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Prosa Poética, no programa Tarde Ponto Com, por Mary Arantes: 'Fome'

Por Mary Arantes, 19/11/2020 às 16:00
atualizado em: 23/11/2020 às 13:03

Texto:

Foto: Juliano Arantes
Juliano Arantes
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“Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte”.

Comida é nome dessa música dos Titãs que questiona, além do sólido, do arroz (caro nos dias de hoje) e do líquido que ingerimos.

Impossível não a relacionar com o livro em forma de diário, de Carolina de Jesus, Quarto de Despejo. Nele, Carolina, mãe solteira, negra semianalfabeta, catadora de papel e moradora da primeira grande favela de São Paulo, a Canindé, relata a amarga realidade dos favelados da década de 1950.

Em cada página, o levantar torna-se uma dor, com três filhos pra alimentar e sem saber o que comer naquele dia. Os diários de Carolina, foram descobertos por um jornalista que foi até o Canindé, para fazer uma matéria sobre a favela que se expandia nas margens do Tietê, e Carolina virou a pauta da matéria.

Carolina, através do jornalista, Audálio Dantas, teve seus diários condensados no livro por ele editado. A história que Audálio buscava, estava escrita em uns vinte caderninhos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Nenhum jornalista seria capaz de escrever sobre a visão de dentro da favela, o que hoje chamamos de lugar da fala.

O livro é o que podemos chamar de literatura de denúncia. A palavra fome, aparece no texto com uma “frequência irritante”, como diz o jornalista. A fome como personagem principal.

Reli este diário, esta semana, pois o escolhi como tema de uma instalação que fiz pro evento Modernos Eternos, que está exposto no Shopping Ponteio este mês. Reli com a intensão de recontar quantas vezes a palavra FOME aparecia. Foi impossível contar apenas esta palavra, existia em todas as páginas, outros tipos de fome, suspensas, ausentes, entre aspas.

Fome como sentimento, silêncio, bebida, morte, doença, descaso e outras metáforas. Carolina chega a dar cor a fome. Em sua rotineira busca de sobrevivência no lixo da cidade, ela descobriu que as coisas todas do mundo, o céu, as pessoas, os bichos, ficavam amarelas quando a fome atingia o limite do suportável.

O tempo passou desde o lançamento do livro, as cidades cresceram, mas a realidade de quem vive na miséria não mudou muito. Isso faz do relato de Carolina, uma obra atemporal. Interessante notar que a favela Canindé, desocupada em meados de 1960, deu lugar a uma avenida, por coincidência chamada de Marginal, a Marginal do Tietê. E todos os ocupantes da favela, foram para outros cantos da cidade, mas a maioria, para outros quartos de despejo, multiplicados em todo o país.

Acompanho a cantora Elza Soares, no Instagram, e seus depoimentos, me fazem sempre lembrar Carolina de Jesus. Elza, como todos sabem, comeu o pão que o diabo amassou “com o rabo”, como ela diz. Deixou de estudar, de se formar em advocacia, para colocar comida na mesa, e hoje avalia que, que mesmo com conquistas feitas, continua com fome.

Fome de arte, de cultura, de educação, fome de igualdade, de oportunidades, fome de respeito e do direito de ir e vir. Com sua voz, Elza advoga hoje, por essas causas e lançou recentemente, um álbum de nome Planeta Fome. A voz como arma de poder. Como diz Elza, “não aceitamos mais as migalhas”.

E você? Tem fome de quê?

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