Itatiaia

Jornalistas vão para o inferno? 

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Padre Samuel Fidelis • Padre Samuel Fidelis/Arquivo pessoal

Com a eleição às vésperas, as redes sociais foram inundadas pelo debate sobre o “voto cristão”. Algo paradoxalmente estranho, mas previsível. Para afundar ainda mais o debate eleitoral no abismo dos afetos, nada como associar mais fortemente as duas alas majoritárias da eleição presidencial àquela antiga rixa entre católicos e evangélicos.

O ponto catalisador foi uma fala que circula por aí sobre um “projeto de lei” mobilizado por evangélicos para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Bom. O pano de fundo é meio óbvio. Dados de pesquisas mostram que, entre 2002 e 2018, o voto de católicos e evangélicos era muito parecido. Em ambos os segmentos, em 2018, houve uma queda dos votos destinados ao candidato do PT. Em 2022, houve uma retomada de votos dos católicos em Lula, mas não dos evangélicos.

A realidade por detrás do fenômeno dispensa explicações. Houve uma perda de tração do PT em decorrência do desgaste diante da opinião pública; a ausência de Lula - cujo apelo é maior do que o do partido - no pleito de 2018; além, é claro, da relação imbricada de políticos com as lideranças evangélicas. Em 2022, os efeitos da gestão Bolsonaro na pandemia, bem como a percepção acerca dos rumos de seu mandato, desaguaram no resultado do pleito.

Chama a atenção, todavia, o cenário que agora propicia esse debate. Parece que dois fenômenos precisam ser nomeados, na busca por menos emoção e mais razão.

Está evidente, já que os números não mentem, nem os Stories do Instagram, que o bolsonarismo, em sua pauta de costumes, encontra grande aderência entre boa parte dos evangélicos. Em um cenário de incertezas econômicas e de insegurança, a teologia da prosperidade, diante da percepção de falência do projeto da socialdemocracia, bem como a ênfase numa teologia do domínio - isto é, em um Deus guerreiro e forte como garante da nação e da vida do povo -, servem de caldo de cultura. Para além de qualquer violência das verdades presumidas, fica muito claro que o evangelismo oferece uma gramática de sentido para diversos dramas e inseguranças contemporâneas. Enquanto festivamente se fala de soberania, a mãe de família está preocupada com o orçamento do mês e com os riscos aos quais está submetida com seus filhos no trajeto de casa à escola.

O erro de premissa é negar esse fenômeno na expectativa de que ele suma. Ou, pior, atribuir-lhe de imediato a alcunha de “cooptação” das massas. Parece que isso gerou até, numa grande rede de TV, mais um constrangimento: ressuscitar essa notícia antiga sobre a querela do feriado de Nossa Senhora Aparecida. É preciso estar muito atento quando os fatos se distorcem pelas antipatias. O noticiário que acusa o “tio do zap” de cair em fake news por viés de confirmação corre grande risco de cometer o mesmo erro, com o “álibi” do sacrossanto dever democrático e redentor da redação jornalística.

Ademais, não podemos ser cínicos a ponto de não reconhecer que, ao seu modo, também o PT é fruto do sonho messiânico das comunidades eclesiais de base. Antes de ganhar nas urnas, o discurso progressista criou capilaridade na Igreja Católica por meio das lideranças, das CEBs, dos “fatos da vida” na liturgia. E penso que não se deve ver nada de errado nisso. Pelo menos não do ponto de vista político. Atire a primeira pedra quem, em algum momento da vida, não se viu encantado pela poesia ou pela denúncia das utopias.

O objetivo de nossa coluna não é passar pano para ninguém. Esperamos que aqui o leitor não se perca pelos afetos. Trata-se de uma análise. Em primeiro lugar, para refletir sobre os riscos de quando o jornalismo deixa de oferecer a melhor versão do fato e passa a entregar aquela que mais lhe apaixona. O foco em “dividir” desgastes atrapalha a percepção dos fatos. Talvez seja bom assumir, com certo cinismo, o que é muito bem resolvido no marketing. A diferença entre o jornalista e o marqueteiro é que ambos sabem que têm motivos, em suas profissões, para “ir para o inferno”; só que o marqueteiro já sabe disso.

De igual modo, é claro que há algo de muito problemático quando a religião se mistura com a política ou é cooptada por ela. O voto pertence aos indivíduos, e estes, inevitavelmente, decidem a partir de suas inclinações morais. Mas há algo de problemático e anticristão quando o púlpito se converte em palanque. Por melhor e mais engomado que pareça um político, ou por mais generoso que aparente ser um governo, olhando de perto, talvez haja menos afinidade com Deus do que com o diabo, que é um especialista em se travestir de anjo de luz.

O momento pede serenidade. O desalento diante do cenário obscuro, a pretensão de pertencer ao grupo de régua política mais elevada e o fetiche do “iluminismo”, nesta hora, não ajudam. Nada corrompe mais devastadoramente a alma do que a presunção da bondade e da verdade. A oração do “justo” é menos sobre os próprios méritos e mais sobre: “Senhor, fazei-me bom. E que, de preferência, eu não saiba e veja.”

Por

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

 

 

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