional! Cabe a cada um de nós tirar o melhor, ver o melhor, buscar o melhor. Não há desculpa para seguir na direção errada! Em tempos de ansiedade, de extremos climáticos, de incertezas, de polarização, escolhamos leveza, sensibilidade ecológica, criatividade, espiritualidade; cerveja!

Em tudo demos graças! Para além do clima mais fresco, chegando por aqui, que seja um novo tempo!

No novo tempo

Apesar dos castigos

Estamos crescidos

Estamos atentos

Estamos mais vivos!

Em tudo daí graças! Deixe o pessimismo para tempos melhores. A vida, como o "tempo", é feita de estações. Você não está perdido, está só em processo....

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.