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Tito Madi foi elo entre sofisticada bossa nova e o sentimental samba-canção 

Cantor e compositor é responsável por sucessos como 'Chove Lá Fora' e 'Cansei de Ilusões', músicas regravadas por Nana Caymmi 

Tito Madi compôs clássicos da música brasileira, como 'Balanço Zona Sul', gravada por Simonal

Sob uma luz baixa, ele carrega flores e corteja a dama. Folhas se entregam ao chão pois é outono. No mesmo instante, o vento sibila sob o mar que bate contra a areia na noite deserta e pressente o orvalho que irá molhar as flores na primavera.

Tito Madi é um cavalheiro da canção que, debaixo das poucas estrelas que pontilham um céu escuro e macio, conforta-nos com a sua dor. A chuva tenta em vão abafar a saudade lá fora, enquanto Tito nos inebria com sua voz límpida e doce, pontuada pelas notas de um piano ou regida por uma orquestra. Cantor e compositor, ele nasceu no dia 18 julho de 1929, em Pirajuí, no interior de São Paulo, e morreu no Rio de Janeiro, em 2018, já aos 89 anos.

A voz morosa e graciosa de Tito Madi sinalizava, no final da década de 1950, qual seria o canto e as melodias da próxima estação. A bossa nova, canção que simbolizaria um Brasil novo e moderno iria se utilizar das influências trazidas pela turma de Tito Madi, Dick Farney, Agostinho dos Santos, Johnny Alf, Dolores Duran, Lúcio Alves, dentre outros.

As harmonias sofisticadas que Tito usava em suas músicas carregavam consigo todo o requinte de um compositor que sempre primou pela delicadeza e enxergava no canto uma forma de cochichar ao ouvido da amada todo seu carinho, amor e sofisticação.

Pode-se dizer que a voz e as composições de Tito Madi inspiram-se na leveza que o bater de asas de um passarinho, a joia regada a ouro e o bilhete colocado em meio ao buquê de rosas da namorada trazem para o mundo. Tito Madi canta olhando nos olhos, e compõe como se fizesse uma confissão singela de seus mais nobres sentimentos.

Tendo recebido prêmios como Disco de Ouro, medalhas dos Diários Associados e da Revista do Rádio, Tito teve também seus maiores sucessos regravados em versões inglesas nos Estados Unidos. Porque Tito é o compositor que faz balançar os corações da zona norte à zona sul do Brasil. E, inclusive, fora dele. Sem perder sua bossa...

“Cansei de Ilusões” (samba-canção, 1957) – Tito Madi

Nas palavras de Tito Madi, sua obra e a de Dolores Duran funcionam como “elo de união da música brasileira entre as fases de Chico Alves e a bossa nova”. Caracterizado por ser um compositor cuidadoso e atento aos detalhes, Tito utiliza-se do recurso de repetir com melindro as mais bonitas palavras da canção para que elas fiquem sutilmente gravadas nos corações. Ponte entre a tradição e a modernidade, Elizeth Cardoso privilegiava letras que calavam fundo em seu peito, como: “Mentira, foi tudo mentira/ Você não me amou/ Mentira, foi tanta mentira/ Que você contou”, em “Cansei de Ilusões”, de 1957.

“Chove Lá Fora” (valsa, 1957) – Tito Madi

Com “Chove Lá Fora”, o compositor Tito Madi recebeu, diretamente das mãos do então presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976), uma medalha de ouro entregue pela Revista do Rádio, além do Disco de Ouro oferecido pelo jornal “O Globo”. Gravada na época por Sylvinha Telles (1934-1966), a música se avoluma no canto de Nana Caymmi, que mantém na boca as últimas palavras de cada verso. Quando reaparecem, mais brandas, elas parecem ter sido ruminadas, efeito das lembranças que a memória nos causa. Melhor definição para a saudade não há: “Onde estás, como estás.../ Com quem estás agora?”.

“Balanço Zona Sul” (samba-bossa, 1963) – Tito Madi

Dono de uma dicção única na canção popular, Billy Blanco tornou-se peça fundamental no quebra-cabeça da bossa nova, do sambalanço e do modo de falar carioca. Ele teve sucessos gravados por Dick Farney, Lúcio Alves, Dolores Duran, Isaurinha Garcia, Silvio Caldas, isto sem falar nas diversas regravações por nomes da geração posterior, como Elza Soares, Caetano Veloso e Roberto Carlos, só para citar alguns. Esse estilo particular recebeu também uma contribuição fundamental de Tito Madi que, em 1963, compôs o samba-bossa “Balanço Zona Sul”, gravado com sucesso por Wilson Simonal.

“Por Um Amor Maior” (samba-canção, 1965) – Francis Hime e Ruy Guerra

Elis Regina ainda não havia se configurado como a estrela-maior da MPB quando gravou, em 1965, o LP “Samba – Eu Canto Assim”. No repertório, prevaleciam nomes ligados à tradição, como Vinicius de Moraes, Baden Powell, Edu Lobo, Francis Hime, Carlos Lyra e Dorival Caymmi. Das doze faixas, nada menos que quatro traziam a assinatura de Ruy Guerra. “Reza” e “Aleluia”, ambas com Edu Lobo, e “Último Canto” e “Por Um Amor Maior”, com Francis Hime. A última foi a que se destacou, recebendo, no ano seguinte, uma regravação cadenciada de Tito Madi, espécie de precursor da bossa nova.

“De Onde Vens?” (samba, 1967) – Nelson Motta e Dori Caymmi

Lançada por Nara Leão, a música “De Onde Vens” foi regravada por Elis Regina, Maria Creuza, Elizeth Cardoso, Tito Madi, Alcione, Fernanda Takai, dentre outros. Daí já se apreende a sua grandiosidade. Parceria de Nelson Motta e Dori Caymmi, essa samba de 1967 veio ao mundo no LP de Nara que trazia a sua caricatura na capa, ao estilo de Modigliani, com os olhos vazios e o perfil esguio, em um desenho do habilidoso Lan.

Na faixa, comparecia a voz de Edu Lobo, realizando o contraponto do diálogo, em uma participação especial. Seguindo os princípios ensinados por Vinicius de Moraes, a letra de Nelson Motta não titubeava em abraçar o sofrimento conjugal. “Dor de amor quando não passa/ É porque o amor valeu”, sentenciava. A canção se tornou clássica.

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