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Gal Costa homenageia Milton, canta sucessos e emociona plateia em BH  

Cantora retornou ao Palácio das Artes para a segunda apresentação do espetáculo 'As Várias Pontas de Uma Estrela'

Gal Costa durante o espetáculo 'As Várias Pontas de Uma Estrela'

Aquela voz foi embora. Mas não deixa de ser bonito o esforço de uma mulher procurando-a. Gal Costa, aos 76 anos, não tem mais os agudos de cristal que espantaram o Brasil quando ela surgiu, leve e solta, no final dos anos 1960, – e nem poderia – com toda a loucura e irreverência da Tropicália, hasteando a bandeira da liberdade em seu corpo esguio e pronto para amar, atento e forte, sem tempo de temer a morte.

Ainda assim, Gal, rouca por conta de uma apresentação no “frio de tremer os ossos” de Curitiba, como ela mesma definiu, não poupou esforços ao subir ao palco do Palácio das Artes, na última sexta (3), em Belo Horizonte. Imóvel como de costume, se concentrou nas palavras, sutis.

“As Várias Pontas de Uma Estrela”, espetáculo que parte da história de Milton Nascimento para chegar à de Gal, mais uma vez sublinhando a fala da artista, celebra os 80 anos de Bituca, os 50 do disco “Clube da Esquina”, e todas as nuances atravessadas pela intérprete, enfim, celebra o tempo, a idade, a caminhada, a bordo de um roteiro exemplar, que dispensa o óbvio em muitos de seus momentos.

Gal tem uma gama de sucessos para oferecer ao público, ávido em aplaudi-la mesmo nas derrapadas, pois o humano é falho e a diva está disposta ao erro, e os combina com pérolas menos conhecidas do repertório. “Ponta de Areia” introduz a cantora na cena, que logo ataca com “Fé Cega Faca Amolada”. Em “Hotel das Estrelas”, ela parece mais à vontade, sob os aplausos.

“Estrela, Estrela”, de Vitor Ramil, é um desses momentos de inflexão, pra dentro. Que dura pouco tempo, pois, na sequência, o êxtase retorna em “Paula e Bebeto”, acompanhada em coro. “Quem Perguntou Por Mim”, “Minha Voz, Minha Vida” e “Desafinado” se coadunam em um bloco coeso.

“Estrada do Sol”, pré-bossa nova, de Dolores Duran e Tom Jobim, da década de 1950, é oferecida ao clamor da esperança em tempos pandêmicos: “Me dê a mão vamos sair pra ver o sol”, incentiva Gal, cuidadosamente. Ao encarar “Solar”, uma das peças mais difíceis da parceria entre Milton Nascimento e Fernando Brant, Gal não atinge os agudos de quando a lançou, com o grupo Roupa Nova, e decide interromper a música, passando para a seguinte. A cantora se justifica, mas nem precisava.

“Nua Ideia”, típica canção balanceada de João Donato, com os versos de Caetano, recoloca o show nos trilhos. “Dom de Iludir”, a resposta que Caetano elaborou para a clássica “Pra Quê Mentir?”, de Noel Rosa, surge correta. “O Último Blues” e “A História de Lily Braun”, ambas de Chico Buarque, elevam a temperatura, graças ao entrosamento dos músicos da banda de Gal.

Ela, então, olha novamente para trás, com o primeiro grande sucesso, “Baby”, onde o público faz questão de frisar a palavra “gasolina”, num dos versos mais conhecidos, para protestar contra as constantes altas no preço do combustível. E homenageia o filho adolescente, seu eterno menino, com a delicadeza de “Gabriel”, música de Beto Guedes e Ronaldo Bastos. E tudo ali soa comovente.

Até porque Gal avança direto para “Mãe”, a triste canção que Caetano compôs durante seu exílio em Londres, embebida em melancolia. “Açaí”, de Djavan, comprova seu poder de fogo e reacende a plateia, que a devolve a Gal ainda mais alta do que a recebeu.

A intérprete, agora, se sente confiante para se entregar à fossa de “Nada Mais”, versão de sucesso para estandarte norte-americano, feita por Ronaldo Bastos: “Vão dizer que são tolices/ Que podemos ser felizes/ Mas tudo que eu sei/ Não dá pra disfarçar/ Dessa vez doeu demais”.

O esforço é tanto que prejudica a energia necessária para arrebatar com “Maria, Maria”. Antes, porém, a suavidade dita o tom na otimista “Sorte”, e na sensual “Lua de Mel”, bolero à moda de Lulu Santos: “Ma-ma-mamãe eu tô em lua de mel/ Eu tô morando num pedaço do céu/ Como o diabo gosta”, perfeita para um período careta e em que o amor parece mais perigoso do que as ações de ódio. Ao retornar para o bis, Gal expressa com as mãos o seu apoio à candidatura do ex-presidente Lula, e encerra seu espetáculo com “Brasil”, de Cazuza, toda atual.

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