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Morre Thiago de Mello aos 95 anos; poeta amazonense foi cantado por Elis Regina e Nara

A obra de Thiago de Mello se caracteriza pelo verso límpido e claro, que busca a simplicidade sem renegar o requinte e a sofisticação

Por Raphael Vidigal , 14/01/2022 às 15:02
atualizado em: 14/01/2022 às 16:06

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Foto: André Argolo/Divulgação
André Argolo/Divulgação

Thiago de Mello tornou-se célebre com o poema 'Faz Escuro, Mas Eu Canto', de 1966

Thiago de Mello morreu enquanto dormia nesta sexta (14), aos 95 anos, em Manaus, capital do Amazonas. Nascido em Barreirinha, no interior do Estado, o poeta e jornalista sempre cantou sua terra, lutou pela preservação das belezas naturais e combateu a ditadura militar no Brasil, período em que teve de se exilar no Chile, na Argentina, e em Portugal, Alemanha e França. Entre 1951 e 2021, ele publicou mais de 25 livros, incluindo poesia, prosa, biografia e traduções. 

Thiago de Mello também travou uma amizade com o poeta chileno Pablo Neruda, a quem mostrou alguns de seus poemas em primeira-mão. A obra de Thiago de Mello se caracteriza pelo verso límpido e claro, que busca a simplicidade sem renegar o requinte e a sofisticação. Embora tenha ficado conhecido, sobretudo, pela defesa do meio-ambiente e o ativismo sócio-político, compôs poemas de veia existencial sobre morte, infância, amor, medo. 

Popular. Como de praxe, um de seus poemas mais conhecidos foi parar na música brasileira. Em 1966, no mesmo ano em que publicou “Faz Escuro, Mas Eu Canto”, ato de desagravo à ditadura, os versos foram adaptados para música pelo multimídia Monsueto (autor dos sambas-canções “Me Deixa em Paz” e “Mora na Filosofia”), e lançados por Nara Leão, no LP “Manhã de Liberdade”, que incluía o hit “A Banda”, de Chico Buarque, vencedora do Festival de MPB. 

Um ano depois, em 1967, Elis Regina interpretava em seu programa “O Fino da Bossa”, dividido com Jair Rodrigues, a música “Imagem”, de Aloysio De Oliveira e Luiz Eça, onde ela recitava o verso inspirado pelo poema de Thiago de Mello: “faz escuro, mas nós cantamos”. Foi com esse nome que o jornalista Renato Contente pensou em batizar o livro em que ele analisa as trajetórias políticas de Elis e de Gal, só depois rebatizado para “Não Se Assuste Pessoa!”. 

Música. Contente define essa parte da vida artística de Elis como nacional-popular. “O engajamento dela nessa fase se dava no campo cultural muito mais do que em relação à ditadura propriamente dita. Na verdade, se tratava de um engajamento bastante conservador, que gerou a própria Passeata Contra a Guitarra Elétrica”, relembra. Um dos eventos mais controversos da vida cultural brasileira teve a liderança de Elis e adesões de Jair Rodrigues, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, entre outros. Nara Leão foi contra essa passeata.

Leia poemas de Thiago de Mello 

Poema perto do fim:

A morte é indolor.
O que dói nela é o nada
que a vida faz do amor.
Sopro a flauta encantada
e não dá nenhum som.
Levo uma pena leve
de não ter sido bom.
E no coração, neve.

Botão de rosa:

Nos recôncavos da vida
jaz a morte.
     Germinando
no silêncio. 
       Floresce
como um girassol no escuro.
De repente vai se abrir.
No meio da vida, a morte
jaz profundamente viva.

A aprendizagem amarga:

Chega um dia em que o dia se termina
antes que a noite caia inteiramente.
Chega um dia em que a mão, já no caminho,
de repente se esquece do seu gesto.
Chega um dia em que a lenha já não chega
para acender o fogo da lareira.
Chega um dia em que o amor, que era infinito,
de repente se acaba, de repente.

Força é saber amar, perto e distante,
com o encanto de rosa livre na haste,
para que o amor ferido não se acabe
na eternidade amarga de um instante.

Faz Escuro, Mas Eu Canto (trecho de Madrugada Camponesa):

Madrugada da esperança,
já é quase tempo de amor.
Colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana,
minha alma no seu pendão.

Madrugada camponesa.
Faz escuro (já nem tanto),
vale a pena trabalhar.
Faz escuro mas eu canto
porque a manhã vai chegar.

Poema concreto:

O que tu tens e queres
saber (porque te dói),
não tem nome. Só tem
(mas vazio) o lugar
que abriu em tua vida
a sua própria falta.

A dor te dói pelo avesso,
perdida nos teus escuros.
É como alguém que come
não o pão, mas a fome.

Sofres de não saber
o que não tens e falta
num lugar que nem sabes,
mas que é na tua vida,
quem sabe é no teu amor.

O que tu tens, não tens.


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