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Prosa Poética, no programa Tarde Ponto Com, por Mary Arantes: 'Do Lar'

Por Mary Arantes, 31/07/2020 às 13:50
atualizado em: 31/07/2020 às 13:53

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A vida inteira quando preenchia fichas ou documentos, no espaço profissão, escrevia designer ou estilista, apesar da minha formação ter sido para dentista.

Durante a pandemia, fui fazer uma ressonância magnética e me deram um mundo de fichas para preencher e assinar. Eis que que no quesito profissão, escrevi pela primeira vez, aposentada! Me deu uma dúvida danada, do que eu era agora. Será que quando a gente aposenta, aposenta também o que foi a vida toda?! Tentei me colocar nessa hora, no lugar das mulheres aposentadas, outras do lar e das domésticas, experiência esta feita por muitas de nós nesse isolamento.

E vimos o quanto a tarefa é árdua! Como será o sentimento dessas mulheres, quando escrevem nesse campo, a palavra, do lar, doméstica, aposentada?! Se existir algum tipo de vergonha em assumir isso, não deveria. Temos que ter a honra de dizer o quanto trabalhamos. É que essa tarefa, até hoje invisível, sempre foi exigida de nós. Parece ter memória muscular, fazer parte do nosso corpo, nossos braços e mãos.

É quase um trabalho involuntário. Ao colocar a sacola de lixo do quintal, reparo que as toalhas lavadas, secaram. Recolho-as, e já dobro cada toalha na forma certa pra guardar. Enquanto coloco arroz pra cozinhar, vou lavando o que estiver sujo na pia ou arrumando as gavetas da cozinha. Se desço a escada aqui de casa, já carrego um copo sujo na mão, um pano de poeira na outra, debaixo do sovaco um vaso de flor pra molhar, e na “pontica” dos dedos, um garfo perdido.

Fomos criadas para servir, fomos criadas para achar que isto tudo é nosso dever. E eis que nessa quarentena, passei um bom tempo entrevada. Uma dor na coluna insuportável, me impedia de agachar, fazer inúmeros movimentos e funções. Nem foi preciso pedir por ajuda, ela veio. Meu marido assumiu várias tarefas, inclusive molhar minhas orquídeas, que sem água morreriam, e eu junto delas. A leitura corporal que faço agora, dessa dor que me paralisou, é como se eu quisesse gritar: não vou mais dar conta, sozinha!

Por que será que só mulheres, até pouco tempo, ganham caderno de receita? Onde está escrito que fazer bolo é tarefa feminina? Foi assim que descobri que ninguém ia deixar de comer, se eu não fizesse. Foi assim que descobri que tudo isso foi imposto, pra muitas de nós. E que seguimos fazendo como uma máquina, repetidamente, sem questionar, sem delegar, sem pedir ajuda. Descobri que não é função só minha, é de todos que aqui vivem. E a dor desta descoberta se somou à dor da coluna, do pé que cismou também de não querer andar e da bursite no braço, que o impedia de levantar... Meu corpo doía, mas a alma, doía mais.

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