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Há 90 anos nascia Paulo Moura, virtuose da clarineta que foi do choro ao jazz 

Músico e compositor tocou com Maysa, Ary Barroso e Dolores Duran e empreendeu parcerias com João Donato e Wagner Tiso

Paulo Moura foi um dos maiores clarinetistas e saxofonistas da música popular brasileira

Nunca se perguntou com quem era o pacto de Paulo Moura. O sorriso terno, até certo ponto angelical, como de uma criança ingênua, tímida, impedia a questão que surgia quando a clarineta do compositor soava. Paulo Moura era capaz de tudo: da exaltação acalorada de “Espinha de Bacalhau”, clássico de Severino Araújo, à contenção vaporosa de “Penumbra”, peça de Radamés Gnatalli.

Isso sem falar em suas criações autorais – se bem que, ao tocar, Paulo Moura soava sempre autoral –, como “Tempos Felizes”, “Peguei a Reta”, “Magia do Samba”, “Tarde de Chuva”, e muitas outras, entre parcerias com Wagner Tiso, João Donato, Raphael Rabello, e releituras que iam do inventivo Hermeto Pascoal até o mestre da nossa dor-de-cotovelo, Lupicínio Rodrigues...

Quando estreou em disco, com um 78 rotações, homenageou o diabólico Paganini – este sim, pactuado com o diabo, segundo as más línguas –, ao criar a sua versão para “Moto Perpétuo”, peça erudita que, do violino, passou para a clarineta sem perder o peso, sentir a mudança ou alterar a substância, pelo contrário.

O espanto provocado com sua aparição, aos 20 e poucos anos, abriu as portas para o prosseguimento da carreira do garoto que, logo de cara, foi considerado prodígio e virtuose. “Paulo Moura e Sua Orquestra para Bailes” o levou ao primeiro LP, em 1956, antes da saudação à Radamés Gnatalli, em 59. Mas Paulo Moura já tinha, a essa altura, uma sólida formação, passando pelas batutas de professores da tarimba de César Guerra-Peixe e de Moacir Santos.

A experiência ainda acumulava excursões pelo México com Ary Barroso e apresentações ao lado da cantora Maysa. No final da década de 1950, conheceu a União Soviética e países do bloco socialista, ao viajar com Dolores Duran, Nora Ney e Jorge Goulart, todos conhecidos pela militância política.

Ou seja, Moura estava versado no mundo, tanto do ponto de vista formal quanto conceitualmente, o que o instigou a experimentar vários estilos. Passou do clima de bossa nova e do acento jazz para tangos e boleros de pegada latina, até se concentrar no chorinho, sem perder, nunca, a veia criativa, curiosa, que impulsionava sua clarineta a solos impossíveis. Ou, até, a voos inacreditáveis...

Não por acaso, o álbum “Confusão Urbana, Suburbana e Rural”, de 1976, ganhou ilustração de Elifas Andreato, em que o casal da capa, formado por duas pessoas negras, aparece dançando, cheio de movimento, com Pixinguinha e os Oito Batutas ao fundo. A cara de Paulo Moura com suas influências e novidades.

O disco foi um marco, um acontecimento, que aproximou Paulo Moura de um universo mais popular, quando a música instrumental ainda conseguia despertar a atenção de parcela da sociedade, incluindo, aí, emissoras de rádio e TV. Foi o que levou Paulo Moura ao estrelato. Ou ao que poderia se chamar de seu estrelato. O estrelato de um menino tímido, um pouco inocente, preocupado com sua clarineta e seu povo...

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