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Por que a indústria do entretenimento se voltou para o imediatismo dos conteúdos rápidos?

Entenda como a nova estratégia de conteúdo das redes vem se instaurando de maneira sorrateira, porém eficaz  

Entenda o processo de mudança dos conteúdos nas redes

Vídeos no TikTok com menos de 30 segundos e séries da Netflix com 2 horas de duração. O tamanho reduzido em produtos digitais, que antes parecia desinteressante, hoje é tendência nas redes.

Essa é a nova estratégia das mídias online: um conteúdo veloz, de fácil entendimento e que o usuário decide nos primeiros segundos se vai assistir até o fim ou rapidamente arrastar para o próximo.

Entenda por que esse modelo ganhou forças nos últimos anos e remodelou a indústria de entretenimento online.

A adequação dos aplicativos aos conteúdos rápidos

Em tempos de jornadas de trabalho cada vez mais longas, nos distraímos com algum conteúdo na internet entre uma tarefa e outra. E como toda tecnologia, as redes sociais também precisam se atualizar para não caírem em desuso. 

Seja no celular ou no computador, estamos conectados 24 horas por dia às redes e a poucos cliques de sermos bombardeados com inúmeros vídeos com poucos minutos ou mesmo alguns segundos.

Para que essa tendência se mantenha em alta é necessário o uso de estratégias de marketing para manutenção dos conteúdos que sigam o interesse do público. Aquilo que rende visualização será mantido nas timelines infinitas e o restante apenas será encontrado quando o usuário navegar pelas funções dos aplicativos. 

Dicas de espaçamento, palavras-chave, trends (assuntos que bombam), velocidade de imagens em tela, horário de postagem; todas essas estratégias podem ser usadas para alcançar mais visualizações quando se trata de um ambiente altamente disputado.

Os criadores/influencers que se adaptam ao ambiente

Com a chegada da pandemia de Covid-19, a criação de conteúdo na internet foi alavancada. Diversos usuários, que antes apenas consumiam produtos das redes sociais, passaram a fazer parte daqueles que também produzem e postam.

Assim, redes sociais necessitam comportar grande número de usuários sem se tornarem excessivamente nichadas, o que abriu espaço para o avanço mundial do aplicativo chinês TikTok. 

Segundo a empresa Cloudflare, que ranqueia o tráfego mundial de sites, a plataforma de vídeos curtos e interação rápida da empresa ByteDance se tornou em 2021 o site mais acessado da internet, contando hoje com mais de 1 bilhão de usuários ativos.

Daniel da Silva Vasconcelos, de 28 anos, formado em audiovisual na UNESA-RJ e criador de conteúdo no TikTok, para falou sobre as experiências de entrega de conteúdo na plataforma.

Apesar de existir público pra tudo, foi difícil achar um nicho e começar a criar conteúdo que tivesse a ver comigo e com eles também. Foi procurando bastante que me encontrei com os conteúdos de futebol, no TikTok. Depois de viralizar alguns vídeos meus, a assessoria de imprensa do Madureira Esporte Clube me chamou pra conhecer o clube, ver um treino e gravar vídeos com eles. Vem dando resultados.

Questionado sobre a possibilidade do TikTok  tomar o lugar do YouTube, Dan Lessa, como é conhecido na internet, afirmou:

São plataformas diferentes que conversam com momentos diferentes das pessoas. Acredito que não toma o lugar, mas toma espaço no tempo do público. O tiktok você assiste na correria, ao contrário do YouTube, que você assiste quando está deitado, pra relaxar, com calma. Mas com certeza essa nova onda de conteúdos rápidos é o que rende engajamento hoje. Meu canal cresceu 40 mil inscritos no primeiro mês que comecei a usar o Short

Entendendo o interesse dos jovens

Karina Fideles, psicóloga clínica e educacional, Doutora em educação pela FaE/UFMG e professora da FAPSI PUC Minas, comenta sobre esse interesse dos jovens na nova forma de consumir conteúdo na internet.

Segundo a psicóloga, o alto interesse dos jovens se explica pelos conteúdos mais palatáveis e acessíveis, além de exigirem menos reflexão e posicionamento nas redes. 

A informação rápida oferece o prazer ilusório do sujeito achar que vai ter aquilo que vê nas redes. Ele consome conteúdo de pessoas que possuem aquilo que ele quer, e em questão de minutos ele se afunda em um mar de ego ilusório.

Para a psicóloga, existem consequências no uso excessivo das plataformas que exploram os conteúdos rápidos, como o TikTok, o Reels do Instagram ou o shorts do YouTube.

A principal consequência é o imediatismo que ninguém consegue, de fato, alcançar. O uso excessivo desse tipo de conteúdo nas plataformas gera uma frustração no usuário, pois nada na vida é imediato, e o costume com esses conteúdos ‘fáceis’ faz com que se crie uma falsa impressão disso. Ligado a isso, a baixa resistência à frustração gera um adoecimento dos usuários.

Fideles destaca a superficialidade deste comportamento.

