Os erros do tradicionalismo

Nossas colunas são, além de reflexões filosóficas, crônicas. Em cada texto, a experiência do cotidiano é terreno do óbvio. Isso porque, via de regra, o óbvio tem a paradoxal capacidade de passar despercebido. A gente costuma, aqui, "falar mal" dos outros. Hoje é dia de uma sincera autocrítica. O tema é a Igreja Católica.
O Papa-Leão teve que rugir de novo. Agora, não diante do circo de Nero, mas como alerta às próprias crias. Depois de recordar que ordenar bispos sem mandato de Roma significa romper a comunhão com a Igreja Católica, fez-se mais um rasgo na túnica inconsútil de Cristo (Jo 19,23).
Que ironia. Um movimento ultraconservador rompendo justamente com o Papa, que, para os católicos, tem por missão confirmar os irmãos na fé. Esse é o típico barraco de família. Quem de nós já não foi surpreendido por uma foto, um print ou um vídeo que nos fez pensar: é... realmente a coisa vem de onde menos se espera.
Essa tensão com setores tradicionalistas é antiga. Há, dentro da Igreja Católica, uma resistência, à semelhança de uma doença autoimune, segundo a qual toda abertura da fé ao diálogo significaria perda de princípios e de valores tradicionais.
Bom, é preciso, em parte, dar ganho de causa aos tradicionalistas. Estamos nós com Narciso ferido, metidos em cheio nas confusões que a modernidade expõe. É nítido que o pós-Concílio lançou a Igreja em muitas incertezas; basta lembrar o esvaziamento de conventos e seminários, as crises de identidade e os desafios pastorais que se seguiram. A questão é que o reconhecimento de um sintoma não constitui, necessariamente, a cura. Até porque o apego ao passado, o retorno às "fórmulas", também pode fazer parte da própria doença.
O que aconteceu na Igreja deve servir de exemplo para a vida. Os problemas não desaparecem quando a gente os ignora. Há um niilismo e um relativismo ocultos em quem não entende - na Igreja e na vida - que "a tradição não é a custódia das cinzas, mas a garantia do fogo" (Mahler).
O Concílio, negado pelos tradicionalistas, foi um assopro na poeira da Igreja. Seu dinamismo e sua criatividade devem ser lidos no esteio da grande história do cristianismo, que sempre foi mestre em se reinventar.
Espanta muito - é de uma inocência quase comovente - imaginar que a Igreja deva ser refém do latim, das vestes ou dos ritos. Jesus não anunciou o Evangelho em latim; suas línguas eram o aramaico e o hebraico. O latim foi legado ao mundo pelo Império que matou Jesus. Antes de ser a língua dos "guardiões" da missa tridentina, foi a língua vulgar do Império; não por acaso, a primeira grande tradução latina da Bíblia recebeu o nome de Vulgata. Os que desafiam o Papa Leão, supondo ser ele mais um representante do chamado modernismo, trajam uma mitra - de origem persa - e uma casula que, antes de ser grife da Gammarelli, era a veste pública do Senado Romano e de autoridades como Pilatos, que condenou Cristo à cruz.
O problema não é a tradição. Aliás, ela é parte da solução. Ser humano significa comparecer diante de um legado e responsabilizar-se por sua transmissão. O problema maior é a falta de senso de orientação histórica. Só alguém em estado de devaneio é capaz de olhar para uma instituição como a Igreja Católica e ignorar o fato óbvio e ululante de que ela é, desde a sua origem, uma extraordinária capacidade de assimilação de culturas, modelos e símbolos que a antecederam.
Como alguém é capaz de dizer que a Igreja é romana, que deve ser fiel ao "passado", desconsiderando que fizemos do mesmo mármore de Carrara que esculpiu Rômulo e Remo as imagens de Pedro e Paulo? Como ignorar que os romanos compreenderam Jesus também porque Santo Ambrósio, Santo Agostinho e tantos outros souberam dialogar com Platão, e Sócrates?
É certo que há algo de confuso na relativização contemporânea. É certo que a Igreja Católica, como qualquer instituição, tem o direito e o dever de conservar seus dogmas. Outra coisa, bem diferente, é confundir tradição com saudosismo e negação da atualidade. Mede-se com uma régua os erros do modernismo. Dever-se-ia aplicar a mesma medida ao tradicionalismo. Quem diz que o modernismo produz descaracterização e heresias deveria ser igualmente sincero ao reconhecer que o tradicionalismo, quando absolutizado, pode tornar-se divisivo, orgulhoso e cismático.
Já está claro que a tsumani catalisada pelo relativismo moderno prometeu muito e entregou quase nada. É sandice, todavia, imaginar que a solução para os dramas contemporâneos passe pelo apego delirante a ritos, vestes e discursos.
Se, por um lado, a renúncia ao legado da cultura produz algumas sandices, convém lembrar que também dos excessos tradicionalistas surgiram clérigos desequilibrados, divisões internas e até um bispo, Richard Williamson, que chegou ao cúmulo de negar a Shoá (vulgo Holocausto).
Parafraseando Chesterton, convém, sob o rugido do Papa Leão, recordar que o maior problema não é deixar de acreditar no Papa, nem na importância da unidade e do diálogo. O problema é que, sem isso, os católicos acabam acreditando em qualquer coisa.
E, se observar, bem na política a confusão está "igualzim" ... Fora do diálogo e da lucidez não há salvação!
Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.



