Ouça a rádio

Compartilhe

Sinônimo de elegância, Elizeth Cardoso se consagrou como uma cantora divina 

Nascida no Rio de Janeiro, ela deu voz a clássicos do repertório nacional, como 'Canção de Amor', 'Nossos Momentos' e 'Risque'

Elizeth Cardoso foi uma das maiores e mais elegantes cantoras da história da música brasileira

Ouvir Elizeth Cardoso (1920-1990), principalmente em seus primeiros registros, nos lembra de um tempo em que qualquer disquinho de música brasileira contava com uma orquestra de dar gosto. Claro que a Divina, epíteto dado pelo compositor Haroldo Costa, estava longe de ser diminuta.

Morta em razão de um câncer no estômago, Elizeth surgiu, ainda criança, em um cenário aonde reinava a voz poderosa de Vicente Celestino (1894-1968), o “Ébrio” do amor que dominava como ninguém os dós de peito, de quem ela cantava uma pá de sucessos ao preço de dez tostões recolhidos da vizinhança.

No bairro carioca de São Francisco Xavier, onde morava, próximo ao morro de Mangueira, ela foi descoberta por Jacob do Bandolim (1918-1969), e devolveu a honra sendo madrinha musical de João Nogueira, que a agradeceu no samba “Wilson, Geraldo e Noel”: “Peguei o meu samba e fui logo mostrando/ À meiga Elizeth, ela disse sorrindo/ Nego tem topete/ Já pode sambar lá em Vila Isabel”.

Um ano antes da morte do padrinho, em 1968, a cantora realizaria com Jacob, seu conjunto Época de Choro e o Zimbo Trio, o histórico espetáculo idealizado por Hermínio Bello de Carvalho no Teatro João Caetano, que renderia dois álbuns ao vivo.

Sucessos. Ali, ela já estava perfeitamente entrosada com Hermínio, que produzira, em 1965, outro show marcante: “Rosa de Ouro”, cujo repertório seria eternizado no disco “Elizete Sobe o Morro”, com músicas dos bambas Nelson Cavaquinho (1911-1986), Zé Kéti (1921-1999), Elton Medeiros (1930-2019), Candeia (1935-1978), Nelson Sargento e o caçula, mas muito talentoso, Paulinho da Viola.

De Jacob, Elizeth seria a intérprete primordial de “Doce de Coco”, choro com letra de Hermínio, assim como de “A Flor e o Espinho”, ditado em forma de canção de Nelson Cavaquinho, com sua emissão de aço – firme e brilhante. Impossível também não associar a dor do filho pela perda do pai da seresta “Naquela Mesa” a ela, que a lançou em 1972, e, ao lado do autor, a apresentou assim, emocionada: “De Sérgio Bittencourt para Jacob do Bandolim”.

Antes da consagração, a cantora subiu ao palco com Grande Otelo (1915-1993), durante dez anos, a bordo do quadro “Boneca de Piche”, homônimo a hoje incorretíssima música de Ary Barroso (1903-1964) e Luiz Iglesias. Nessa época, casou-se com o comediante Ari Valdez (1906-1961), de quem rapidamente se separou.

O êxito comercial só aconteceria em 1950, graças a “Canção de Amor”, da dupla Chocolate (1923-1989) e Elano de Paula (1923-2015), que Caetano Veloso regravaria em 1995, aparando todos os excessos. Com a carreira alavancada, Elizeth participou das chanchadas “Coração Materno” e “É Fogo na Roupa!”, e seu rosto passou a ser conhecido do grande público. Pioneira, ela serviu de referência para outras cantoras negras, como Alaíde Costa, Eliana Pittman e Zezé Motta, que a viveu em um musical.

Estilo. Em 1966, integrou a delegação brasileira no Festival de Arte Negra, em Dacar, capital do Senegal, e, na volta, gravou “Enluarada Elisete”, que teve como convidados Pixinguinha (1897-1973), Cartola (1908-1980), Clementina de Jesus (1901-1987) e Codó (1913-1985). A partir da década de 1950, quando passaria a entrar em estúdio com frequência, a tônica de suas incursões fonográficas seriam os amores deprimidos que abundavam em sambas-canções, boleros e choros.

Os sentimentos universais de abandono e desilusão encontrariam uma intérprete de voz calorosa, capaz de conciliar os arroubos de suas antecessoras Angela Maria (1929-2018) e Dalva de Oliveira (1917-1972) às interpretações mais delineadas que ditariam a canção nacional a partir do aparecimento de João Gilberto (1931-2019) e sua bossa nova.

Por sinal, meio de gaita, Elizeth acabaria tida como espécie de precursora “torta” do estilo, ao cantar Tom Jobim (1927-1994) e Vinicius de Moraes (1913-1980) no álbum “Canção do Amor Demais” (1958), com direito à emblemática “Chega de Saudade” abrindo os trabalhos. Para completar, havia o violão de João Gilberto em duas faixas.

Mas Elizeth era uma cantora à moda antiga, como entregava o título do LP. Ponte entre a tradição e a modernidade, a artista privilegiava letras que calavam fundo em seu peito: “Nunca mais vou fazer/ O que o meu coração pedir/ Nunca mais vou ouvir/ O que o meu coração mandar”, de Antônio Maria (1921-1964) e Ismael Neto (1925-1956). “Ocultei/ Um sentimento de morte/ Temendo a sorte/ Do grande amor que te dei”, de Ary Barroso.

“Risque meu nome do seu caderno/ Pois não suporto o inferno/ Do nosso amor fracassado”, do mesmo compositor. “Outra vez, sem você/ Outra vez, sem amor/ Outra vez, vou sofrer, vou chorar/ Até você voltar”, de Tom Jobim. “Vire essa folha do livro e se esqueça de mim/ Finja que o amor acabou e se esqueça de mim”, de Vinicius de Moraes. “Mentira, foi tudo mentira/ Você não me amou/ Mentira, foi tanta mentira/ Que você contou”, de Tito Madi (1929-2018), e inúmeras outras.

A emoção que transmitia, sem renunciar à técnica apurada, advinha da própria vida amorosa, que somava um matrimônio fracassado a um trauma, quando o então namorado, Evaldo Rui (1913-1954), coautor de “Nega Maluca”, com Haroldo Lobo (1910-1965), a telefonou pouco antes de cometer suicídio.

Legado. A maior inflexão em sua trajetória ocorreria em 1973, com a marchinha “Eu Bebo Sim”, de João do Violão e Luiz Antônio (1921-1996), assumida ode ao hedonismo etílico, com conclusões pra lá de divertidas que seguem embriagando foliões: “Eu bebo sim/ E tô vivendo/ Tem gente que não bebe/ E tá morrendo”. Até hoje, a música é a mais tocada do repertório de Elizeth.

Na direção oposta, ela cantou as “Bachianas N.º 5”, de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), em pleno Teatro Municipal do Rio e repetiu a dose em São Paulo, no ano em que a ditadura militar iniciou um período sombrio no país. Entre um extremo e outro, do erudito ao popular, passando pela bossa, o samba e o choro, Elizeth se consolidou como uma autêntica cantora brasileira, dedicada a cantar o que para ela fazia sentido e o público sentia. Sinônimo de elegância, ela foi divina.

Leia Mais

Mais lidas

Ops, não conseguimos encontrar os artigos mais lidos dessa editoria

Baixar o App da Itatiaia na Google Play
Baixar o App da Itatiaia na App Store