Páscoa: até aos ateus
A Páscoa é a expressão - o convite - a um amor criativo, a partir da grande vulnerabilidade, da impotência a que estamos submetidos quando nos arriscamos a amar

O aspecto da passagem é uma das dimensões mais belas do judaico-cristianismo. A fé, em chave bíblica, sempre desinstala. “Sai”, diz Deus a Abrão: sai da tua terra, da tua parentela, da casa do teu pai. Os relatos das Escrituras, ecoando e aprofundando a arte da vida, indicam que sair de si, das próprias coisas, é uma exigência espiritual e humana.
Há pessoas, por exemplo, que passam a vida e mais um pouco devedoras de laços, sejam eles bons ou ruins. Uma coisa é cultivar memórias, saber-se grato, obrigado a retribuir o amor dos pais. Outra, bem diferente, é estar fechado a fazer travessias, deixando para trás o ressentimento do afeto que nos faltou, resistindo em fazer a travessia da angústia, dos laços e presenças que não existem mais.
A passagem é exigência tão necessária que o próprio Deus, sendo grande e infinito, escolheu experimentar. Claro, dirá a teologia clássica: “veio por conta de nossos pecados”, “veio para pagar a dívida que pesava sobre nós” (Cl 2,14), mas podemos pensar: veio também porque não há amor sem Páscoa, sem passagem.
Em Jesus, o divino, cujo amor é eterno, abre-se ao equívoco, à traição, ao abandono, à morte. Quem seremos nós para querer um amor idealizado, conservado?
A Páscoa é a expressão - o convite - a um amor criativo, a partir da grande vulnerabilidade, da impotência a que estamos submetidos quando nos arriscamos a amar. Foi assim com Deus! Jesus fez milagres, mas não conseguiu impedir que Judas deixasse de ser corrupto. Pregou uma subversão na lógica dos cultos vazios, terminou sufocado pela hipocrisia dos ritos (religiosos e políticos). Foi rejeitado pelos seus... (Jo 1,11).
E o que faz? Qual a força de convencimento dessa sua travessia - Páscoa, passagem - aos abismos da existência humana? A ressurreição! Que, em sentido teológico, é a grande promessa de que a morte não tem a palavra final sobre a vida.
A ressurreição é um fato denso e concreto que dá à história humana um sentido novo e um rumo decisivo. É da ordem da física que, na natureza, nada se perca ou se crie, tudo se transforme. É da ordem da fé que a alma não seja deteriorável, embora mude sua forma de presença.
Até mesmo a quem não crê, a passagem (Páscoa) de Cristo deixa ensinamento. Nos termos de Sartre, em seu ferrenho ateísmo: “não importa o que fizeram de mim, importa o que faço do que fizeram de mim”. Jesus fez algo do que lhe fizeram. Não há dúvidas: a humanidade se torna outra a partir dos ensinamentos, da prática, da justiça e do amor apresentados por Jesus Cristo. Ninguém pode ser-lhe indiferente. Ainda que não se queira, ou que não se saiba, há algo da Páscoa de Jesus onde se experimenta o respeito e se luta pela dignidade da criatura humana.
A ressurreição de Jesus, lançando mão do pensamento de Dom Hélder Câmara, ilumina nossas passagens. Na vida, lembrava nosso místico e poeta: devemos ser como a cana, que, mesmo esmagada e triturada, oferece açúcar.
Esta é, para cristãos ou não, a grande lição da Páscoa: mesmo em meio a dores, sofrimentos, injúrias, partidas ou mesmo à morte, não há desculpas para o ressentimento, para resistir às travessias ou seguir na direção errada...
Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
