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De Leonardo a Gal Costa: Ouça músicas brasileiras que falam sobre gasolina

Passando por diferentes décadas e ritmos, nossos compositores fizeram questão de deixar o tanque cheio com letras e melodias

Cantor Gasolina nasceu em Porto Alegre e gravou música de combate ao racismo que segue atual

A música popular brasileira sempre esteve a todo vapor, tendo como combustível os mais variados ritmos. Prova disso é a presença de assuntos em comum, caso da gasolina, ao longo de décadas e por meio de abordagens diferentes, passando pelo frevo, o samba, o rock e a música sertaneja. Caetano Veloso, Moraes Moreira, Alceu Valença, Lobão, Gal Costa, Elis Regina e Leonardo foram alguns dos que cantaram e escreveram sobre esse tema que tem afligido os brasileiros, provando que o tempo da música é sempre hoje e o automóvel não pode ficar parado na pista por falta de gasolina.

“Dormi no Molhado” (samba, 1942) – Moreira da Silva, Tancredo Silva e Ribeiro Cunha

Incomodado com a profusão de homenagens à malandragem na música brasileira, Getúlio Vargas resolveu invadir, com sua política a favor do trabalho, o terreno da cultura. Foi nesse cenário que, em 1942, Moreira da Silva lançou o samba “Dormi no Molhado”, parceria com Tancredo Silva e Ribeiro Cunha, onde ele condenava aqueles que pediam esmola e, segundo a letra, não queriam nada com a dureza, em um discurso conservador que dava, como exemplo, a própria experiência, enumerando uma profusão de empregos que o protagonista enfrentara ao longo da vida. “Eu só cheirava a gasolina/ Fui peixeiro, carvoeiro, fui carteiro, fui bicheiro”, orgulha-se o intérprete, cheio de si.

“Preto Pedante” (samba, 1956) – Moacir Paulo

Para começo de conversa, a música brasileira teve um cantor de apelido Gasolina. Antônio Monte de Souza nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e começou sua carreira cantando na Rádio Gaúcha, na década de 1940. Mais tarde, partiu para o Rio de Janeiro, onde se enturmou com os sambistas e conheceu Silvio Caldas e Nelson Gonçalves. Gasolina chegou a atuar em filmes e a compor quadros cômicos com o também compositor Monsueto. Em 1956, ele gravou o samba “Preto Pedante”, de Moacir Paulo, que também versa sobre assunto urgente e atual para os brasileiros: o racismo estrutural. Com altivez e perspicácia, Gasolina enfrenta o preconceito com ritmo e beleza.

“Baby” (tropicália, 1968) – Caetano Veloso

A estética tropicalista pressupunha que as novas canções da música brasileira rompessem com a tradicional narrativa imposta pela lógica que encadeava acontecimentos. Assim, as frases apareciam soltas em algumas canções, como no caso de “Baby”, música de Caetano Veloso lançada por Gal Costa em 1968, no disco “Tropicalia ou Panis et Circensis”: “Você precisa saber da piscina/ Da Margarina, da Carolina, da gasolina”, dizia a letra. Inicialmente, a música havia sido composta a pedido de Maria Bethânia, mas a cantora desistiu de gravá-la, pois não queria mais participar de movimentos após ficar marcada pela participação no espetáculo cênico-musical “Opinião”. E foi um hit.

“Comunicação” (MPB, 1970) – Edson Alencar e Hélio Matheus

Não é preciso muito para compreender que Elis Regina (1945-1982) é a maior cantora brasileira de todos os tempos: basta ouvi-la. Nascida em Porto Alegre, a gaúcha morreu aos 36 anos, vítima de uma overdose de álcool e cocaína. O disco “Tom & Elis”, de 1974, é considerado pelo crítico musical Hugo Sukman como “uma homenagem da nossa maior cantora ao nosso maior compositor”. Em 1970, Elis deu voz a “Comunicação”, música de Edson Alencar e Hélio Matheus que aborda o domínio da publicidade, propagado pela TV, na cultura brasileira. Em certo momento, ela canta: “Ponho um aditivo dentro da panela/ A gasolina passo na janela/ Na cozinha tem mais um fogão/Tocam a campainha”.

