Ouça a rádio

Compartilhe

Nelson Gonçalves bateu recorde de gravações e emplacou vários sucessos 

Nascido em Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, ele se igualou a Elvis Presley e eternizou músicas como 'A Volta do Boêmio' 

Nelson Gonçalves foi uma das maiores vozes da história da música brasileira

Nelson Gonçalves era um homem vaidoso, a ponto de dizer que ele mesmo se emocionava com as próprias interpretações. Nascido no dia 21 de junho de 1919, em Santana do Livramento, no interior do Rio Grande do Sul, o homem de voz potente, charmosa e grave acumulou polêmicas, quedas e reerguimentos ao longo dos 78 anos de vida que teve, a maior parte deles dedicados à música.

Recordista de gravações da música brasileira, Nelson recebeu um prêmio da RCA-Victor por ter ficado 55 anos na gravadora. Além dele, só Elvis Presley obteve tal feito. Mas foi a aclamação popular a maior de todas as conquistas do intérprete, cuja obra continua ecoando.

Em 2018, a gravadora Nova Estação lançou o álbum “Angela Maria e Nelson Gonçalves Ao Vivo”, em registro que permanecia inédito e enfileira os sucessos da carreira do cantor.

“Renúncia” (foxtrote, 1942) – Roberto Martins e Mário Rossi

Começando a se projetar em 1942, com a valsa “Dorme Que eu Velo Por Ti”, o jovem cantor Nelson Gonçalves se consagraria cinco meses depois, com o foxtrote “Renúncia”. O curioso é que Nelson não estava interessado na música, só a gravando graças a uma determinação do diretor da RCA-Victor. Por isso, ele chegou ao estúdio sem conhecer a melodia. Temendo que Nelson errasse na gravação, Roberto Martins gratificou o saxofonista Luís Americano para ele anteceder a entrada do cantor com um solo do tema.

“Louco (Ela é Seu Mundo)” (samba, 1943) – Wilson Batista e Henrique Almeida

No samba de 1943, Wilson Batista apresenta a loucura como a condutora oficial do sentimento menos previsível do ser humano: o malfadado amor. Com versos que descrevem a agonia do protagonista, o compositor apresenta uma letra inteligente e romântica, que acompanha esses passos desenganados e sem rumo. Lançada por Orlando Silva, a música ganhou várias regravações de Nelson Gonçalves, que revive com maestria todas as nuances da melodia. Mais tarde, Nelson a cantou em dueto com Alcione.

“Maria Bethânia” (samba-canção, 1945) – Capiba

Feita por encomenda de Hermógenes Viana, diretor do Teatro dos Bancários, que ensaiava a peça “Senhora de Engenho”, de Mário Sette, a música é inspirada na heroína da montagem. Nelson Gonçalves, em temporada pelo Recife, a ouviu no rádio e acabou registrando a música. Esta gravação só aconteceu por insistência de um lojista pernambucano, que se comprometeu junto à RCA-Victor a comprar um mínimo de duzentos discos. Clássica, a canção inspirou depois o batismo da irmã de Caetano Veloso.

“Caminhemos” (samba-canção, 1948) – Herivelto Martins

Atravessando na época um período conturbado de sua vida sentimental, o compositor Herivelto Martins extravasava em sua música os problemas que o afligiam. Assim, não foi por acaso que saíram, em sequência, músicas como “Segredo”, “Caminhemos”, “Cabelos Brancos” e, por fim, as composições que marcaram a polêmica separação da mulher, a cantora Dalva de Oliveira. Lançada em novembro de 1947, por Nelson Gonçalves, “Caminhemos” firmou-se na preferência popular do país após o Carnaval do ano seguinte.

“Normalista” (samba, 1949) – Benedito Lacerda e David Nasser

Inspirada num caso real de proibição de casamento, segundo conta David Nasser, no livro “Parceiro da Glória”, a história teria se passado com a filha do coronel Félix Henrique Valois, interventor no Acre. A moça estava apaixonada por um tenente e, normalista, lutava por seu amor. O pai não queria consentir no casamento e havia, de outro lado, a proibição do Instituto de Educação. No final, tudo deu certo, pois além de inspirar um belo samba, a moça se casou. Lançada por Nelson Gonçalves, obteve sucesso imediato.

“Última Seresta” (bolero, 1952) – Adelino Moreira e Sebastião Santos

Essa foi a primeira música de sucesso de Adelino Moreira lançada por Nelson Gonçalves. Um ano antes, o compositor havia tentado a sorte com a marchinha “Parafuso”, gravada pela dupla Zé da Zilda e Zilda do Zé, mas foi no samba-canção que ele encontrou um campo profícuo para o desenvolvimento de sua obra. Com uma forma de andamento e dança igual ao bolero, mais próxima do choro, a canção “Última Seresta” iniciou uma das parcerias mais celebradas da música brasileira, especialmente nos anos 50.

“Meu Vício É Você” (samba-canção, 1956) – Adelino Moreira

Nelson Gonçalves estava gravando vários tangos da dupla de compositores formada por Herivelto Martins e David Nasser, que resolveram lançar com ele uma versão para o clássico “Mano a Mano”, de Carlos Gardel. Só que havia a necessidade de colocar uma outra música no lado B do disco de 78 rotações. Por insistência de Adelino Moreira, o cantor resolveu gravar “Meu Vício É Você”. Essa gravação tem um improviso lindo de Jacob do Bandolim, e acabou que fez muito mais sucesso do que o tango do lado A do disco.

“Dolores Sierra” (bolero, 1956) – Wilson Batista e Jorge de Castro

Ambientada na Espanha, em Barcelona, com passagem por Salamanca, sua cidade natal, o bolero com a história de Dolores Sierra foi lançado por Nelson Gonçalves, e teve um forte apelo nas rádios da época. A trajetória típica e romantizada da protagonista revela interessantes aspectos históricos, como a lendária e frequente prostituição nos portos e cais do país, para atender aos marinheiros, e a dissociação, neste caso, entre sexo e amor. “Não tem castanholas/ E faz companhia a quem lhe der mais”, afirmam os versos.

“A Volta do Boêmio” (samba-canção, 1957) – Adelino Moreira

Um clássico da música sentimental, “A Volta do Boêmio” é, talvez, o maior sucesso da carreira de Nelson Gonçalves. Num estilo que mais tarde seria chamado de brega-romântico, este samba-canção trata de um personagem que, tendo abandonado a boemia pelo amor a uma mulher, pede agora “inscrição” para voltar à vida antiga: “Boemia, aqui me tens de regresso/ E suplicante, te peço/ A minha nova inscrição/ Voltei pra rever os amigos que um dia/ Eu deixei a chorar de alegria/ Me acompanha o meu violão”.

“Fica Comigo Esta Noite” (bolero, 1961) – Adelino Moreira e Nelson Gonçalves

Além de intérprete principal da obra de Adelino Moreira, Nelson Gonçalves foi também o seu parceiro em mais de vinte composições. A mais conhecida de todas elas certamente é “Fica Comigo Esta Noite”, que virou tema de musical e até título de filme erótico. Em 1980, Angela Ro Ro sublinhou a sensualidade da canção ao reforçar os tons de bolero contidos em seu ritmo. Outros artistas deram a sua versão para a história de amor, como Agnaldo Timóteo, Simone, Núbia Lafayette e Fábio Jr. Mas a de Nelson é insuperável.

Leia Mais

Mais lidas

Ops, não conseguimos encontrar os artigos mais lidos dessa editoria

Baixar o App da Itatiaia na Google Play
Baixar o App da Itatiaia na App Store

Acesso rápido