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Educação financeira é desafio para pessoas acima dos 50 anos que buscam um diploma superior

Democratizar o acesso ao ensino é um dos principais desafios de países em desenvolvimento

Idoso lendo um livro

Idoso lendo um livro

Agência Brasil/Arquivo

Já ouviu falar em educação financeira? “Não sei responder essa não.”

Educar é, em resumo, o ato de transferir conhecimento para promover transformação. Pelos livros, na internet, dentro das salas de aula ou de geração em geração. Não importa o meio, nem a ferramenta, e sim o alcance e a capacidade de oferecer oportunidades.

Para parte das gerações mais antigas, equilibrar as contas ainda é um desafio diário, quase instintivo e nem sempre possível. Organizar e planejar o orçamento são ações - como muitos dizem: aprendidas na “marra”, no “sufoco”, nunca fizeram parte das disciplinas abordadas na sala de aula.

Democratizar o acesso ao ensino é um dos principais desafios de países em desenvolvimento, como o Brasil. Entre especialistas no tema, há um discurso comum: é preciso “desengravatar” o conhecimento para quebrar um ciclo de desigualdade social e disponibilizar a chance de mais gente ter escolhas e poder mudar de vida.

A advogada Marina Santos, de 64 anos, relata que só pode ter algum controle sobre o futuro depois de muito tempo. “Quando eu tinha 7 anos, o meu pai – que era o provedor da casa, faleceu. Nessa época, eu comecei a trabalhar de empregada doméstica para a professora que me deu a 4ª série. O tempo foi passando. Foi só em 2014, que entrei em uma faculdade”, relata.

Entre o discurso e a prática ainda existe um abismo gigante no Brasil. E a construção da ponte que une esses dois lugares avança lentamente, até porque, nossos alicerces são muito frágeis.

Educação Básica ainda é gargalo

Hoje, quase 10 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais não sabem ler, nem escrever. Esse número corresponde a 5,6% da população, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua coletada em 2022 e divulgada neste ano pelo IBGE.

Na fila de um mutirão de renegociação de dívidas promovido pela Serasa, em Belo Horizonte, encontramos muitas pessoas e muitas histórias: um retrato desse Brasil:

“Meu nome é Victor e sou porteiro noturno. Eu vim aqui renegociar minha dívida. Me atrapalhei na conta. Agora, preciso de um cartão de crédito, mas não foi liberado. A gente acaba não dormindo bem com essa dívida. Eu só quero renegociar”, desabafa o trabalhador.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico afirma que a alfabetização financeira deveria ser obrigatória nas escolas. Mas por aqui, não é. Foi somente em 2010 que o Brasil decidiu implementar a Estratégia Nacional de Educação Financeira como parte das ações de inclusão social no país... um impulso ainda muito franco.

Segundo o mapa da inadimplência do Serasa, divulgado em setembro deste ano, as faixas etárias com as maiores fatias da população com nome negativado são de 41 a 60, representando quase 35%. Os idosos representam 18,4%.

O cenário é um retrato do alto grau de endividamento de um país que não tem a cultura do controle de contas, nem que seja básico, como detalha o gerente da Serasa, Thiago Castro. “O mais importante é controlar as finanças mensais, seja num caderno ou numa planilha. No caderno, anotar em uma folha tudo que recebe, tudo que gasta, para cumprir uma regra de ouro que é: não gastar mais do que recebe no final do mês. Pode parecer simples, mas a Serasa fez uma pesquisa que mostrou que 40% dos entrevistados não fazem nenhum tipo de controle”.

Sonhos parcelados, mas possíveis

Sem dinheiro, mas com um sonho: ter acesso ao ensino superior. O microempreendedor Joaquim Pires de Figueiredo, de 57 anos, precisou adiar o plano até conseguir organizar o orçamento. “Aquele sonho de fazer faculdade era distante da minha realidade financeira. Eu morava a 180 km da mais próxima. Aí percebi que precisava mais um tempo”, relembra o estudante.

