Estradas em más condições elevam gastos do setor de eventos
Produtores e artistas afirmam que rodovias precárias encarecem logística e ajudam a elevar o valor de ingressos

Quando as luzes se acendem e o artista sobe ao palco, para quem está na plateia, é hora de aproveitar. Mas, antes do show começar, teve muita gente e muita coisa que precisou pegar a estrada.
A operação de logística tem um custo alto. O microempresário Wanderson Serafim, mora em Belo Horizonte, e gosta de curtir shows e apresentações musicais. Mas, recentemente, ele percebeu que o lazer está ficando mais caro.
"Está um pouco aqui salgado. Eu acho que essa inflação de evento aumentou muito, sabe? Ficou um pouco mais caro, porque se a gente for fazer uma uma estimativa de dois anos para cá depois da Covid, teve um aumento significativo".
O preço de um ingresso depende de uma série de fatores. Mas tem uma conta que o público nem sempre enxerga: a logística para fazer o espetáculo chegar até a cidade.
A Itatiaia conversou com um dos produtores do cantor Alexandre Pires, um dos principais artistas do país. O produtor nos disse que uma parte considerável envolvendo o show que quase ninguém vê.
Antes do artista, precisam chegar os equipamentos, a estrutura e toda uma equipe responsável por colocar o show de pé. Responsável pela produção técnica do cantor mineiro, Marcelo Roberto, destacou que viajar de uma cidade para outra exige uma operação e tanto.
"Uma carreta, um caminhão baú e um ônibus que leva a equipe, entendeu? Então o que acontece? De um show para outro a gente roda até 700 km de um show para outro. Mais que isso já já começa a complicar um pouquinho, entendeu? Porque as estradas não são boas, a gente não depende só das estradas, né? Pode ocorrer algum acidente, alguma coisa na estrada, entendeu? Algum imprevisto que faz a equipe chegar atrasada e atrasar o evento. O Alexandre, no caso, ele sobe, pede desculpa, fala que a culpa não foi nossa", explicou Marcelo Roberto.
O setor de entretenimento movimenta bilhões. Apenas no primeiro bimestre deste ano, o consumo ligado ao setor de eventos ultrapassou R$ 25 bilhões, segundo a Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape).
E quanto maior esse mercado, maior também o peso de uma logística que depende de deslocamentos por todo o Brasil. Carlos Alberto Xaulim, produtor de eventos e shows em todo o país e ex-presidente da Abrape, explica que o transporte acaba entrando na conta do chamado Custo Brasil.
"O entretenimento tem essa peculiaridade de ser impactado por situações provisórias e que isso afeta muito o custo final do ingresso. Não são as estradas, mas é muito ruim, o cara vai cobrar o frete mais caro e, enfim, tudo aquilo que sai da normalidade impacta o preço final dos ingressos, como impacta também qualquer outra atividade econômica", fala Xaulim.
Um dos principais nomes da música brasileira, o cantor Lobão conhece bem essa rotina. São mais de 50 anos de carreira e milhares de quilômetros percorridos para levar música de uma cidade para outra. O artista lembra que,em outros momentos, era mais fácil contar também com o transporte aéreo para deslocar artistas, equipes e parte dos equipamentos.
"Antigamente você fazia, botava tudo no avião. Hoje em dia você não pode botar mais nada no avião. Praticamente eles fazem para inviabilizar. Você fica reduzido a sua malha rodoviária, que é muito deficitária, né? Certo. Algumas partes. Então o negócio era fazer, pô, eu peguei ainda a época do trem de prata, que eu pegava o Rio de São Paulo, que era a única, a gente levava no vagão de trem, no vagão de carta, a gente montava bateria, ficava tocando lá, é tudo, o transporte é muito mais barato, é é muito mais rápido e seria pro tamanho do Brasil seria fundamental a gente ter uma malha ferroviária possante".
E quando a gente se fala em alternativas à rodovia, aparece uma discussão que vale não só para o entretenimento, mas para toda a economia: divisão entre estradas, ferrovias e outros modais.
O presidente da Federação das Empresas de Transportes de Cargas e Logística de Minas Gerais (FETCEMG), Gladstone Lobato, afirma que não existe uma solução única. O cenário ideal, segundo ele, é justamente combinar os diferentes meios de transporte.
"A gente não trabalha para só ter estrada, nós trabalhamos é para ter uma o multimodal. O primeiro e o último quilômetro não vai entrar na sua casa para entregar nada. Ferrovia não vai entrar em toda a indústria para entregar nada. E a rodovia sim, o o sistema rodoviário, sim. Então, a gente tem que estudar, a gente tem que sentar na mesa, tratar isso com mais maior importância possível, essa multimodalidade".
Especialistas apontam que há uma margem grande de crescimento de rodovias. O secretário nacional de Transporte Ferroviário, Leonardo Ribeiro, diz que hoje cerca de 20% das cargas são transportadas pelas ferrovias e que a meta é ampliar significativamente essa participação.
Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.
Correspondente da Rádio Itatiaia em São Paulo. Apresentador do quadro Palavra Aberta e debatedor do Conversa de Redação. Ingressou na emissora em 2023. Começou no rádio comunitário aos 14 anos. Graduou-se em jornalismo pela PUC Minas. No rádio, teve passagens pela Alvorada FM, BandNews FM e CBN, no Grupo Globo. Na Band, ocupou vários cargos até chegar às funções de âncora e coordenador de redação na Band News FM BH. Na televisão, participava diariamente da TV Band Minas e do Band News TV. Vencedor de nove prêmios de jornalismo. Em 2023, foi reconhecido como um dos 30 jornalistas mais premiados do Brasil.
Supervisor da Rádio Itatiaia em Brasília, atua na cobertura política dos Três Poderes. Mineiro formado pela PUC Minas, já teve passagens como repórter e apresentador por Rádio BandNews FM, Jornal Metro e O Tempo. Vencedor dos prêmios CDL de Jornalismo em 2021 e Amagis 2022 na categoria rádio





