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Último show de Elza Soares é lançado; Relembre dez grandes sucessos 

Cantora cumpriu a profecia feita na música 'A Mulher do Fim do Mundo' de cantar até o fim e deixou legado de canções fortes 

Elza Soares se apresentou no Theatro Municipal de São Paulo em janeiro de 2022

Dois dias antes de morrer, Elza Soares (1930-2022) subiu ao palco pela última vez no Theatro Municipal de São Paulo, e realizou a sua derradeira gravação, cumprindo a profecia feita na música “A Mulher do Fim do Mundo” de cantar até o fim.

Agora, no dia em que ela completaria 92 anos, a gravadora Deck disponibiliza nas plataformas digitais esse ato final da trajetória de Elza, cantora que passou por todos os ritmos – do rap ao samba, passando pelo rock –, e atravessou décadas da música brasileira, sempre com sucessos marcantes. Aproveitamos a oportunidade para relembrar e celebrar seu legado.

“Se Acaso Você Chegasse” (samba, 1938) – Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins

Escrito por Lupicínio Rodrigues em parceria com Felisberto Martins em 1938, o samba “Se Acaso Você Chegasse” fez sucesso com Ciro Monteiro. Na estreia em disco de Elza Soares, no ano de 1959, a peça ganhou o contorno da voz jazzística da cantora, substituindo frases do refrão por sonetos sonoros que deixam no ar a real intenção dos personagens. À história de amor desfeito e amizade posta sob o perigo de Lupicínio Rodrigues, Elza adentrou com intimidade e atrevimento, sem perder a dor-de-cotovelo.

“Beija-me” (samba, 1943) – Roberto Martins e Mário Rossi

A pitada de jazz acrescentada por Elza Soares ao samba que pratica garante a autenticidade sonora de seus retumbantes graves, agudos e tudo mais que endossa sua voz inigualável. Sejam rasgadas as interpretações, ou disfarçadas sob a fantasia de um macio véu, a música espalha-se em Elza Soares ao deleite de desvios maternos, femininos, vorazes.

“Beija-me”, samba de 1943 de autoria de Roberto Martins e Mário Rossi, sucesso de Ciro Monteiro, é um convite irrecusável, feito pela cantora do milênio, segundo a BBC de Londres. Gravado por Elza Soares em 1961. “Beija-me, deixa o teu rosto coladinho ao meu…”.

“Mulata Assanhada” (samba, 1956) – Ataulfo Alves

Ary Barroso determinou, em 1950, que o maior compositor popular brasileiro era seu conterrâneo mineiro, Ataulfo Alves. Seis anos depois, o prestigiado sambista lançou obra prima de sua autoria, outra delas, “Mulata Assanhada”. Lançada por Elizeth Cardoso, a canção corre no tempo esperto e sinuoso das curvas da mulata em questão.

Regravada em 1960, sem demérito nenhum para a primeira gravação, pela personalíssima Elza Soares, tornou-se emblema de sua figura: “Ô mulata assanhada, que passa com graça, fazendo pirraça, fingindo inocente, tirando o sossego da gente.”

A incorreção política de Ataulfo aparece ao recorrer aos provocantes versos: “Ai meu Deus, que bom seria, se voltasse a escravidão, eu comprava essa mulata e prendia no meu coração, e depois a pretoria é que resolvia a questão!”.

“Boato” (samba, 1961) – João Roberto Kelly

O violão paterno e os ouvidos grudados no rádio deram à Elza Soares a oportunidade de conhecer Noel Rosa, Geraldo Pereira e Ary Barroso, que lhe abriu as portas pessoalmente para o estrelato, depois de zombar de sua roupa e arrepender-se, mesmo que veladamente, nomeando aquela menina humilde e tempestuosa de estrela.

Interpretada com a avidez de sempre, Elza Soares soube dar ritmo certo ao samba de 1961 de João Roberto Kelly, “Boato”, em que sua voz alerta triste os infortúnios sombrios do ilusionismo.

“Salve a Mocidade” (samba de carnaval, 1975) – Luiz Reis

Elza Soares sempre puxou pela força do canto as barreiras que tentaram derrubá-la. Cantou o samba de carnaval de Luiz Reis, escrito em 1975, exaltando a escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel. Mas também o que existe de “mais quente”, o povo e sua festa, sendo ela mesma, o carnaval na essência, superando toda quarta-feira que foi cinza em sua vida. Ansiando a folia.

