Belo Horizonte
Itatiaia

Copa do muros

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Padre Samuel Fidelis • Padre Samuel Fidelis/Arquivo pessoal

Um dos aspectos mais curiosos, e também mais preocupantes, do nosso tempo é a ascensão dos nacionalismos. Não que os valores nacionais não mereçam ser cultivados. Pelo contrário. A ideia de Estado-nação é um dos grandes legados desse amplo processo de desenvolvimento humano que convencionamos chamar de modernidade. A nação é, de certo modo, a unidade histórica de um povo. Diz respeito à herança cultural, à memória compartilhada e ao tecido humano que confere identidade singular a uma coletividade.

O problema começa quando o amor à própria história se converte em hostilidade à história dos outros; quando o pertencimento deixa de ser vínculo e passa a ser exclusão. Claro, nosso assunto é a Copa. Já que ainda haverá muito tempo para discutir gols, traves, VAR e faltas, vale a pena olhar para uma polêmica que antecede o apito inicial. O que deveria ser uma celebração do encontro entre povos e culturas - cidades que, por alguns dias, tornam-se verdadeiramente globais - tem revelado também algumas das sombras do nosso tempo.

Divergências entre países(ou seriam interesses particulares de seus líderes?) têm servido de justificativa para restrições migratórias que atingem cidadãos de determinadas nações. Não está em questão, evidentemente, a legitimidade dos controles migratórios. Isso pertence ao âmbito da soberania, das instituições e das leis de cada país. Tampouco este texto pretende oferecer uma análise geopolítica. Afinal, se Trump já disse que o Papa não entende de geopolítica, quem dirá os padres. O que está em questão é algo mais profundo e sintomático: a erosão de valores como empatia, cortesia e solidariedade.

A internet e as novas tecnologias encurtaram distâncias geográficas, mas nem sempre ampliaram horizontes humanos. Vivemos um tempo de inseguranças econômicas, crises de pertencimento e disputas de narrativas. Contudo, nenhuma dessas circunstâncias pode servir de salvo-conduto para o enfraquecimento dos marcos civilizatórios que sustentam a convivência humana.

O ódio ao outro, que começa na mesa da família, quando já não conseguimos conversar com quem vota diferente, e se expande para a relação entre povos e nações, revela um preocupante empobrecimento da nossa capacidade de convivência. Prometeram-nos uma "aldeia global". Encontramo-nos, porém, em uma sucessão de guetos tribais. Nunca estivemos tão conectados. Raramente estivemos tão confinados. Cada grupo fala para si mesmo, consome apenas aquilo que confirma suas convicções e passa a enxergar o diferente não como interlocutor, mas como ameaça. Há quem esteja confundindo pertencimento com sufocamento da alteridade. E isso não acontece por acaso.

Como recorda o Papa Leão XIV em sua mais recente encíclica, a violência é uma resposta antiga para problemas antigos. Não por acaso, ele reconhece que, em alguns momentos da história, até mesmo a própria Igreja foi cúmplice dessa lógica. Quando faltam respostas para os desafios reais, busca-se um inimigo. Quando faltam soluções, fabricam-se culpados.

Por detrás do ódio ao diferente, ao estrangeiro, ao migrante ou ao adversário político, encontra-se uma velha tentação humana: transformar o ressentimento em força agregadora. O marketing político contemporâneo descobriu que o medo mobiliza mais rapidamente que a esperança. A promessa é de proteção. A oferta é de pertencimento. O preço costuma ser a exclusão.

Se o outro é percebido apenas como ameaça, deixa de ser pessoa. Torna-se obstáculo. E aquilo que é visto como obstáculo, mais cedo ou mais tarde, passa a ser considerado eliminável. Existe aí uma dinâmica quase sacrificial (um bode expiatório!). A violência dirigida ao estrangeiro anestesia nossa responsabilidade diante dos problemas que são propriamente nossos. Procuramos fora os culpados pelo que não conseguimos resolver dentro.

É precisamente contra essa tentação que a Escritura apresenta uma das passagens mais belas e atuais do Antigo Testamento. Em Dt 10,17-22, YHWH (o Senhor) recorda ao povo de Israel que: "o Senhor dos Senhores, o Deus grande, forte e terrível, não faz acepção de pessoas nem aceita suborno. Ao contrário: faz justiça ao órfão e à viúva, ama o migrante e lhe dá alimento e roupa". Por isso ordena:

"Amai o migrante, porque também vós fostes migrantes na terra do Egito."

Eis uma passagem bíblica muito atual. Uma nação não se mede apenas pela força de sua economia, pelo poder de suas armas ou pelo avanço de sua tecnologia. Sua verdadeira grandeza se revela na qualidade dos laços humanos que é capaz de tecer. Como esquecer que quase todos os povos carregam em sua história alguma experiência de deslocamento, refúgio, exílio ou migração? Como ignorar que muitas das grandes potências atuais foram construídas por sucessivas ondas de estrangeiros? (inclusive e sobretudo os EUA!).

O pertencimento de que necessitamos não nascerá do ódio. Como lembrava Dom Hélder Câmara, "o ódio não constrói nada". Antes de representar uma ameaça, o outro - com sua cultura, suas tradições, seus saberes e sua diversidade - pode ser precisamente aquilo que nos falta. Sua presença recorda que existem outros horizontes possíveis. Recorda que a salvação das sociedades não costuma vir da exclusão, mas do encontro. Talvez porque, no fundo, todos compartilhemos a mesma condição humana: órfãos de alguma coisa, peregrinos de alguma terra, estrangeiros em busca de um lugar onde possamos chamar alguém de irmão.

Oxalá esta Copa seja lembrada pelos gols. Mas também pela celebração, pelo encontro, pela paz, pela diversidade e pela capacidade de reconhecer, no rosto do outro, não uma ameaça, mas uma possibilidade.

Por

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.