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Do hospital ao transporte público: entenda as origens da violência sexual contra mulheres

A Itatiaia publica, nesta segunda (18), o primeiro capítulo da série especial sobre a cultura do estupro

De janeiro a maio deste ano, foram registrados 65 crimes contra a dignidade sexual dentro das unidades de saúde de Mina

No necrotério. Depois de mortas. Com meses de vida. Na infância. Na pré adolescência. Adultas. Idosas. No parto. Nas clínicas psiquiátricas. Nas consultas médicas de qualquer especialidade. Pelo Pai. Pelo padrasto, pelo avô, pelo tio, pelo professor, pelo médium, pelo primo, pelo irmão. Nem todo homem, mas sempre um homem”.

Esse texto viralizou nas redes sociais nos últimos dias, após o anestesista Giovanni Quintella Bezerra ser preso por estuprar mulher que passava por cesárea no Rio de Janeiro. Pensando nisso, quando uma mulher está segura? Nunca. Por que não? A Itatiaia publica, a partir de hoje, o primeiro capítulo da série especial sobre a cultura do estupro.

“A cultura do estupro fala muito mais de uma cultura do machismo. A nossa construção social brasileira permite entender que os homens têm prerrogativas sobre o corpo da mulher. Quando a gente coloca desta maneira, sobre essa prerrogativa do corpo da mulher, a gente fala de uma dominação, predominantemente masculina, que entende que a mulher é posse e responsabilidade desses homens dentro da nossa sociedade. Quando a gente coloca dessa maneira dentro dessa perspectiva, a da responsabilidade de achar que os homens são donos dos corpos das mulheres, eles também acham que podem dispor desse corpo da maneira que melhor prover”, explica a socióloga Andreia dos Santos - Professora do departamento de Ciências Sociais PUC Minas.

A especialista ainda aponta que o homem se sente ofendido se a mulher usa uma roupa supostamente sedutora. “Ele se sente ofendido e isso dá a liberdade a ele não apenas de tocar o corpo dessa mulher como também de fazer gracejos ou de utilizar de palavras é chulas pra se referir ao padrão de comportamento dessa mulher dentro dessa lógica é que a gente chama de cultura do estupro”, completou.

Enquanto essa é a nossa realidade, tem abuso em casa. Tem abuso na rua de casa. No ônibus. No carro de aplicativo. Na creche. Na escola. Na internet. Tem abuso no trabalho. No namoro. No casamento. Na igreja. Na boate. Na academia. No estádio. No hospital. No tratamento para engravidar. No parto! Sim, tem abuso sexual no parto.

Na unidade de saúde

Conforme dados divulgados pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), de janeiro a maio deste ano, foram registrados 65 crimes contra a dignidade sexual dentro das unidades de saúde de Minas, 10 foram de estupros, 7 deles contra vulneráveis.

E os órgãos de segurança pública acreditam que os números são subnotificados. Além da vergonha e medo, muitas vítimas sequer tomam conhecimento de que sofreram abuso. Em algumas situações é preciso que alguma testemunha faça a denúncia, como foi o caso que estamos acompanhando no Rio de Janeiro envolvendo um anestesista.

“Dos crimes contra a dignidade sexual, o mais conhecido é o estupro. São crimes em que todo mundo pensa que tem a ameaça ou coerção, mas no caso desse médico, supostamente, ele está sendo acusado pelo estupro de vulnerável - que é quando a vítima ela não tem consciência ou não tem resistência, por bebida ou por sedativo. Então, (é importante) entender que não é somente a coerção usada contra a vítima. A vítima tem que entender que se ela se sentiu, ela tem comparecer à delegacia para que a autoridade possa dar o encaminhamento devido na investigação”, disse a delegada Cristiana Angelina, da Delegacia Especializada de Investigação à Violência Sexual de Belo Horizonte.

No transporte público

Para encorajar as vítimas a denunciarem, em Belo Horizonte, a Guarda Civil Municipal faz recorrentes ações em estações de ônibus.

“Desde 2018, nós promovemos uma campanha educativa para incentivar essas mulheres a levarem ao conhecimento das autoridades policiais por violência sofrida. É muito importante para a gente reduzir essa subnotificação que, infelizmente, nós sabemos que é muito grande. A própria sociedade julga as mulheres, que se sentem culpadas”, explicou a Guarda Civil Municipal de Belo Horizonte, Aline Oliveira.

Mesmo com grande movimentação de pessoas, muitos abusadores agem nos ônibus. Alguns foram pegos se masturbando no coletivo. “A primeira ocorrência de importunação sexual registrada pela guarda, com o uso do botão do assédio, foi na linha 3051 depois que um senhor se masturbou dentro do coletivo para uma senhora de 62 anos. Quando ele foi abordado, ele disse que tinha saído atrasado, tinha esquecido de vestir a peça íntima e que esqueceu de fechar o fecho da calça e que ela estava equivocada”, explicou.

Nos últimos 4 anos a Guarda Municipal já atuou em 95 ocorrências de importunação que resultaram na condução dos abusadores à Delegacia de Mulheres. Já o botão do assédio foi acionado 71 vezes, tendo 15 dos acionamentos ocorrido em linhas que circulavam no hipercentro da capital. Todos os acusados de importunação sexual conduzidos à delegacia são do sexo masculino, a maioria tem entre 41 e 49 anos.

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