Ouça a rádio

Compartilhe

Assim como Chico Buarque, o mineiro Ataulfo Alves nos propôs um samba 

Compositor de clássicos do repertório nacional fez uma crítica e homenagem ao gênero mais tradicional do país no ano de 1967 

Donga, Pixinguinha, João da Bahiana, Ataulfo Alves e Jacob do Bandolim no bar

Ataulfo Alves nasceu em Miraí, interior de Minas Gerais, e foi na Zona da Mata que ele passou a retrucar as trovas que seu pai, o Capitão Severino, um conhecido violeiro, sanfoneiro e repentista da região, criava.

O pai de Ataulfo foi o principal responsável por essa primeira formação do músico, que, ainda na adolescência, se mudou da Fazenda Cachoeira, onde morava, para o Rio de Janeiro, onde tomou contato com o samba dos morros e criou seu estilo único

Influências. Ataulfo sofreu alguma influência do modo de pronunciar o samba dos músicos cariocas, até pela convivência com eles. Ainda assim, o seu estilo é único, e traz uma dolência típica das Minas Gerais, das montanhas, da Zona da Mata.

Essa peculiaridade pode ser observada em canções saudosistas e melancólicas, casos de “Meus Tempos de Criança”, “Laranja Madura” e “Na Cadência do Samba”, que fazem uso de expressões típicas dos mineiros. Já “O Bonde de São Januário”, “Ó Seu Oscar!” e “Leva Meu Samba” possuem um acento mais carioca.

Elegância. “Tempo Perdido”, gravada por Carmen Miranda, lançou Ataulfo no circuito carioca. Essa é mais uma típica canção de dor-de-cotovelo, de amor sofrido, do repertório de Ataulfo Alves, na linha de sucessos que se tornaram clássicos, como “Fim de Comédia”, “Errei, Sim”, “Atire a Primeira Pedra”, “Errei, Erramos”, entre outros.

A característica mais interessante desse samba é a altivez da personagem que, mesmo abandonada, não produz escândalo nem se curva ao carrasco, pelo contrário, e diz que o mundo vai ensina-lo. Essa altivez tem muito a ver com a própria postura de Ataulfo, conhecido pela elegância.

Intérprete. “Ataulfo Alves e Suas Pastoras”, lançado em 1959, é um disco essencial por duas razões: primeiro porque preservou, com boa qualidade técnica, grandes sucessos de Ataulfo Alves, como “Bonde de São Januário”, “Meu Pranto Ninguém Vê”, “Ó Seu Oscar”, e preciosidades menos conhecidas de seu repertório, mas igualmente indispensáveis para os amantes da boa música, como “Mais Um Samba Popular”, “Intriga” e “Meu Pranto Ninguém Vê”.

A segunda razão é que esse disco deixa clara a qualidade de Ataulfo como cantor, o seu belo timbre de voz e a emissão bem-colocada. Ou seja, além de um compositor dos maiores, ele também era um cantor que não deixava a peteca cair.

“Na Cadência do Samba” (samba, 1962) – Ataulfo Alves e Paulo Gesta

Homônima de outra canção de sucesso, “Na Cadência do Samba” só tem em comum com a gêmea distante o seu nome. A música de Luiz Bandeira, mais conhecida pelo verso inicial “Que bonito é…”, é uma ode à alegria e tornou-se emblema de transmissões futebolísticas quando o Brasil dava as cartas no jogo.

Já a composição de Ataulfo Alves e Paulo Gesta reflete sobre a despedida definitiva, ou seja, a morte. Lançada por Ataulfo Alves, ganhou regravação marcante da Divina Elizeth Cardoso, que foi seguida por Cássia Eller, Martinho da Vila, Novos Baianos e outros que não resistiram à cadência desse belo samba.

“Laranja Madura” (samba, 1967) – Ataulfo Alves

Ataulfo Alves foi leiteiro, condutor de bois, carregador de malas, engraxate, marceneiro e lavrador, além do mais frequentava a escola, antes de se tornar um dos mais conhecidos compositores populares do Brasil. Não espanta, portanto, que Ataulfo tenha recolhido uma expressão popular, um ditado, para colocar em sua música.

“Laranja madura, na beira de estrada, tá bichada, Zé, ou tem marimbondo no pé”, exemplifica em versos a decantada desconfiança mineira. Pois foi na escola da vida que Ataulfo formou seu caráter social e artístico. A música foi lançada em 1967, por Ataulfo com as suas “Pastoras”, outra tradição de Minas, e regravada por Noite Ilustrada e Itamar Assumpção.

“Vassalo do Samba” (samba, 1967) – Ataulfo Alves

Lançado em 1967, pelo próprio Ataulfo Alves, no disco “Eternamente Samba”, a composição “Vassalo do Samba” vai ao encontro do título do LP e resgata uma antiga máxima do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade: “E como ficou chato ser moderno. Agora serei eterno”. A música de Ataulfo é, ao mesmo tempo, homenagem à tradição e crítica à modernidade.

Ataulfo afirma na letra que até tentou fazer um samba moderno, mas ele o recebeu com protestos, resultando em “um vexame total”. É necessário contextualizar, ainda, a época em que o samba foi gravado. Um ano depois, eclodiria a Tropicália, injetando novas transformações na música brasileira após a Jovem Guarda e a Bossa Nova. “Vassalo do Samba” foi gravada por Noite Ilustrada e Itamar Assumpção. Em 2022, foi a vez de Chico Buarque propor um samba, com “Que Tal Um Samba?”.

Leia Mais

Mais lidas

Ops, não conseguimos encontrar os artigos mais lidos dessa editoria

Baixar o App da Itatiaia na Google Play
Baixar o App da Itatiaia na App Store

Acesso rápido