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Dietilenoglicol: conheça a substância encontrada em cerveja que pode ser causa de doença

Por Redação , 10/01/2020 às 08:26
atualizado em: 10/01/2020 às 23:48

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Uma substância chamada dietilenoglicol pode estar por trás da contaminação misteriosa, que deixou pelo menos oito pessoas internadas em Minas e provocou uma morte. A Polícia Civil (PC) informou na noite dessa quinta-feira (9) que o produto foi encontrado em duas garrafas da cerveja Belorizontina, da Backer. Um inquérito foi instaurado para investigar o caso. Por segurança, os lotes L1 1348 e L2 1348 devem ser recolhidos.

Para tirar algumas dúvidas sobre a substância, a Itatiaia conversou com o especialista em cerveja Bruno Botelho, professor do departamento de química da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

O que é o dietilenoglicol?

- O dietilenoglicol é uma substância que normalmente é usado como anticongelante. Parte do processo de produção da cerveja envolve o resfriamento da bebida. Então, ele entra nesse processo de geração de frio. Dentro de uma indústria cervejeira, é comum a presença dele, mas não é obrigatório o uso e existem outras opções que podem substituir. 

O dietilenoglicol faz parte de uma família de compostos que são normalmente chamados como glicol. Tem o dietilenoglicol, o monoetilenoglicol e o trietilenoglicol. Qualquer um desses três têm a mesma função.  

O consumo do dietilenoglicol é sempre fatal?

- Depende muito do organismo da pessoa e de como o consumo foi realizado. Por exemplo, o etanol (álcool) compete com o dietilenoglicol dentro do nosso organismo pela absorção. Então se você está bebendo uma cerveja contaminada, mas está consumindo um destilado junto, que tem um alto teor alcoólico, o seu organismo acaba absorvendo o álcool, e não o dietilenoglicol. É uma série de fatores que vai determinar se as pessoas vão ter os sintomas ou não, mesmo tendo o contato. 

O efeito dele é rápido?

- Segundo o que está escrito na literatura sobre esses casos de intoxicação com o dietilenoglicol, normalmente os sintomas vão se manifestar de forma rápida. Então, de 48h a 72h começam os primeiros sintomas: náuseas, vômitos, dor abdominal, e isso rapidamente vai evoluir para um caso de insuficiência nos rins. 

O que é descrito na literatura é muito característico do que foi evidenciado nos pacientes daqui de Minas. Acredito que tenha sido por aí que se chegou a cogitar o dietilenoglicol como um possível contaminante. O dietilenoglicol é uma substância que, para ter um efeito tóxico leve, você precisa consumir 1g por kg corporal. 

A Backer disse que não usa o dietilenoglicol no processo de produção. Como é possível que a substância tenha sido encontrada na cerveja?

- Como o dietilenoglicol, o etilenoglicol e o trietilenoglicol são moléculas muito similares, pode ter acontecido uma contaminação de trioetilenoglicol com dietilenoglicol, por exemplo, durante o próprio processo de produção da substância. Então, durante a síntese da molécula, no processo de purificação desse trietilenoglicol, por exemplo, pode ser formada uma concentração maior de dietilenoglicol. 

Pode ser que não haja responsabilização da cervejaria por que no processo de produção da substância houve a alteração?

- É possível. Se eles compraram como trietilenoglicol ou etilenoglicoll e veio com essa contaminação, o que não seria uma coisa inédita, poderia a culpa não ser exatamente da Backer. Eu acho que a presença da substância indica falha em algum momento do processo, uma vez que a própria empresa diz que a substância não faz parte da receita, mas esse dietilenoglicol entrou em contato com a cerveja de alguma maneira. Pode ser um problema da substância em si. 

Quando a cervejaria recebe o produto, ela não precisa certificar, por meio de testes, que a substância não está contaminada?

- Varia do procedimento interno de cada empresa. Normalmente, as fornecedoras de produtos químicos oferecem um laudo com certificado de pureza, de composição química. A gente pode confirmar no laudo. Mas, às vezes, por uma infelicidade, um lote ou parte de um lote pode estar com uma composição um pouco diferente. 

Houve casos de contaminação com dietilenoglicol associados a remédios? 

- No século passado, quando o dietilenoglicol começou a ser usado na indústria farmacêutica, começaram a surgir os casos de intoxicação. Depois disso, ele deixou de ser usado em formulações, de forma direta, mas já foram reportados casos nos quais foi encontrado glicerina, que é um composto comum usado na indústria farmacêutica, contaminada com dietilenoglicol. Talvez o caso mais próximo que temos registrado desse da Backer é um que aconteceu nos anos 80 na Europa, no qual houve uma contaminação de vinho com dietilenoglicol. 

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