O desejo de ter um diploma do ensino superior envolveu algumas renúncias durante os 15 anos em que morou nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, Joaquim está no terceiro período do curso de Direito e sabe que foi o controle das contas que possibilitou o despertar de um sonho adormecido por quase 30 anos. “Tem um momento marcante para mim, foi quando fiz o primeiro investimento das economias da América. Eu comprei um apartamento em frente à faculdade. Esse era o meu objetivo e eu consegui. Estou muito feliz e agora quero trabalhar na área, não quero deixar meu diploma na parede”.

Assim como o Joaquim, são muitos os brasileiros que decidem entrar na faculdade depois de construírem uma vida inteira.

Segundo o último Censo da Educação Superior, realizado pelo MEC, em 2021 quase 600 mil pessoas com mais de 40 anos estavam matriculadas em um curso superior no país. Em relação à última década, esse número representa um crescimento acima de 170%.

O desafio financeiro deste público ao encarar uma jornada na universidade é maior, sim, como expõe o Consultor e Professor da Fundação Getúlio Vargas em Estratégia de Negócios, Vinícius Souza. “No caso de uma pessoa na maturidade isso é um movimento mais inovador, que não ocorre naturalmente. É preciso conhecer a realidade da casa, fazer o planejamento, um pé de meia para os estudos, lembrando das obrigações que já existem no orçamento da família”, explica o professor.

Sempre há tempo para estudar

“Quando eu tinha 7 anos, meu pai falecei. Nós morávamos num sítio, por volta de 1967. Quando eu terminei a 4ª série, minha mãe não tinha dinheiro para pagar a passagem do ônibus que levava as crianças para cidade. Então, eu trabalhei de emprega doméstica para a minha professora do primário. Eu tenho muito orgulho de mim. O tempo passou, eu entrei na faculdade e consegui passar no exame da ordem. Com a minha carteira na mão, muitas portas se abriram”.

Essa é parte da história da Marina Santos, mulher negra, de 64 anos, filha de doméstica e órfã de pai ainda na infância. Ela rompeu um ciclo de invisibilidade e contrariou as estatísticas. Começava, ali, uma jornada de 12 anos rumo ao diploma de curso superior, em uma faculdade de Bauru, no interior de São Paulo.

Marina sonhou, mas com os pés no chão e calculadora nas mãos. Esse é um dos pilares para quem tem mais de 50 anos e ainda busca novas conquistas na vida, como um diploma de curso superior. o que recomenda o vice-presidente de Marketing, Clientes e Crédito do Banco Mercantil, Bruno Simão. Ele deixa claro o conceito de planejamento. “Eu acredito que educação financeira é uma das coisass mais importantes da vida moderna. É importante saber planejar, saber quanto gastar, não só para hoje, mas principalmente para o amanhã. O erro mais comum é entender que o sonho precisa considerar os imprevistos.

A perpetuação dessa consciência financeira na sociedade é um desafio que exige políticas de longo prazo. Mas, existem ferramentas aceleradoras. Quando gerações se encontram, esse conhecimento vira potência. Naiane Loureiro dos Santos é Gerente de Extensão e Inovação Social do Instituto Ânima, que atua na área da educação superior. Ela é uma das responsáveis por um projeto que abre as portas da universidade para o público 60+.

Segundo ela, “a sociedade pertence a todas as gerações. Uma sociedade sustentável precisa de intergeracionalidade. Frequentar cursos em um ambiente acadêmico contribui para autoestima e troca de experiência. Com certeza é possível planejar e sonhar depois dos 60. Sonhar é o que nos move”.

Na juventude, o então estudante de medicina Jorge Veloso Correia, contou com o apoio dos pais para realizar o sonho de ser médico e aprendeu que sem as contas em dia, não seria possível. “Meus pais sempre me falavam dos meus privilégios, mas sempre os via economizar, fazer adequações no orçamento”.

Hoje, aos 62 anos e com a vida financeira estabilizada, Jorge está matriculado no segundo período de psicologia. Agora, com uma pressão bem menor que a vivida nos tempos de medicina na Universidade Federal de Minas, quando subia os primeiros degraus rumo à uma carreira de décadas e à independência financeira.

A sonorização da reportagem é de Thiago Castro.

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