Itatiaia

UFMG cria centro para desenvolver vacinas e terapias de RNA e prevê avanços contra doenças

Com investimento de R$ 60 milhões em quatro anos, nova estrutura busca aproximar universidade, indústria e sociedade e colocar Minas Gerais na fronteira da inovação em saúde

Por
UFMG cria centro para desenvolver vacinas e terapias de RNA e prevê avanços contra doenças
UFMG cria centro para desenvolver vacinas e terapias de RNA e prevê avanços contra doenças • Fabiano Frade

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) deu mais um passo para ampliar a produção nacional de tecnologias na área da saúde. O termo que implementa o Centro de Competência em Terapias e Vacinas de RNA foi oficializado na manhã desta segunda-feira (31), em solenidade realizada no BH-TEC, em Belo Horizonte, entre a UFMG e a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

Com investimento de R$ 60 milhões para os próximos quatro anos, o novo centro já trabalha nos primeiros projetos e tem entre as principais apostas o desenvolvimento de uma vacina de RNA contra a malária. A mesma tecnologia também poderá ser utilizada em terapias contra o câncer e outras doenças. A expectativa é que as obras sejam finalizadas no segundo semestre de 2027.

A proposta é aproximar a pesquisa produzida dentro da universidade do setor produtivo e acelerar o caminho entre a descoberta científica e a chegada de novos produtos à população.

Segundo a professora Santuza Teixeira, do Departamento de Bioquímica e Imunologia da UFMG e coordenadora do novo centro, o Brasil precisa ampliar sua capacidade de desenvolver e dominar essa tecnologia. “É uma tecnologia absolutamente inovadora, que já vem sendo dominada em vários países, e que o Brasil precisa também se colocar dentro desse contexto de inovação na área de vacinas e terapias”, explica.

Como funciona a tecnologia de RNA?

O RNA pode funcionar como uma espécie de instrução para que as células produzam determinadas proteínas ou desencadeiem respostas capazes de combater doenças.

A tecnologia ganhou notoriedade mundial durante a pandemia de Covid-19, com as vacinas de RNA mensageiro desenvolvidas por empresas como Pfizer e Moderna. Mas, segundo Santuza, o potencial da plataforma vai muito além das doenças infecciosas.

A tecnologia já vem sendo estudada e utilizada em diferentes aplicações, inclusive em tratamentos voltados para outras condições. A pesquisadora cita como exemplo terapias baseadas em RNA para a redução dos níveis de colesterol, algumas já aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e por órgãos reguladores de outros países.

Vacina contra a malária é uma das apostas

Entre os projetos do novo centro está o desenvolvimento de uma vacina de RNA contra a malária. A doença ainda é um importante problema de saúde pública no Brasil, especialmente na região amazônica. A expectativa da pesquisadora é que os estudos avancem nos próximos anos e que, em aproximadamente dois a três anos, possam começar os testes para avaliar a eficácia da vacina.

Para Santuza, desenvolver uma solução brasileira é estratégico porque a malária predominante no país apresenta características diferentes das encontradas em outras regiões do mundo.Já existem vacinas contra a doença desenvolvidas no exterior e utilizadas principalmente em países africanos. No entanto, segundo a pesquisadora, essas soluções não necessariamente atendem às particularidades da malária encontrada na Amazônia. “Então, o desenvolvimento da vacina de malária que vai resolver a malária no Brasil precisa ser feito pelas instituições brasileiras”, afirma.

RNA também pode ajudar no combate ao câncer

Outra frente considerada promissora é o tratamento do câncer.

A tecnologia pode ser utilizada para estimular o sistema imunológico a reconhecer características específicas das células tumorais e desencadear uma resposta contra elas.

Santuza cita resultados recentes de estudos clínicos envolvendo uma vacina de RNA contra o melanoma, um tipo de câncer de pele.

Nesse caso, a estratégia é diferente de uma vacina preventiva tradicional. O objetivo é utilizar informações específicas do tumor para estimular o próprio sistema imunológico do paciente a reconhecer e combater as células cancerígenas.

A pesquisadora ressalta, porém, que não existe uma única “vacina contra o câncer”, já que a doença reúne diferentes tipos de tumores. Alguns poderão responder mais rapidamente à tecnologia, enquanto outros ainda exigirão novos estudos. A estimativa é que vacinas destinadas a diferentes tipos de câncer possam avançar ao longo dos próximos cinco a dez anos.

Universidade e indústria mais próximas

Um dos principais objetivos do novo centro é aproximar a ciência produzida na universidade das empresas.

A estrutura conta com investimento do Ministério da Saúde e participação da Embrapii, instituição que atua no estímulo a projetos de inovação desenvolvidos em parceria entre instituições de pesquisa e empresas.

A instalação do centro no ambiente tecnológico da UFMG também deve facilitar a conexão com empresas do setor de saúde.

Para o presidente do Parque Tecnológico da UFMG, Marco Crocco, a proposta é transformar o conhecimento produzido nos laboratórios em soluções que efetivamente cheguem à sociedade.

O parque funciona como uma ponte entre a universidade e o setor produtivo, facilitando a transferência de tecnologias e a criação de projetos conjuntos.

Resultado de anos de investimento em ciência

A criação do centro é resultado de uma trajetória de investimentos da UFMG em pesquisas na área de vacinas.

A universidade já conta com estruturas como o CT-Vacinas e participa de projetos relacionados ao desenvolvimento de imunizantes, além da construção do Centro Nacional de Vacinas.

Para o reitor da UFMG, Alessandro Moreira, o novo centro representa mais uma etapa de um trabalho desenvolvido ao longo de 10 a 20 anos.

A expectativa é fortalecer a capacidade brasileira de desenvolver tecnologias próprias, diminuir a dependência de soluções produzidas no exterior e ampliar a participação do país em uma área considerada estratégica para a saúde.

Mais do que desenvolver novos produtos, a iniciativa pretende criar um caminho mais rápido entre universidade, empresas e sociedade, transformando conhecimento científico em vacinas, terapias e outras tecnologias que possam chegar à população.

Por

Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.

 

 

Belo Horizonte