“Malandro” (samba, 1976) – Jorge Aragão e Jotabê

A música de Elza Soares, tal qual a perfeita expressão da personalidade, combina rítmica, harmonia, melodia e letras bem trabalhadas, embelezadas por seu canto instigante e bardo, nas mais altas prateleiras da atemporalidade. “Malandro”, samba de 1976, foi lançado por Elza juntamente com o compositor Jorge Aragão, que divide a autoria da música com Jotabê. Os versos relatam um aviso de que o amor representa perigo. Mas vale o risco, tão bem ritmados pela cantora.

“Língua” (samba rap, 1984) – Caetano Veloso

Houve quem quisesse destruir Elza Soares (policiais covardes, jornais sensacionalistas), sem perceber que estímulos sonoros são inquebrantáveis. Qual então a força do canto que remete aos primórdios do haver humano, e mais ainda, bulido à margem do trompete de metal que se ergue aos ombros de quem sassarica sem vergonha de querer ser feliz.

Tudo através da música que rege a vida. A onda sonora que abate oportunistas desventurados no caminho da rainha de argila, feita de água e terra, com a verdade que compreende conquistas. Por isso a “Língua” de Elza Soares soa tão afiada e cortante como lâmina para quem a quiser corrompê-la de hipocrisia.

Aos prazeres modestos, sem a imoralidade insólita, ela se derrete, sem medo. E junta sua língua à de Caetano Veloso, em 1984, rap esperto e afinado. Um ano depois, gravou disco produzido por Caetano e Lobão.

“Espumas ao Vento” (balada, 1997) – Accioly Neto

Fagner não chegou a conhecer pessoalmente Accioly Neto (1950-2000), mas foi um dos maiores divulgadores da obra do compositor pernambucano, de quem regravou, na década de 1990, “Espumas ao Vento” e “Lembrança de um Beijo”. Em seguida, ele participou de um disco duplo em homenagem a Accioly, que enfileirou 30 novas gravações feitas por 30 diferentes artistas, como Elba Ramalho, Chico César, Zélia Duncan, Lucy Alves, Mariana Aydar e Zé Manoel.

A, então inédita, “Casa Comigo”, chegou ao conhecimento do público pela voz do cantor cearense. “Accioly sempre foi um autor muito conhecido no Nordeste, mas infelizmente morreu cedo, com apenas 50 anos. Ele teve uma carreira prolífica, principalmente em Pernambuco, onde nasceu”, atesta Fagner. “Espumas ao Vento” já foi gravada por Flávio José, Elza Soares e Chico César.

“A Carne” (rap, 2002) – Marcelo Yuka, Seu Jorge e Ulisses Cappelletti

Composição de Marcelo Yuka, Seu Jorge e Ulisses Cappelletti, a letra de “A Carne” explora o racismo estrutural presente na sociedade brasileira. Interpretada por Elza Soares, a faixa está presente no álbum “Do Cóccix Até o Pescoço”, lançado em 22 de abril 2002.

Já ao longo do repertório de “Planeta Fome”, de 2019, Elza reflete sobre um Brasil deitado e sem berço. “Só canto o que é atual”, diz ela, que registrou novas versões para “Comportamento Geral” e “Pequena Memória para um Tempo sem Memória”, ambas compostas por Gonzaguinha durante a ditadura militar. “Passei pela ditadura, me lembro daquele momento e vejo que hoje é mais ou menos parecido. O Brasil está passando por uma soneca, mas vai acordar, sou esperançosa”, afirma.

“Maria da Vila Matilde” (pop-rock, 2015) – Douglas Germano

Não é de hoje que Elza Soares representa a mulher sobrevivente, batalhadora, livre, dona de seus desejos e vaidades. Para coroar a carreira da octogenária intérprete nada melhor do que a canção “Maria da Vila Matilde”, peça que conjuga samba e música eletrônica, na veia da nova MPB, modernidade sem esquecer a tradição, bem ao estilo ousado e inquieto de Elza Soares.

Denúncia clara à violência contra a mulher, a canção serviu para suscitar debates e cumpriu sua função social. Mais do que isso, exprimiu a arte de uma mulher talentosa, guerreira, determinada, que não abre mão de seus prazeres e é um símbolo de perseverança. Para a qual não existe idade, credo, gênero ou raça.

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