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Leila Diniz deixou saudades e legado de liberdade há 50 anos 

Atriz morreu em um acidente de avião no auge do sucesso, com apenas 27 anos, e se tornou ícone da mulher livre e libertária 

Leila Diniz gerou reação da ditadura após entrevista ao 'Pasquim'

Um acidente de avião matou, no auge do sucesso e no esplendor da beleza, a atriz Leila Diniz, que, no dia 14 de junho de 1972, perdeu a vida aos 27 anos. Leila voltava da Índia para o Brasil, após divulgar o seu novo filme na Austrália. Antes de viajar, a atriz deixara com o ex-marido, o cineasta Ruy Guerra, a filha do casal, Janaína, com menos de dois anos de idade.

A tragédia comoveu o Brasil, não apenas por seus contornos explícitos, mas pelo que Leila representava. Desbocada, irreverente e, acima de tudo, libertária, ela foi a primeira a posar de biquíni e com seu barrigão de grávida nas praias cariocas.

A imagem confrontava o ideal de maternidade pintado pelos conservadores. Era uma mãe plena em sua sexualidade. Leila se guiava pelo desejo, essa palavra sinônimo de pecado.

Polêmicas. “Você pode amar muito uma pessoa e ir para a cama com outra”, declarou ela numa explosiva entrevista ao “Pasquim”, em 1969, que resultou, meses depois, no que ficou ironicamente conhecido como “Decreto Leila Diniz”, quando a ditadura instituiu a censura prévia.

Leila não se curvava às convenções, e agia como feminista sem utilizar o termo. Carlos Drummond de Andrade a homenageou com poesia. Martinho da Vila, Erasmo Carlos, Rita Lee, Elton Medeiros, Paulo César Pinheiro, Carlinhos Vergueiro e Taiguara o fizeram em canções.

Milton Nascimento se valeu de um delicado poema de Leila para criar a música “Um Cafuné na Cabeça, Malandro, Eu Quero Até de Macaco”, título pinçado de um bordão da própria protagonista, e que ajuda a entender um pouco da sua personalidade.

Não bastasse isso, a histórica entrevista para “O Pasquim”, recheada de palavrões censurados e onde Leila pregava, principalmente, o “amor livre” e a “liberdade sexual da mulher”, gerou uma enérgica reação do regime militar em vigência.

Liberdade. Tudo isto, no entanto, ainda não é suficiente para entender a relevância de Leila Diniz na sociedade brasileira. Morta há cinco décadas, não é por acaso que poucos ainda a reconhecem como atriz de novelas da Rede Globo e da TV Tupi, dentre outras.

Justamente porque Leila foi muito mais. Vedete, professora, estrela do longa-metragem “Todas as Mulheres do Mundo” (uma declaração de amor de seu ex-marido Domingos Oliveira, em sua estreia cinematográfica), a carioca entrou para a história ao adotar uma postura livre e sem panfletagem, muito mais próxima ao universo hippie – acusado pela esquerda nacional de alienado – do que dos movimentos feministas da época.

Para Leila, as únicas bandeiras eram “as do Salgueiro e a do Flamengo”, discurso que tornava nítida e clara essa liberdade muito mais vivida do que proclamada, menos em tese e mais nos atos. Uma liberdade agregadora, da qual o desejo, a libido, o prazer e o amor eram parte fundamental.

Mulher. A morte trágica e precoce, aos 27 anos de idade, representou para o país a perda de um jeito atrevido e irresponsável de se posicionar. Perdia-se a beleza, a poesia de uma jovem que enfrentava as repressões sociais sem empunhar armas de fogo ou discursos inflamados.

A imagem de Leila grávida, na praia, de biquíni e chapéu na cabeça, cristaliza essa possibilidade da mulher feminina, rebelde, alegre, ousada, mãe, “porra-louca” e tudo mais o que ela quisesse ser numa única personagem.

Tudo isso, ainda assim, não é suficiente para explicar Leila Diniz. Para isto, é necessário assisti-la, e compreender que ela foi, sobretudo, e antes de mais nada, uma mulher, com todas as vogais e consoantes, sem asteriscos nem cortes.

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