Perdoa traição?

Durante a semana, uma palavra forte despontou na mídia: traição. Seja na vida da atriz famosa, seja no campo da política, isto é, no âmbito das relações humanas, a traição é uma das experiências mais traumáticas e emblemáticas da existência. Sim, pois só os seres humanos traem, precisamente porque só a nós é dada a capacidade de prometer. Um animal pode abandonar; apenas um homem pode romper uma palavra.
Toda traição é traumática porque relacionamento é acordo. Seja na política, seja à mesa ou na cama, esperamos que a pessoa com quem nos relacionamos seja, de algum modo, recíproca nos direitos e nos deveres. Todo mundo sabe, lá no fundo, que nenhum de nós é capaz de ser tudo para o outro. Na cama ou na política, todos comparecemos com meias verdades. A questão é sempre sobre alianças, benefícios, interesses e conveniências. O fato, todavia, é que a amálgama das relações humanas continua sendo os acordos.
O que torna a traição tão devastadora é que ela revela, na raiz, a ausência das verdadeiras intenções do outro. Quem é traído se vê lançado na decadência mais profunda do que há de mais sagrado nas relações íntimas: a confiança. É claro que, em qualquer relação, nunca somos suficientes. Estar com alguém não nos torna imunes a desejos, encantamentos ou flertes. O ponto injustificável da traição, porém, não é esse. O injustificável é que ela revela um utilitarismo que, por si só, denuncia a ausência do vínculo. Quem trai diz, mesmo "sem querer querendo", que deixou de enxergar o outro como parte constitutiva da relação. Na traição, o "eu" sequestra o lugar do nós; o conveniente ocupa o lugar do verdadeiro; o bom "para mim" passa por cima do bem.
Traições são sempre injustificáveis, ponto. Até mesmo no Inferno de Dante, o círculo mais profundo e mais escuro é reservado aos traidores. Ali estão Judas e Brutus, homens que perverteram justamente os sinais da amizade e da confiança. O Iscariotes transforma um beijo — talvez o gesto mais eloquente do afeto humano — num signo definitivo da traição.
Afirmar a gravidade da traição, contudo, não significa afirmar a impossibilidade do perdão. Ao contrário. Talvez seja justamente por isso que toda traição se torne, na vida de qualquer um de nós, um momento decisivo.
Curiosamente, a própria etimologia da palavra aponta uma fresta de esperança. Traição deriva do latim tradere, verbo que significa entregar. É dele que nasce tanto a ideia daquele que entrega o outro à própria sorte quanto a daquele que oferece aquilo que possui. A mesma palavra abriga a ferida e a possibilidade da cura. Se a traição nasce de uma entrega pervertida, a reconstrução passa pela fidelidade a si mesmo, dando-se de modo verdadeiro.
Qualquer relação amorosa envolve entregas; mais do que isso, arrisca-se a elas. Esse é o risco inevitável do amor. O sentido da vida não está no prazer, nem na felicidade, tampouco no controle, mas na nossa capacidade de doar, entregar e transbordar. Toda entrega exige confiança: oferecemos ao outro aquilo que temos, sabendo que ele responderá apenas com aquilo que é capaz de entregar. E é importante permanecer lúcido diante de um fato: aquilo que o outro entrega diz respeito, antes de tudo, ao universo interior dele. Pode não ser o melhor. E isso fala muito mais dele do que de nós.
O que nos cabe, em qualquer relação, é fazer das entregas da vida, ainda que atravessadas pela dor, o sumo doce do que há de melhor. Às vezes, como lembrava Dom Hélder Câmara, a vida nos pede que sejamos como a cana: mesmo triturada, mesmo moída, continua oferecendo doçura.
Claro, há traições que impõem a uma relação um caráter irreparável. O outro não pode ser reduzido ao pior instante de sua história; cabe, todavia, a mim decidir se lhe permito assinar um novo acordo. Não faz bem viver de luto por um amor que se ausentou. Perdoar faz bem, antes de tudo, a quem perdoa. E que fique claro: isso não tem, absolutamente, nada a ver com a obrigação de manter o contrato!
Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.



