Feijão-caupi avança no Sul e pode virar alternativa à soja
Estudos da Embrapa indicam boa adaptação do grão, com produtividade e resistência à seca no RS, SC e PR

A Embrapa Meio-Norte e a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) estão testando cultivares de feijão-caupi adaptadas ao Sul do Brasil. Os estudos começaram em dezembro de 2025 e incluíram a região na rede nacional de avaliação coordenada pela Embrapa. Mesmo em fase inicial, os resultados indicam que algumas variedades apresentam boa adaptação e desempenho produtivo. O trabalho é inédito, já que não há cultivares do grão registradas no Ministério da Agricultura e Pecuária para cultivo no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
Segundo o pesquisador da Embrapa Meio-Norte, Kaesel Jackson, a iniciativa surgiu da demanda da classe produtora gaúcha por culturas alternativas, principalmente em função das estiagens que a região enfrenta e que impactam de forma severa culturas como arroz e soja.
“Em algumas áreas, a produtividade da soja caiu para apenas 20 sacas por hectare, o que torna a atividade economicamente inviável. O feijão-caupi, o feijão-mungo e o gergelim foram apresentados como opções para sistemas integrados de produção, permitindo mais de um ciclo de safra e maior resistência ao déficit hídrico”, explicou o pesquisador.
Em lavouras de produtores parceiros, o feijão-caupi registrou médias superiores a 29 sacas por hectare. "O resultado está melhor do que se previa. O feijão deve ganhar espaço na região, especialmente pensando no mercado de exportação”, afirmou Jackson.
O fitopatologista e professor da UFMS, Jansen Santos, afirmou que o interesse dos produtores no grão é crescente e que os resultados dos ensaios serão decisivos para reduzir a incerteza dos produtores, ao indicar quais cultivares realmente se adaptam às condições da região.
“O feijão-caupi reúne características que favorecem sua adoção, como ciclo curto, tolerância a estresses e potencial para uso em rotação de culturas, o que tem despertado atenção do setor produtivo. Ele pode ser uma excelente opção para produtores do Rio Grande do Sul, que buscam diversificar seus sistemas de cultivo, especialmente como alternativa para enfrentar desafios recentes, como as condições climáticas adversas no estado”, afirmou.
Avanço dos experimentos
A UFSM recebeu uma coleção de cultivares de feijão-caupi, com tipo de grãos para a exportação, desenvolvidas pela Embrapa. No primeiro experimento, já é possível observar um bom desenvolvimento vegetativo das plantas e a maioria das cultivares está produzindo boa quantidade de vagens e de grãos.
“Quando esse primeiro experimento for concluído, já será possível ter uma avaliação inicial das cultivares mais promissoras para o cultivo na região Sul do Brasil. Essas cultivares serão avaliadas em outros locais em experimentos multi-ambientes e aquelas que apresentarem melhor desempenho agronômico terão a extensão do seu registro para as regiões de adaptação”, explicou a melhorista genética e professora da Universidade, Nerinéia Ribeiro.
O objetivo principal da pesquisa é o desenvolvimento de cultivares de feijão-caupi, com tipo de grãos para a exportação, com arquitetura de planta ereta, alta produtividade de grãos, resilientes à seca, resistentes a nematoides e de alto valor nutricional. Essas cultivares serão uma alternativa de cultivo para o Sul do Brasil, proporcionando nova fonte de renda aos produtores rurais. Os estudos com nematoides também já avançaram na identificação de materiais com maior nível de resistência, ampliando as perspectivas para o feijão-caupi na região.
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