E, como última consequência, temos o falso conhecimento. O que aprendemos na rede fica na superficialidade. E de forma rasa, não nos permitimos criar novas opiniões. Quanto mais acesso a informação rápida, menos reflexão. Saímos de uma fase de extrema discussão opinativa no Facebook e entramos em uma de consumismo informacional desenfreado, sem dar tempo para os debates e caímos no automatismo de ‘rolar o dedo’, não tem aprendizagem.

Há quem discorde da nova tendência

Também existem aqueles que não se adaptam à nova maneira de se produzir conteúdo na internet ou possuem fortes críticas a ela. É o caso do criador de conteúdo Felipe Neto, que na última semana contestou as possíveis medidas tomadas por plataformas de streaming de adicionar a velocidade 2x em suas produções, a fim de atender a demanda das novas gerações.

A inclinação do interesse do público pelas mídias de rápida absorção gera a necessidade de mecanismos que suprem a expectativa de alta velocidade nas redes sociais. A timeline infinita, usada no TikTok e no Reels do Instagram, permite, por meio de algoritmos, que o usuário consuma conteúdos que se encaixem em seu gosto sem perder tempo procurando por eles. Em contrapartida, a facilidade de encontrar aquilo que te agrada, sem que haja um limite de uso, proporciona o perigo do vício.

Felipe Neto falou declarou ser contra o método de timeline infinita.

Timeline infinita com conteúdos de vídeos curtos está adoecendo a humanidade. O vício em dopamina já é uma realidade e as consequências disso são severas para o cérebro humano.

O empresário ainda afirmou, em sua conta no Instagram, que criadores de conteúdo do YouTube estão perdendo audiência nos últimos tempos.

Muito triste ver cada vez mais canais de Youtube fechando ou despencando em audiência, enquanto uma nova geração inteira se forma baseada em conteúdos de até 30 segundos. Já ouço diversos jovens relatando: 'Não gosto de filmes'. Músicas agora vêm sendo pensadas para terem apenas refrão e o menor tempo possível. O que será do futuro do entretenimento? Filmes de 20 minutos e séries com episódios de 2-3 minutos? Os maiores criadores vão deixando a plataforma e cedendo cada vez mais à tentação de postar apenas conteúdo rápido.

Para a psicóloga Karina Fideles, a Timeline Infinita é perigosa mas não deve ser proibida ou sofrer restrições.

Apesar de não haver freio nenhum e qualquer coisa desenfreada não ser saudável, não podemos nos informar apenas pelas redes. A seleção daquilo que nós queremos ver, quando queremos ver e o quanto queremos debater sobre, existe em todos os locais. Rede social não tem o papel social de informar, apesar de poder ser usada para tal.

Dan Lessa, produtor de conteúdo do TikTok, tem opinião parecida:

É necessário no mínimo 1 vídeo por dia para que o conteúdo seja mais distribuído, apesar de ser extremamente cansativo produzir tanto. Então, pensando na questão da saúde de quem faz, é um pouco perigoso, sim. Vejo uma geração inteira assistindo vídeos na velocidade 2x. Em uma produção de comédia, por exemplo, é um 'time de silêncio cômico' que se perde. Mas limites não devem ser impostos, o entretenimento vai se desenvolvendo naturalmente, as coisas vão se acelerando, o conteúdo acelera junto.

Houve uma época que a galera foi contra o uso de efeitos especiais nos filmes e hoje é a cara da modernidade.

AS MARCAS EXPLORAM O QUE O ALGORITMO APRENDEU

As grandes empresas, cientes da nova predisposição de consumo digital, não ficaram para trás e também se adaptaram ao modelo de conteúdos dinâmicos, interativos e de fácil compreensão.

Um grande exemplo de leitura da realidade digital são as escolhas tomadas pela Netflix, que passou a investir em séries curtas, com pouca minutagem de duração por episódio.

A série espanhola “El Tiempo Que Te Doy”, que estreou em 2021, se encaixa como aposta do streaming nesse novo segmento. Dividida em 10 episódios de 11 minutos cada e com apenas 2 horas de duração total da temporada, a produção foi bem recebida pela crítica e conquistou o coração daqueles que preferem um conteúdo rápido, sem perder a credibilidade de uma produção Netflix.

A psicóloga Fideles falou sobre a tendência que pode se estender para outros meios.

As pessoas querem conteúdo imediato, que se repita e que não haja a necessidade de reflexão. Essa estratégia deu certo, pois as pessoas querem se envolver cada vez menos. A frase ‘Eu consumo para não ter que refletir’ é uma boa forma de exemplificar isso.

Ainda dentro do universo das redes sociais e o uso das ferramentas de captação de views, é fato que as empresas, de todos os tamanhos, aprenderam a explorar a indústria digital com maestria.

O bom uso da marca em postagem nas redes, com divulgação de produtos e fidelização de clientes pode gerar um grande aumento na arrecadação da companhia. Estratégias de divulgação de marca, atrelado a imagem de influencers digitais, com as famosas “dancinhas” ou pequenos vídeos de humor, é uma amostra concreta desta ação.

As tendências das redes estão em constante mudanças e a Itatiaia segue antenada, para trazer o melhor do mundo tecnológico para os usuários.


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