“Papagaio do Futuro” (MPB, 1974) – Alceu Valença

Alceu Valença nasceu em São Bento do Una, interior de Pernambuco, no dia 1º de julho de 1946. Ainda na infância, demonstrou interesse pela música, sendo fã de Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e Marinês. Essa influência, ele levou por toda a sua vida, e a assimilou a ícones da música mundial, como Ray Charles e Little Richard, criando um estilo único que rendeu sucessos do quilate de “Morena Tropicana”, “Anunciação”, “La Belle de Jour”, “Como Dois Animais”, entre muitos outros que já fazem parte da memória coletiva do Brasil. Em 1974, ele lançou o primeiro disco-solo, intitulado “A Noite do Espantalho”, que continha “Papagaio do Futuro”: “Eu fumo e tusso/Fumaça de gasolina”, diz.

“O Gás Acabou” (samba, 1977) – Luiz Américo e Braguinha

Da lavra de Luiz Américo e Braguinha é o samba “O Gás Acabou”, um desaforo de tão atual. “Meu gás acabou, tem pouca comida/ Acabou meu dinheiro/ Pagamento está longe/ Ainda não pintou o décimo-terceiro...”. Pensar que, em 1977, as pendengas dos brasileiros não se limitavam ao aperto econômico, mas aos arroubos autoritários de militares cruéis, despreparados e parvos. Embora não fale diretamente sobre a gasolina, a canção entra na lista por abordar o outro motivo de pânico atual dos brasileiros: o aumento do gás de cozinha e os preços estratosféricas que essa mercadoria essencial já alcançou. Para compensar, a música foi um dos grandes sucessos do autor Luiz Américo.

“Partido Clementina de Jesus” (samba, 1977) – Candeia

Somente o fato de gravar o primeiro LP com mais de 60 anos de idade já foi uma revolução de Clementina de Jesus dentro da música popular brasileira, ainda mais cantando ritmos de origem africana com sua voz típica daquelas paragens. Sua presença de espírito, ao cantar as memórias de seu povo escravo e impor sua figura feminina, negra e de origem humilde, determinaram novos paradigmas para a concepção que se instaurava naquele período. Tanto é verdade que, em 1977, ela mereceu homenagem em samba de Candeia, lançado por Clara Nunes, que a convidou para dueto. Em “Partido Clementina de Jesus”, ou “PCJ”, cantam: “Um litro de gasolina/ Por 100 gramas de feijão”...

“Bloco do Prazer” (frevo, 1979) – Fausto Nilo e Moraes Moreira

O compositor Fausto Nilo conheceu os integrantes do chamado “Pessoal do Ceará” ainda na década de 1970, e, desde então, passou a ser gravado por cantores como Fagner e Belchior, e, mais tarde, Chico Buarque, Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Geraldo Azevedo, entre outros. No ano de 1979, o Trio Elétrico Dodô e Osmar, banda criada pelos inventores do trio elétrico na Bahia, lançou no Carnaval a música “Bloco do Prazer”, parceria de Nilo com o novo baiano Moraes Moreira. O frevo, em ritmo acelerado, é uma conclamação desenfreada à alegria e à liberdade. Gravada por Nara Leão, em 1981, tornou-se sucesso nacional na voz de Gal: “Quero ser mandarim/Cheirando gasolina”.

