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Orhan Pamuk revive o terror das epidemias em “Noites de Peste”

Autor turco lança no Brasil obra que terminou de escrever pouco antes da pandemia de Covid-19

Alguns artistas são capazes de traduzir o espírito do tempo em que vivem. Se antecipam às contradições e, assim, servem como uma espécie de farol para tempos confusos. Às vezes, parecem adivinhar o que está por vir: eis um dos espantos provocados pela arte.

Orhan Pamuk, escritor turco que recebeu o Nobel de literatura em 2004, consegue essa façanha. Em seu livro mais recente, “Noites de Peste” (Companhia das Letras, 672 páginas), lançado agora no Brasil, terminou de ser escrito em 2021. Todos sabem o que aconteceu meses depois.

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O romance histórico, conduzido por uma voz feminina, trata da peste bubônica de 1901. As semelhanças nas reações dos personagens e governos no livro - lidando com a doença às cegas enquanto descobrem do que se trata - e na vida real, durante a pandemia de Covid 19, são assustadoras. Em entrevista à Itatiaia, a tradutora da obra para o português, Débora Landsberg, destaca as semelhanças. "É impressionante como as pandemias são basicamente iguais, por mais que o tempo passe. O que Pamuk narra é muito parecido com o que vivemos. A peste vai chegando e a população finge que nada está acontecendo. As autoridades não reagem como deveriam. As mentiras sobre a doença se espalham. As hostilidades entre a própria população se acirram. Parte da população se considera imune e segue com a vida”, surpreende-se. “Traduzi o livro em 2022 e foi meio atordoante lidar com uma história de pandemia enquanto a gente ainda enfrentava a nossa”.

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A história se passa em Mingheria, uma ilha fictícia ao Sul de Istambul, e Pamuk se vale de vasto conhecimento histórico para criar este drama em um momento decisivo para o Império Otomano, que vivia o princípio do fim e daria lugar, em poucos anos, à Turquia moderna. É divertido pesquisar quais personagens existiram e quem é invenção de Pamuk.

Estão lá o governador que começa negando as contaminações, mas se curva aos números e precisa enfrentar todo tipo de conflito; muçulmanos e cristãos que influenciados por líderes religiosos que exploraram a fé e o medo; os médicos que tentam ensinar medidas de isolamento e as desculpas diversas que as pessoas usam para burlar a quarentena “só uma vez”. Enquanto as mortes se tornam mais visíveis e agressivas, a ilha perde a cor e vê uma sucessão de crimes e golpes de Estado.

A história é contada por uma voz feminina que se baseia nas cartas da princesa Pakize, mulher do médico que tenta conter a peste e sobrinha do sultão otomano. Ela descreve em detalhes à irmã e conhecemos as nuances de uma sociedade aterrorizada pela peste.

Débora Landsberg acredita que o desafio de traduzir um Nobel não pode alterar o trabalho. “Ele foi meu segundo Nobel. Eu já tinha traduzido a Toni Morrison, que tem um texto dificílimo em todos os sentidos. Acho que os leitores, quando já não conhecem o autor, chegam com uma expectativa mais alta por conta do prêmio, mas a dedicação é a mesma com qualquer autor. É claro que tem a questão do prestígio, mas o Nobel não muda nada no texto em si”, analisa.

A obra caminha como uma novela, com muitos capítulos, personagens e descrições. O autor envolve o leitor na resolução dos conflitos e a história ganha outra dimensão.
Landsberg analisa como o autor constrói a obra com mistérios. “Considero “Noites de peste” perfeito nesse quesito: ele tem essas centenas de páginas e não é maçante em momento nenhum. A Companhia das Letras o descreve como “um romance com ecos de Tolstói” e é bem isso, um épico com pitadas de suspense (Sherlock Holmes é citado várias vezes!)”, define.


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Enzo Menezes é chefe de reportagem do portal da Itatiaia. Formado em jornalismo pela Fumec, tem pós-graduação em Poder Legislativo e Políticas Públicas pela Escola do Legislativo da ALMG. Foi produtor e coordenador de produção da Record e repórter do R7 e de O Tempo
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