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Prosa Poética, no programa Tarde Ponto Com, por Mary Arantes: 'O caso da xícara'

Por Mary Arantes, 23/04/2020 às 16:31
atualizado em: 23/04/2020 às 16:41

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Foto: Pixabay
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Minha nora e meu filho mais velho vieram passar a quarentena conosco, muito mais que nos fazer companhia, desconfio também, que vieram conferir se não daríamos umas fugidinhas.

Juliano é virginiano, um ser metódico, odeia bagunça e ama dar ordens.

Desde o início eu sabia o que ia rolar nesse período.

A primeira coisa que faz quando vem aqui em casa é abrir a geladeira e conferir o que tem dentro.

Arruma tudo conforme a cabeça dele acha que tem que ser.

Derivados de leite num compartimento, doces e geleias, noutro, tudo minuciosamente ordenado em escala de altura, logomarcas que combinam e até mesmo escala de cores, se houver.

É o manicado da mamãe!

Mas desta vez foi a Leca que descobriu um molho na dispensa, cuja embalagem intacta, dizia ter vencido há 10 anos...

Fui logo dando minha explicação, com certeza esse molho não fui eu que comprei, pois, o rótulo era todo em japonês e eu não fazia a menor ideia pra que servia, como é que eu ia usar isto?

Depois foi a vez do Zuzu arrumar a bandeja que fica em cima da bancada da cozinha, com a garrafa do café, açúcar, adoçante e chás.

Realmente estava meia bagunçada, mas lá ficava tudo que precisávamos, vidros com granola, ameixas e outras frutas secas.

O menino foi lá e deu uma limpa, trancafiou metade das coisas dentro do armário e organizou a bandeja como se ele fosse tirar uma foto pra uma revista.

Esqueci de dizer procês que o menino é fotógrafo, obcecado por estética.

Ai de mim se de agora em diante, colocar o chá da Biboca, a um milímetro de diferença do mel da Sabor com Amor que dista exatos 4 cm da caixa de chá. 

Claro que ele retirou o açucareiro de louça branco e trocou por outro de cerâmica do Máximo Soalheiro, cuja cor combinava mais com a manteigueira da Léa Cerâmica.

O que ele não sabia é que eu não usava esse açucareiro do Máximo, porque tinha medo dele quebrar e desinteirar o jogo com as xícaras, que está no meu testamento.

Mas eis que, num café da manhã, ele pega uma xícara branca, de uso diário e repara, como bom enxerido da mamãe, que a asa da xícara estava colada... 

Nem tentei contar pra ele aquele caso da técnica japonesa de colagem, onde fazem a restauração com uma cola dourada, bem evidente, pois acreditam que aquela quebra faz parte do processo de vida daquela peça. 

Com o Zuzu? Isso não ia colar...

O que estava escrito na cara dele e que não foi dito é: putz, minha mãe ficou velha mesmo, mania de guardar molhos vencidos e colar alças de xícaras quebradas, que antes, com certeza, seriam descartadas.

Sim filho, fiquei velha mesmo, e a proximidade com a finitude nos faz economizar vida, até mesmo de xícaras!

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