Jovem perde R$ 50 mil com 'Jogo do Tigrinho' e faz apelo após vício em apostas online
Moradora de Fortaleza relata dívidas, perda de bens e problemas psicológicos após anos em jogos virtuais

Moradora de Fortaleza, uma mulher de 29 anos, extensionista de cílios, viralizou nas redes sociais ao relatar o vício em jogos online, como o “jogo do tigrinho”. Em um depoimento emocionado, Assíria Macêdo revelou que perdeu cerca de R$ 50 mil, além de uma casa e da estabilidade familiar. Ela disse também que enfrenta graves problemas psicológicos.
O vídeo foi publicado em suas redes sociais e conta com mais de 200 mil visualizações até esta sexta-feira (17). O alto risco do vício preocupa especialistas, principalmente agora que os jogos on-line estão cada vez mais acessíveis por meio de aplicativos de celular, sem a necessidade de sair de casa.
Segundo Assíria, o envolvimento com as plataformas começou há cerca de quatro anos, motivado por promessas de ganhos rápidos. “Eu vi muita gente ganhando dinheiro, então pensei: ‘se está dando certo para eles, vai dar certo para mim também’. E no começo deu”, contou. Ela relatou também que chegou a ganhar valores entre R$ 10 mil e R$ 15 mil, o que contribuiu para o aumento da frequência nas apostas.
Com o tempo, no entanto, a situação saiu do controle. Assíria revelou que qualquer dinheiro no qual recebia ou que tivesse em sua conta banária, ela apostava.
“Se eu tivesse R$ 5 mil na conta, eu jogava os R$ 5 mil. Qualquer quantia que entrava, eu apostava. Isso me destruiu”, afirmou. A mulher reconhece hoje que desenvolveu um vício e que não percebia a gravidade da situação enquanto ainda estava envolvida nos jogos.
De acordo com o relato, as consequências atingiram diversas áreas da vida pessoal, inclusive dívidas com agiotas. Assíria também contou que o marido tentou ajudá-la a quitar os débitos, mas acabou também se endividando.
“Destruiu minha vida, meu casamento e afetou toda a minha família. Eu perdi tudo”, disse.
A profissional relatou ainda que os pais venderam imóveis para ajudá-la financeiramente, e que atualmente mora de favor, devido a dívida no valor de R$ 50 mil.
“Meu pai e minha mãe venderam as casas deles para pagar dívidas. Hoje a gente mora de favor. Já vendi praticamente tudo. Estou sem celular porque vendi para pagar dívida. Recentemente, levaram até a televisão da minha casa”, contou.
Problemas de saúde mental
Além das dificuldades econômicas, a mulher afirmou enfrentar problemas de saúde mental. Ela diz sofrer com ansiedade intensa, insônia e medo constante.
“Eu não consigo sair de casa. Se escuto uma moto ou alguém passando, eu paraliso. Faz semanas que não durmo direito”, relatou. Assíria também afirmou estar sob efeito de medicação para conseguir lidar com a situação.
O psiquiatra Elton Kanomata, do Hospital Israelita Albert Einstein, explicou, por meio de um artigo publicado na Agência Einstein, que os jogos são projetados para serem rápidos e intensos, provocando uma experiência de satisfação passageira.
Eles ativam o sistema de recompensa do cérebro, que está ligado à liberação de dopamina, um neurotransmissor que gera sensações de prazer.
"Quando uma pessoa aposta e ganha, essa liberação de dopamina gera uma sensação de prazer e recompensa que incentiva a repetir o comportamento”, explica Kanomata.
“Mas mesmo em situações de perda, o cérebro mantém a expectativa de que pode ganhar no próximo jogo. A mecânica por trás acaba por incentivar o engajamento repetido e contínuo.”
Sem condições de trabalhar, ela afirma que busca alternativas para se reerguer. Durante o desabafo, Assíria afirmou que atualmente procura emprego para quitar o que deve e ajudar os pais e a filha.
“Eu preciso de um emprego para ocupar minha mente e ajudar em casa. Estou entregando currículo em todo canto”, disse. Profissional da área de estética, ela conta que não consegue atender clientes devido ao estado emocional.
No depoimento, Assíria faz um apelo público por ajuda financeira e psicológica. “Esse é meu último pedido de socorro. Eu preciso pagar minhas dívidas e iniciar um tratamento. Reconheço hoje que sou viciada e preciso de ajuda”, finalizou.
Como detectar quando a pessoa tem um transtorno?
É preciso observar sinais comportamentais, emocionais e financeiros que indicam se a pessoa perdeu o controle.
Veja alguns deles abaixo
- Pode ocorrer um padrão de “recuperar as perdas”, acompanhado da necessidade urgente de continuar jogando (até tomando maiores riscos) a fim de compensar o que perdeu;
- Mentir para familiares, amigos ou outras pessoas para esconder a extensão de seu envolvimento e comportamentos ilícitos, como falsificação, fraude, roubo ou estelionato para a obtenção de dinheiro;
- Também vale ficar atento quando há negação, superstições, sentimentos de controle sobre os resultados e excesso de confiança;
- Mesmo que o indivíduo reconheça o problema, o estigma social, a vergonha e a falta de acesso a serviços de saúde podem dificultar o início e a continuidade do tratamento.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), já trabalhou na Record TV e na Rede Minas. Atualmente é repórter multimídia e apresenta o Tá Sabendo no Instagram da Itatiaia.
