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Para onde vai a disrupção digital em 2024?

Conheça cinco tendências que devem ganhar força a partir deste ano

Disruptar. Esse é, digamos, um novo verbo muito escutado em ambientes de inovação no ano passado e que promete estar em rodas de conversa neste ano. O conceito sobre disrupção ainda está em debate. Há quem diga que é mais adequado para se referir a uma inovação que cria novos futuros, há outros que afirmam que são tecnologias que abrem novo mercados.

Na 7ª edição do On the Road de Tendências, promovida pelo Órbi Conecta, a jornalista e publisher da plataforma de conteúdo The Shift, Silva Bassi, especialista no assunto, não apenas abordou as tendências que já se apresentam e apontam para o futuro, como fez algumas provocações sobre os setores que ainda precisam avançar, as mudanças que devem ser empreendidas para fazer a transformação digital escalar e as contradições que o uso da IA (Inteligência Artificial) e da automação envolvem.

‘Quando a gente fala de tendência de tecnologia, a angústia, que faz muita gente perder o sono, é saber se o radar de cada um está captando todas as transformações. Essa preocupação é motivada não só pela velocidade das mudanças, mas também pelo surgimento de um conjunto de disruptores, como as startups, que estão conseguindo enxergar o mundo mais rápido que as empresas tradicionais’, constata.

Silvia traçou um breve histórico do uso das tecnologias exponenciais, que se torna expressivo em 2019, ano em que, embora a IA já não fosse uma tecnologia nova, ela tenha entrado em uma rampa de aceleração, cuja tendência, segundo as previsões da The Shift, é decolar em 2030 e ter um aumento vertiginoso em 2050.

Em sua palestra, a jornalista atribuiu essa tendência ao uso da IA em massa nos últimos quatro anos, o que levou a própria IA a se aprimorar. A entrada das grandes empresas mundiais nesse mercado também explica essa tendência, já que estão em jogo altos investimentos nessas tecnologias para desenvolvimento dos negócios.

Para avaliar o que vem pela frente envolvendo não só esse tema, como a transformação digital de modo geral, especialmente entre 2024 a 2030, a jornalista dividiu as tendências em cinco grandes segmentos.

1. Inteligência artificial everywhere + aplicação de data driven

Inteligência artificial em todos os lugares, somada a aplicações data driven. A associação entre as duas tecnologias se explica, pois a IA não existe sem dados. No entanto, o uso de dados como matéria-prima leva a alguns desdobramentos e preocupações.

‘A discussão em torno da propriedade dos dados, da privacidade que a IA pode trazer ou não, a regulação dessa tecnologia e o risco do uso indevido e indiscriminado de dados’, destaca. ‘Estamos caminhando para um cenário em 2024 de IA em todo lugar e muitas aplicações data driven, principalmente no mercado corporativo’, prevê.

2. Deep Tech (computação quântica, robótica, biotechs, healthtechs, agtechs e foodtechs)

Crescimento das deeptechs, que são startups que nascem da fusão entre ciência e tecnologia para pensar em soluções para grandes problemas da humanidade.

O cientista se transforma em empreendedor e esse movimento endereça questões fundamentais para a sobrevivência dos humanos.

‘Se não tivéssemos uma startup chamada BioNTech trabalhando junto com a Pfizer, por exemplo, não teríamos a vacina da Covid-19 produzida tão rapidamente, pois parte desse resultado deve-se pelo uso de biotecnologias de processamento de proteína com uso de IA para possibilitar testes clínicos mais rápidos. Com isso, em nove meses tivemos uma vacina que usualmente levaria de cinco a dez anos para ser produzida’, ilustra.

O cenário de deeptech envolve, ainda, o uso de computação quântica em grandes empresas, o que tem dois aspectos importantes e contraditórios: essa tecnologia pode ser usada tanto para resolver problemas que o computador tradicional não resolve, como para quebrar a criptografia tradicional. Essa preocupação aumenta a necessidade de investimentos em cybersegurança.

Além da sintetização e criação de novas proteínas, cresce, também, a manipulação genética, sobretudo em plantas e animais, por meio do desenvolvimento da CRISPR, método de edição do genoma descoberto há 10 anos pelas pesquisadoras Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier, vencedoras do Prêmio Nobel de Química 2020. ‘Estamos falando de um cenário que faz crescer a computação quântica, a robótica, as biotechs e as heathtechs, com a criação de vacinas e remédios, a aceleração de processos clínicos com tecnologias não invasivas e a nanotecnologia’, explica.

A nanotecnologia, aliás, passa a ser usada também no mercado agro, com o desenvolvimento de uma agricultura mais sustentável e menos vulnerável ao calor. ‘Aqui no Brasil existem startups trabalhando com CRISPR em plantas para torná-las mais resistentes às doenças que estão surgindo ou aumentando por conta do aquecimento global’. Essa tecnologia também será aplicada para aumentar a produção de proteínas planted based e para o desenvolvimento de culture meat, no Brasil chamada de carne cultivada, que são proteínas alternativas para a produção de carne, frango e crustáceos dentro dos laboratórios. ‘Cerca de 10% dessas tecnologias já estão disponíveis hoje e o restante está tendo que acelerar. São necessários investimentos para isso, mas é uma tendência que fica mais evidente’, enfatiza.

