Com nova decisão do STJ, viagens de ônibus por app podem ser interrompidas por fiscalização
'O passageiro vai ter que descer do ônibus e ter que arrumar outra maneira de viajar. O ônibus vai ser apreendido', afirma Letícia Pineschi, diretora-geral da Abrati

Uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) pode mudar a rotina de quem utiliza plataformas de venda de passagens de ônibus. O ministro Marco Aurélio Bellizze acatou um recurso da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e manteve a exigência de circuito fechado para o transporte de passageiros por fretamento.
A decisão, publicada em 2 de setembro, reformou entendimento do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), que havia considerado ilegal a exigência prevista no Decreto 2.521/98 e na Resolução 4.777/2015 da ANTT.
Circuito fechado
O chamado circuito fechado determina que o mesmo grupo de passageiros faça a viagem de ida e volta no mesmo veículo. O modelo é diferente do adotado por plataformas que vendem passagens individuais, com horários e trajetos regulares. Para o STJ, essa operação configura prestação irregular de serviço de transporte e concorrência desleal com empresas autorizadas a operar linhas regulares.
Rotina do passageiro
A consequência pode ser sentida diretamente pelo passageiro. Segundo Letícia Pineschi, diretora-geral da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Terrestre de Passageiros (Abrati), a fiscalização pode interromper uma viagem.
“Ele pode multar, e mais do que isso, não é apenas uma multa. A empresa não pode operar, porque foi considerado ilegal o modelo”, afirma.
Minas Gerais
Pineschi destaca que, em Minas Gerais, existe uma lei estadual que proíbe o circuito aberto no transporte intermunicipal. Com a decisão do STJ, segundo ela, o entendimento passa a ter impacto também no restante do país.
“O passageiro, ao ser fiscalizado o veículo e ser constatado que está operando em circuito aberto, vai ter que descer do ônibus, vai ter que arrumar outra maneira de viajar. O ônibus vai ser apreendido, vai ser todo um problema para o passageiro”, diz.
Para a Abrati, o circuito fechado não é uma barreira à inovação, mas uma forma de garantir igualdade de condições entre os operadores.
“O fretamento tem regras próprias e não pode ser utilizado pelo operador irregular para contornar as responsabilidades e os compromissos do serviço regular de transporte, praticando a venda individual de passagens e operando em circuito aberto”, afirma Pineschi.
Recursos
A disputa ainda deve chegar ao Supremo Tribunal Federal. A Corte adiou, em 26 de agosto, o julgamento do RE 1.506.410, relatado pela ministra Cármen Lúcia, que discute a constitucionalidade da lei mineira que exige o circuito fechado e veda a intermediação por plataformas digitais. Ainda não há nova data para o julgamento.
Enquanto isso, a decisão do STJ fortalece a posição da ANTT e aumenta o risco de interrupção de viagens realizadas fora das regras do fretamento. Para a Abrati, “sem isso, não há concorrência, há privilégio”.
Edilene Lopes é jornalista, cientista política, repórter e colunista da Itatiaia e analista da CNN Brasil. Com experiência em coberturas nacionais e internacionais, tem ampla experiência em entrevistas exclusivas com presidentes da República. Foi eleita a melhor repórter de rádio do Brasil pelo Troféu Mulher Imprensa e também venceu o Prêmio Jornalistas Negros +Admirados.



