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Prosa Poética, no programa Tarde Ponto Com, por Mary Arantes: 'Cuidado pela vida'

Por Mary Arantes, 18/02/2021 às 16:00
atualizado em: 23/02/2021 às 16:03

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Abrir a janela significava ver a mesma cena, que ali se repetia todos os dias. O enquadramento da mesma montanha, mesmo céu, jardim, chuva ou sol. Uma semana, um mês, meses se passaram. Enclausurada, janela como espaço que me permitia ver o céu.

O quarto, a cama desfeita à minha espera, a solidão e incerteza, vastas, me faziam sentir pedra. Imensa, mórbida, dura demais. Estática demais! Ia até a janela, todos os dias, passos lentos, condizentes a pedra ser encurralada, jogada num fosso central, onde não era esperado ali estar. Adiava a vida como se recuperasse de ser eu mesma.

A lente da janela, permanecia parada, enquadrada na mesma cena de todos os dias. Um dia cruzou nela um pássaro. Noutro dia, o farfalhar das folhas se fez notar. Noutro, a montanha que se avoluma a meu redor, mudou de tom.

Na ausência de humanos, quatis invadiram o quintal. Na ausência de humanos, a grama permaneceu intacta, sem rastros a demarcar domínios.

Numa manhã, antes mesmo de abrir a janela, um coral de pássaros me acordou com uma sinfonia conhecida. A mesma janela de todos os dias, de toda uma vida, havia acordado. Ou pedras escutam pássaros?

Descobri que poderia abrir a mesma janela, todos os dias, e deixar de ver a mesma cena mudando meu olhar, a janela da alma. Poderia com a lente enquadrada, convergi-la, abaixar, olhar distâncias memoráveis, focar, desfocar, mexer nas texturas da vida. 

Fechar o olho, apertadinho e fingir cegueira, como fazia quando criança e brincava de ver as coisas de outra forma. Até mesmo fechar os olhos totalmente, e enxergar o escuro dentro de mim, tudo o que evitei fazer todos os dias em que ali fiquei, estagnada. 

Poderia também optar pelo preto e branco, tão belo em fotografias da vida, e não necessariamente triste. Tudo isso dependia apenas de mim. Cabia a mim ir à janela, abrir a cortina, e me apropriar da réstia de luz que me pertencia. Cambraia tênue, membrana entre vidas.

Dependia do meu movimento fazer a pedra com limo, sair do chão. Cabia ao rio da vida engendrar novos leitos, às ondas, o movimento do ir e vir, sair do lugar do medo, que paralisa o curso.

A janela de todos os dias, enfim se abria. Enquanto estive deitada, ipês amarelos não deixaram de florir, depois a cidade manchou-se de rosa, flores caíram, jazeram no chão numa beleza fúnebre.

A natureza a nos mostrar que o processo da dor, do luto, do florescer e fenecer, fazem parte do curar-se. Que cuidar da vida é cuidar do curso do rio, seja ela água, pedra ou limo.

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