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Prosa Poética, no programa Tarde Ponto Com, por Mary Arantes: 'Gato pandêmico'

Um olhar literário sobre o nosso cotidiano através das lentes de Mary Arantes

Por Mary Arantes, 08/04/2021 às 15:30
atualizado em: 12/04/2021 às 14:07

Texto:

Foto: Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal
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A trama do filme The Father, O Pai, em exibição nos cinemas brasileiros, gira em torno do ator Anthony Hopkins e sua filha. Anthony, no filme, tem 81 anos, vive em seu apartamento em Londres e a história é desenvolvida com a perda de memória do personagem.

Não sou crítica de cinema, mas me chamou atenção, como inovador, o fato de o filme ser mostrado pelo olhar do personagem que está perdendo a memória.

Ontem, ao receber um texto de Guilherme Abraão, que assina uma coluna no jornal O Alfenense, imediatamente fiz a relação com o filme The Father, pois o texto do Guilherme, tem como narrador-personagem, na primeira pessoa, um gato que observa a vida do dono durante a pandemia, tendo a sala, a TV e as notícias, quase sempre ruins, como principais coadjuvantes.

Trago à luz o texto do Guilherme, ou seria do gato pandêmico?

“Moro numa pequena casa, tenho 12 anos e meu dono já me vê como idoso. Minha cama na sala, quente e fofinha, fica entre a estante de livros e a TV. Da janela vejo carros na rua e passarinhos. Meu dono tem ficado mais em casa, também tem falado comigo mais que o normal, comprado comidas e me dado ração, mais que o normal.

Estou engordando! Meu dono passa os dias deitado no sofá assistindo TV, séries e jornais. Os jornais só falam em uma doença com nome estranho, covid. Ele passou a usar um pano no rosto, e a passar álcool em gel nas mãos o tempo todo.

Descobri que o nome do pano é máscara! Do meu canto, observo-o roncar no meu sofá e me pergunto: Será que vou ter que usar máscara também?

Na TV as notícias não são boas, quando começa o jornal, viro de barriga pra cima e tampo as orelhas pra não escutar. A cidade esta triste. Meu dono está triste, não tem saído, visitado sua mãe, muito menos reclamado quando solto pum.

Será que ele não está sentindo cheiro? Será que ele foi contaminado, como dizem na TV? Estou cada vez mais gordo.

As notícias melhoraram, começaram a vacinar as pessoas contra o vírus. Será que serei vacinado também?

Meu dono está namorando, fica horas ao telefone, devo confessar que sinto ciúmes. Ele esta animado, feliz, repete toda hora um mantra como desejo: imunizzzzaadooooo. Meus amigos, gatos de rua, estão magros e tristes, sem casa, sem comida. Quando meu dono pede pizza, a dele de brócolis e a minha sempre de atum, fico triste ao ver que muitos não têm o que comer.

Mais notícias ruins na TV, não há vacina para todos os humanos. Meu dono ficou triste, passou dias sem falar comigo. Não sei se por motivo amoroso ou virótico. Estou cada dia mais gordo, ele também, minha gaiola apertada, as roupas dele também.

Hoje ele acordou animado, me arrumou com um lenço e saímos depois de meses. Rodamos pela cidade, ele tomou a vacina e eu ganhei cama maior e petiscos. Ele voltou a trabalhar e eu a ficar na janela vendo a rua, de olho numa gata amarela.

Quero apaixonar como meu dono e aprender a entoar o mantra imunizado. Dizem que o amor também imuniza. Esqueci de contar que na verdade sou um gato de papel amarelo e moro em cima da TV”.

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