“Pelas Capitais” (MPB, 1979) – Moraes Moreira e Jorge Mautner

O mais baiano dos Novos Baianos, Moraes Moreira foi do trio elétrico ao baião, passando pelo chorinho, e logo se tornou o principal compositor do grupo que ecoou sucessos no Brasil todo, como “Preta Pretinha”, “Besta É Tu”, “Mistério do Planeta” e “Acabou Chorare”, entre muitos outros. Em 1975, depois de quatro álbuns lançados com os Novos Baianos, Moraes partiu em carreira-solo e, mais uma vez, não decepcionou. Em 1979, ele voltou a invadir as rádios com o álbum “Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira”, que continha, entre outras, a faixa “Pelas Capitais”, parceria de Moraes com o tropicalista Jorge Mautner, que, como dizia o título, peregrinava pelo país, rimando Teresina com gasolina.

“Tempo Bom (Faz Tempo)” (samba, 1980) – Bidi

Em 1980, Antônio Carlos Gomes, o famoso Mussum, lançou um disco-solo em que se destacaram faixas como “A Vizinha (Pega Ela Peru)” e “Tempo Bom Faz Tempo”. Este segundo trata-se de um samba do compositor Bidi, onde desfilam mazelas da sociedade brasileira que mantém a sua atualidade, entre a crítica e a galhofa, por exemplo, fazendo referências a problemas como inflação, preço da gasolina, dos alimentos e até de especiarias como chuchu com camarão, algo a que Carmen Miranda já se referia na década de 1930. Lá pelas tantas, Mussum ainda cita o eterno Rei do Futebol. “Um Pelé pra Seleção/ Faz tempo/ (...) O meu time campeão/ Faz tempo”, ironiza o sambista.

“Periga Ser” (frevo, 1982) – Robertinho de Recife e Fausto Nilo

Há 40 anos, o Brasil parava para ouvir uma música de título tão comprido que logo despertava a curiosidade, aguçada pelo próprio conteúdo da frase: “Mulher Nova, Bonita e Carinhosa Faz o Homem Gemer Sem Sentir Dor”. Zé Ramalho, o autor da letra, falava com propriedade, já que, na ocasião, ele era casado com Amelinha, cantora que propagou a canção em todo o Brasil e recebeu o disco de ouro pelas mais de 500 mil cópias vendidas, em 1982. No repertório, havia ainda outra canção que chamou atenção, um frevo de Robertinho de Recife e Fausto Nilo, intitulado “Periga Ser”, que, dentre outras alusões poéticas, dizia: “Pode o mundo fumaçar/Que o resto sai na gasolina...”.

“Cena de Cinema” (rock, 1983) – Lobão, Bernardo Vilhena e Marina Lima

João Luiz Woerdenbag Filho, mais conhecido como Lobão, nasceu no Rio de Janeiro, no dia 11 de outubro de 1957. Ele ganhou o apelido ainda na escola, quando usava um macacão que lembrava o do personagem da Disney. Lobão começou a carreira como baterista, tocou com Marina Lima e Marília Pera e fundou uma banda com Lulu Santos e Ritchie, antes de participar do primeiro disco da Blitz. Ali, o seu temperamento polêmico já ficaria conhecido. Lobão deixou a Blitz logo após o primeiro disco, por desentendimentos com os produtores, e partiu em carreira-solo, emplacando vários hits. Em 1983, lançou “Cena de Cinema”: “Tava queimando no meu carro/ A tal da gasolina”, cantava.

“Liga Lá Em Casa” (sertanejo, 2014) – Raymond Fein

Em 2014, o cantor Leonardo gravou um DVD para comemorar os 30 anos de uma bem sucedida carreira que começou ao lado do irmão Leandro, e continuou após a morte deste, em 1998, vítima de câncer de pulmão. Leonardo seguiu na trilha da música sertaneja e ampliou as suas fronteiras, como comprova a canção “Liga Lá Em Casa”, de Raymond Fein, que assimila influências do mundo pop à sua estrutura. A música se consagrou como uma balada de muito sucesso nas rádios de todo o país, e mereceu regravações. Na letra, Leonardo inventa uma série de desculpas para não voltar pra casa, dentre elas, a falta de gasolina. “Fala que eu fiquei sem gasolina...”, canta ele.

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