Ouça a rádio

Ouvindo...

Times

Brasil já disputou região de Essequibo, alvo de conflito entre Venezuela e Guiana

No século XIX, Brasil tentou anexar e perdeu parte deste território quando a Guiana era uma colônia britânica

GUIANA-VENEZUELA-ESSEQUIBO

Território de Essequibo, na Guiana, é disputado pela Venezuela

MARTIN SILVA/AFP

A Venezuela reivindica a incorporação de uma parte da Guiana a seu território. A região, rica em petróleo, é conhecida como Essequibo. O que poucos sabem, é que o Brasil já disputou um território com a Guiana - então colônia britânica no século XIX - e perdeu.

Além deste, o único território que o Brasil já perdeu foi a atual região de Colônia de Sacramento, para o Uruguai.

Em 1814, a Espanha, que controlava a Venezuela, cedeu a região de Essequibo à Grã-Bretanha. Entretanto, o Brasil também reivindicava parte dessa área, alegando que ela fazia parte do antigo território da Capitania de São José do Rio Negro, criada por Portugal em 1755. A região abrangida pela capitania incluía partes dos territórios que hoje fazem parte do Amazonas, Roraima e Amapá.

Portanto, o Brasil não reivindicou o território de Essequibo que hoje está em disputa com a Venezuela, mas um trecho próximo à fronteira com o estado de Roraima.

A ‘Questão do Rio Pirara’ foi uma arbitragem internacional que delimitou as fronteiras em 1904 e pôs fim à disputa do Brasil com o Reino Unido de uma região de 19.630 km².

A arbitragem foi conduzida pelo rei da Itália, Vitório Emanuel III. Como resultado, a Grã-Bretanha ficou com dois terços do território disputado, incluindo o Rio Pirara e a região de Essequibo, e o Brasil anexou o restante.

No entanto, a região de Essequibo vai muito além do Rio Pirarara, compreendendo uma região com 159.500 km². O Rio Pirarara é um afluente do Rio Cuyuni, que, por sua vez, é um dos afluentes do Rio Essequibo.

Origem do conflito

O rio Pirara é um afluente do rio Cotingo, que, por sua vez, é um afluente do rio Essequibo - área em disputa hoje entre Venezuela e Guiana. A região era habitada por índios da etnia macuxi. No século XVIII, a região foi explorada por ingleses e portugueses, que estabeleceram postos comerciais e missões religiosas.

A disputa entre Brasil e Reino Unido sobre a região começou em 1829, quando o Brasil enviou uma expedição militar para explorar a região. O Reino Unido protestou contra a expedição, alegando que a região pertencia à Guiana, que era uma colônia britânica.

Os dois países tentaram resolver a disputa por meio de negociações diplomáticas, mas não chegaram a um acordo. Em 1842, os dois países concordaram em neutralizar a região, o que significava que nenhum dos dois países teria controle sobre ela.

A disputa continuou até 1904, quando o rei Vítor Emanuel III da Itália decidiu que a maior parte da região pertencia ao Reino Unido. O árbitro considerou vários fatores, incluindo documentos históricos. O Brasil aceitou a decisão.

Disputa por Essequibo

Antes da independência dos países sul-americanos, as fronteiras das regiões eram frequentemente disputadas entre as potências coloniais europeias, principalmente a Espanha e Portugal. A região de Essequibo fazia parte do amplo território colonial espanhol na América do Sul.

A disputa histórica pela região remonta ao século XVI, quando a Espanha começou a explorar a região do rio Amazonas. A Espanha criou a Capitania de Guayana em 1568, que incluía a região de Essequibo, Venezuela, Guiana, Suriname e do Norte do Brasil.

No entanto, a Capitania de Guayana foi abandonada em 1777, após a Guerra dos Sete Anos, e foi contestada por várias potências europeias, incluindo Espanha, Portugal, França, Países Baixos e Grã-Bretanha.

Os holandeses estabeleceram uma presença significativa na região de Essequibo, parte da Guiana, durante o século XVII, visando explorar recursos naturais, especialmente o comércio de açúcar. A Guiana Holandesa, que incluía Essequibo, permaneceu sob controle dos holandês até o final do século XVIII. O Tratado de Paris, de 1814, que encerrou as Guerras Napoleônicas, oficializou a transferência de controle da Guiana Holandesa para os britânicos.

A Venezuela, que conquistou a independência da Espanha em 1810, passou a reivindicar o território de Essequibo, mas perdeu a disputa em 1899 com o Laudo Arbitral de Paris, que decidiu que a área pertencia à Guiana Britânica.

Recrudescimento do conflito

A disputa pela região voltou à tona após a descoberta de campos de petróleo na região, em 2015. As negociações entre a Guiana com a petrolífera norte-americana ExxonMobil para exploração dos poços foi o estopim para o retorno do conflito com a Venezuela. As jazidas de petróleo aumentaram as reservas da Guiana em pelo menos 10 bilhões de barris, superando as de Kuwait e Emirados Árabes, e foi responsável pelo crescimento significativo do seu PIB (Produto Interno Bruto).

A Guiana se baseia em um laudo arbitral de 1899, no qual foram estabelecidas as fronteiras entre os países, para assumir a região de Essequibo. A Venezuela, por outro lado, reivindica o Acordo de Genebra, firmado em 1966 com o Reino Unido, antes da independência da Guiana, no qual o laudo arbitral foi anulado.

O Acordo de Genebra, assinado em 17 de fevereiro de 1966, não resolveu a disputa territorial entre Venezuela e Guiana, mas estabeleceu que os países devem buscar uma solução pacífica. A disputa persiste na ONU, no âmbito da Corte Internacional de Justiça (CIJ), desde 1982. No entanto, a jurisdição do Tribunal de Haia é rejeitada pelo Estado venezuelano.

Lula não quer guerra

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) expressou, nesta quinta-feira (7), preocupação com a crise entre Venezuela e Guiana, reforçando o desejo de evitar conflitos armados na América do Sul.

“Uma coisa que não queremos aqui na América do Sul é guerra, nós não precisamos de guerra, não precisamos de conflito”, disse o presidente durante a cúpula do Mercosul no Rio de Janeiro.

Lula propôs a mediação da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e pediu uma declaração conjunta do Mercosul sobre a situação.

Plebiscito

O governo da Venezuela propôs a criação da “Guiana Essequiba” após um referendo aprovado por 95% da população. O presidente Nicolás Maduro chegou a divulgar um ‘novo mapa’ da Venezuela com incorporação de Essequibo e anunciou licenças para explorar petróleo na região. Em resposta, os Estados Unidos anunciaram exercícios militares na Guiana - sem mencionar o interesse em petróleo.

*Com informações da AFP

Siga o canal da Itatiaia no WhatsApp: https://whatsapp.com/channel/0029Va5comADp2QA0xVtNN04

Formado em Jornalismo pela UFMG, com passagens pelo jornal Estado de Minas/Portal Uai e produção de vídeos para a Labe Tecnologia. Hoje, é repórter multimída da Itatiaia na área de Tendências Digitais.
Leia mais