'Super El Niño' em 2026 pode causar eventos climáticos extremos no Brasil
Pesquisadores alertam que combinação de fenômeno natural e aquecimento global intensifica riscos de chuvas, secas e erosão costeira no país

Pesquisadores brasileiros alertam sobre o risco de um 'super El Niño' em 2026, com a necessidade de o país se preparar para uma nova rodada de eventos climáticos extremos. Segundo especialistas ligados ao Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), a combinação do fenômeno natural com o aquecimento global pode intensificar chuvas torrenciais, ondas de calor, estiagens prolongadas e processos de erosão costeira, afetando diversas regiões do Brasil.
Os cientistas destacam que o maior desafio está nas áreas costeiras, onde vivem milhões de brasileiros em regiões sujeitas a alagamentos, deslizamentos de terra e ressacas. Além da elevada concentração populacional, essas localidades perderam parte de suas defesas naturais ao longo das últimas décadas, tornando-se mais vulneráveis aos efeitos da elevação do nível do mar e de tempestades mais intensas.
Para Marcus Polette, professor da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e integrante da rede INPO, o cenário exige medidas preventivas antes mesmo da confirmação do fenômeno. Ele ressalta que é crucial que o Brasil se prepare, pois o El Niño ameaça o Sul até 2027 com impactos que já vêm sendo registrados, impulsionado pelas mudanças climáticas.
"O El Niño não representa apenas uma mudança na temperatura do Oceano Pacífico. Em um planeta já aquecido, ele amplia a frequência, a intensidade e a duração de ondas de calor, secas e chuvas extremas", afirma Polette.
O alerta ocorre após um relatório do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) apontar que 2025 foi marcado por uma sucessão de eventos climáticos severos em praticamente todas as regiões do país.
Além do aumento da frequência dos eventos extremos, pesquisadores chamam atenção para outro fator que amplia os riscos no litoral brasileiro: a redução dos estoques naturais de sedimentos.
Segundo Nils Edvin Asp, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), praias, dunas e outros ambientes costeiros dependem da reposição contínua de areia e sedimentos para manter sua estabilidade. Em grande parte do litoral brasileiro, porém, esse equilíbrio foi comprometido, deixando a costa mais suscetível à erosão e ao avanço do mar. A situação preocupa especialmente em áreas urbanizadas, onde a ocupação intensa reduziu a capacidade natural de absorver os impactos provocados por tempestades e ressacas.
Vulnerabilidade no Norte
Na região Norte, os pesquisadores apontam outro fator de vulnerabilidade: a combinação entre extensos manguezais, grandes variações de maré e relevo plano. Nessas áreas, pequenas elevações do nível do mar podem provocar o avanço da água por longas distâncias, alterando ecossistemas e afetando comunidades inteiras.
Caso o El Niño se consolide, seus efeitos não deverão ser sentidos da mesma forma em todo o país. Os pesquisadores lembram que episódios anteriores do fenômeno provocaram aumento das chuvas no Sul e em parte do Sudeste, favorecendo enchentes, deslizamentos e alagamentos.
Já na Amazônia, o comportamento costuma ser oposto. A redução das chuvas favorece secas severas, diminuição do nível dos rios, dificuldades para transporte fluvial, problemas no abastecimento de água e isolamento de comunidades ribeirinhas.
O relatório mais recente da Organização Meteorológica Mundial (OMM) aponta cerca de 80% de probabilidade de desenvolvimento do El Niño entre julho e agosto de 2026, com chances superiores a 90% de permanência até novembro do mesmo ano.
Para reduzir os impactos, os pesquisadores defendem uma estratégia baseada tanto em obras de infraestrutura quanto na recuperação dos próprios ecossistemas naturais. Entre as prioridades estão o fortalecimento dos sistemas de monitoramento meteorológico e oceanográfico, a atualização dos planos de contingência da Defesa Civil, o mapeamento das áreas de maior risco e investimentos em drenagem urbana.
Também ganham destaque soluções baseadas na natureza, como a recuperação de manguezais, restingas, áreas úmidas e matas ciliares, que ajudam a conter enchentes, estabilizar o solo e reduzir a erosão costeira. Na Amazônia, uma das medidas apontadas como alternativa para enfrentar períodos de estiagem é ampliar a utilização de cisternas para armazenamento de água da chuva, modelo já empregado em regiões do semiárido brasileiro.
Os pesquisadores também defendem ampliar o monitoramento do litoral brasileiro. Atualmente, o país ainda possui lacunas na coleta contínua de informações sobre nível do mar, ondas, marés e transporte de sedimentos, dados considerados essenciais para prever impactos e orientar políticas públicas.
Para Polette, adaptar cidades e comunidades aos novos padrões climáticos deixou de ser uma discussão de longo prazo e passou a ser uma necessidade imediata.
"A integração entre ciência, planejamento territorial, governança e adaptação climática será determinante para aumentar a capacidade de resposta dos territórios diante de eventos extremos que tendem a se tornar mais frequentes e intensos", conclui o professor.
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