3. Low carbon economy (eletrificação, energias limpas e renováveis, captura de carbono)

Outra tendência é a necessidade de desenvolver a economia de baixo carbono como parte do processo de combate ao aquecimento global. ‘A COP 28 está acontecendo neste momento e estamos discutindo como teremos financiamento para tudo isso, mas essa discussão é absolutamente necessária por que se a população não se preocupava, agora ficou claro que nenhum país está livre e que esse alerta não é nenhuma fantasia. Os prejuízos somados de 2019 até agora passam de 1 trilhão de dólares’.

Nesse cenário, estão previstas soluções voltadas para eletrificação, geração de energia limpa e renovável, o que posiciona o Brasil em uma situação sólida pela diversidade do bioma do país diante do cenário mundial. ‘Hoje, 45% da nossa energia já é renovável e de origem limpa. Estamos falando de um cenário muito favorável para o Brasil, tanto para produzir patentes e gerar novos investimentos, com a captação de investimentos fora do país para acelerar o nosso desenvolvimento, além da captura de carbono. Estamos falando de pessoas estudando como captar carbono do fundo do oceano, extraí-lo da atmosfera, empacotá-lo e enviá-lo para a Lua. Falando nisso, no cenário das deeptechs há também a exploração espacial. Estamos falando aqui da eletrificação de tudo, da substituição de combustível fóssil por energia limpa’.

4. Automação, indústria 4.0, cloud computing, 5G, IOT, cybersegurança, metaverso corporativo

No mundo corporativo, a tendência é intensificar as tecnologias que são mandatórias para aumentar a produtividade, melhorar a competitividade, reduzir custos e fazer a transformação digital de fato, como a automação, a indústria 4.0, o cloud computing, a conectividade de alta velocidade sem fio e a internet das coisas (IOT). Será possível ter, por exemplo, um carro conectado ou, até mesmo, um semáforo conectado que detecta o barulho da ambulância e é autorizado deixá-la passar, evitando atrapalhar o trânsito.

O metaverso também retorna como uma tendência. Mas, desta vez, não como um conceito de uma vida paralela, já que essa era uma possibilidade que envolvia altos custos e, portanto, não foi viabilizada na prática. ‘O metaverso não flopou. Mas aquele conceito mágico que previa que todos iam usar óculos 3D, viver no Metaverso e ter a possibilidade de tomar café com o Mark Zuckerberg de fato não saiu do papel’, brinca.

Desta vez, a tendência está relacionada ao metaverso corporativo. Essa tecnologia se torna forte pelo uso de uma plataforma de realidade estendida, virtual e aumentada com a finalidade de possibilitar testes de produtos. ‘Esse é um cenário extremamente dinâmico e muito forte. A Standard & Poor’s soltou um relatório recente estimando investimentos na casa de bilhões de dólares para esse tipo de aplicação nos próximos anos’, explica.

Nesse contexto, a cybersegurança está entre as cinco grandes prioridades, pois é transversal e pode ser decisiva para permitir o funcionamento das demais tecnologias. A segurança passa a ser fundamental. ‘Estamos falando de todo o mundo conectado, onde tudo vira um ponto de conexão’.

Um computador quântico pode ser usado para decodificar senhas, pois tem algoritmos que permitem a quebra de criptografia e ataques de hackers. Por esse motivo, bancos têm sido os primeiros a investir nessa tendência, mais na defesa que no ataque. ‘Um carro conectado pode ser sequestrado, da mesma forma que um robô, que está fazendo uma operação cirúrgica. Todas essas tecnologias estão disponíveis hoje, em maior ou menor escala’, alerta.

5. Finanças descentralizadas (DEFI), tokenização e blockchain

O Brasil está em vias de ter o Real digital, o Drex, o que representa a tokenização da economia por meio do blockchain. A blockchain não apenas a finalidade de atuar como suporte para o mercado de bitcoin, embora tenha nascido em função dele. Essa é, na verdade, uma tecnologia que permite transações descentralizadas, com a troca de informações ou dinheiro. É a segurança em forma de código.

A tokenização da economia é a transformação digital de qualquer bem ou ativo, físico ou não, o que traz mais liquidez ao mercado financeiro e oportunidades de investimentos. Isso estava antes acessível apenas a grandes investidores.

‘Imagine que uma grande empresa tenha lançado um spa de luxo em Malwe. Se esse bem é tokenizado em várias cotas, várias pessoas conseguem investir nesse spa de vários lugares do mundo, usando a carteira de criptomoedas. Esse recurso pode trazer mais liquidez ao mercado financeiro por meio da tokenização de obras de arte e imóveis e mais possibilidades de trocas instantâneas e mais baratas de dinheiro. As CBDCs são caminhos das finanças tradicionais tentando alcançar as finanças descentralizadas. O Drex é uma delas’.

O Órbi Conecta é o principal hub de inovação e empreendedorismo digital de Minas Gerais, e agora mantém uma coluna publicada semanalmente às terças-feiras no portal da Itatiaia.
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