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Prosa Poética, no programa Tarde Ponto Com, por Mary Arantes: 'Roupas no varal'

Por Mary Arantes, 07/05/2020 às 16:29
atualizado em: 07/05/2020 às 16:31

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Foto: Pixabay
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“Descobri nesta quarentena, que estender roupa no varal, na pequena área de um apartamento, é trabalho tão difícil quanto fazer um crochê ou um bordado”, me disse outro dia Cristiana Marzagão. 

Já Lilia Chiari me disse que desenvolveu uma técnica, que quando vai estender roupas de cama no varal, já o faz com as dobras que facilitam o modo de passar.

O truque de colocar vestido e camisas pra secarem no cabide, também foi lembrado.

O assunto não passar roupas veio completamente à tona nesta quarentena.

Assunto assentado no fundo da gaveta, que eu não queria que viesse à tona, tamanha resistência tinha.

Meus filhos e noras, sempre me disseram, ninguém mais passa roupa!!!

Como assim gente, impossível dormir numa cama com as roupas sem passar?

Qual prazer existe nisso? Perguntava pra eles.

Gabi? Por exemplo, aquelas camisas brancas de tricoline e linho que você tem.

Como você vai trabalhar com elas amassadas? Uai, chego pra reunião linda e finjo que amassaram no metrô, no ônibus, por aí.

Até link com matéria sobre o assunto a danada me enviou, e pela primeira vez na vida, neste isolamento pus um vestido de malha, sem passar...

Saí do quarto com vergonha de mim mesma, na minha cara estava escrito, des-ma-ze-la-da!!!

Imaginei minha mãe revirando no túmulo pelas toalhas de banho que deixei sem passar, meias e calcinhas, idem.

E panos de prato também.

Mãe, sonhei e lembrei de você muito neste isolamento, e não teve como, nesse quesito, roupas no varal, não pensar em como você fazia.

Lembrei de você fervendo roupas num tacho de cobre imenso, para clarear.

Do anil colocado nas roupas brancas pra quarar, e que jamais misturava pra lavar, calcinhas com cuecas.

Tenho certeza que você acreditava que havia uma chance de um espermatozoide ainda presente na cueca, engravidar uma de minhas calcinhas.

Lembrei dos seus paninhos engomados sob os bibelôs na prateleira e do caminho de mesa, sem uma ruga, impávido sobre a mesa.

E agora via o legado que você me deixou, das roupas engomadas, ir pelo ralo nesses dias sombrios.

Deixar de passar roupas tem sido para mim, uma atitude grave, transgressora.

Romper padrões fixados há décadas é algo extremamente doloroso.

Cris me disse também que na hora de dependurar o lençol, no pequeno varal do apartamento, acontecia de uma hora a ponta dele esbarrar na caixa de areia suja de xixi, da gata Mia, ou esbarrar num montinho de lixo, que tinha juntado na área, e que ficou ali pra ser pego depois.

E lá ia ela lavar o lençol de novo e de novo.

Só sei que nestes dias de isolamento, aprendemos a valorizar mais e mais, funções feitas por nossos funcionários, que não imaginávamos serem tão complexas.

É que todo ofício tem lá sua ciência.

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