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Coluna de João Vitor Xavier: uma breve reflexão sobre o Atlético

O torcedor precisa entender que não há mágica no futebol. O Atlético não será soberano no futebol brasileiro. Não terá a repetição de 2021 a cada ano

O ano era 2000. Começava minha carreira como estagiário na Rádio Itatiaia. Pela primeira vez pisava num centro de treinamento de um clube profissional. Ou quase isso.

Com o querido e saudoso Uara Elias Jorge, o Turquinho, famoso motorista e operador da Itatiaia, chegava ao que era o embrião da Cidade do Galo, em Vespasiano.

Tinha um campo e uma precaríssima sala de musculação. Havia muita lama e os carros importados dos jogadores do Atlético, que havia sido vice-campeão brasileiro meses antes ao perder a decisão para o Corinthians.

Uma Mercedes preta do atacante Guilherme e uma branca, do seu parceiro Marques, se destacavam.

Os jogadores saíam do treino e pegavam um mapa pra saber onde treinariam no dia seguinte. A atividade seria num campo de futebol amador, em Pedro Leopoldo. A média era de três meses de salários atrasados.

O Galo vendia parte do passe de alguns jogadores a um grupo supermercadista para pagar salários. Aliás, vendia e não entregava. O não cumprimento de vários acordos fez crescer a bola de neve das dívidas já naquela época.

Essa pendência com os supermercadistas, por exemplo, é paga até hoje após decisões judiciais contra o Galo. Mais de 20 anos depois os boletos ainda chegam. De lá pra cá, mais de duas décadas se passaram.

Pouco depois, vi o Atlético entrar em campo com Márcio Mexerica, Walker, Pietro e outras pérolas. Vi também com grandes times, como aquele que ganhou a América em 2013. Mas, em todos esses momentos, o Galo sofria com a mesma dificuldade financeira e com pouco planejamento. Os presidentes passavam e as contas ficavam.

Como em qualquer instituição, o Atlético seguiu sua vida com bons e maus momentos. O clube foi se ajeitando como podia. Houve tropeços, quedas e boas fases.

A Cidade do Galo foi colocada de pé por voluntários que fundaram o movimento “Amigos do Galo”. Paralelamente, o atleticano sempre esteve ao lado do clube: apoiando, ajudando e acreditando.

Hoje, o Atlético tem um dos melhores CTs do Brasil e está construindo uma das melhores arenas do país. No campo, tem um dos melhores elencos do Brasileirão.

O Galo vem de títulos importantes como o Campeonato Brasileiro, a Copa do Brasil, a Supercopa do Brasil e um tetracampeonato mineiro.

No âmbito administrativo, o clube estrutura o projeto de uma SAF e tenta sair do ciclo vicioso que tanto mal fez ao clube ao longo dessas décadas.

Mas o torcedor precisa entender que não há mágica no futebol. O Atlético não será soberano no futebol brasileiro. Não terá a repetição de 2021 a cada ano.

A cada vez que leio algumas manifestações na internet, penso: será que alguém acha que o Atlético tem obrigação de ganhar tudo que vai disputar? Será que alguém imagina que é fácil assumir o clube que ainda paga dívidas de 2000? Tudo será resolvido num estalar de dedos? Será que alguém acha que é possível pagar as contas dos últimos 20 anos, inclusive do time campeão da Libertadores, e ainda assim competir para ganhar tudo?

Sinceramente, acho que beira o piegas imaginar isso. E o torcedor que cria essa pressão joga contra o clube. O Atlético tem uma situação econômica duríssima. Só não entrou em colapso financeiro porque aqueles que o dirigem colocaram a mão no bolso. Pagaram, patrocinaram e avalizaram cerca de R$ 1,2 bilhão.

Quero só lembrar de um caso: quando o Cruzeiro teve um transfer ban imposto pela Fifa, abriu a Série B de 2020 com menos 6 pontos.

O Atlético teve seis situações idênticas ao rival Cruzeiro. E só não perdeu pontos porque os investidores colocaram a mão no bolso ou deram o seu aval no banco.

Aos que tanto criticam os 4Rs, vai um recado: estaria bem pior sem eles. Não tenho dúvidas disso.

Outro recado: ninguém faz mágica.

Hoje o Atlético tem dirigentes quem erram e acertam como todos os outros. Mas com uma diferença: os atuais colocaram a mão no bolso pra ajudar o clube. Enquanto no passado o clube tinha dirigente que usava o clube pra pagar despesas pessoais.

Qualquer reconstrução é difícil mesmo.

É só o torcedor colocar na balança e ver o que quer.

Está passando da hora de a torcida do Atlético entender que o clube não é o Real Madrid. Não vai ganhar tudo. Não vai ter o desempenho de 2021 todos os anos.

Por falar no Real Madrid, com todo dinheiro, não ganhou nada este ano.

O Manchester City levou 17 anos pra ganhar a Champions, mesmo nadando em dinheiro árabe.

O PSG, com bilhões do Catar, não chegou nem perto ainda…

Mas para o Atlético, alguns querem criar a narrativa que tudo é um fracasso.

O patamar do Atlético é dos melhores do Brasil. E talvez muito acima do que a realidade prática permitiria.

Ganhar é bom. Aliás, é ótimo. Mas muitas vezes traz uma desconexão com a realidade. E me preocupo muito com isso no caso do Galo.

Ganhar tudo em 2021 foi ótimo para o torcedor. Mas criou a sensação em alguns de que o Atlético viverá aquilo todo ano. Não vai! A torcida precisa ter paciência e senso de realidade.

Estar entre os cinco principais clubes do Brasil é o exato lugar possível para o Atlético. E com muita luta! O clube não nada em dinheiro. Os investidores não são xeques árabes. A torcida e a receita são bem menores que as de Flamengo e Palmeiras. As dívidas geradas por anos de gestões continuam sangrando o clube.

É preciso que o torcedor entenda a realidade. E essa realidade é dura, mas promissora. Pela organização que foi feita nos últimos anos, pela infraestrutura montada, em especial com a Arena MRV. E ainda pela perspectiva da SAF.

A estrada é longa. Mas se tiver paciência, o Atlético pode se sair melhor ali na frente.

Pois, daquele Atlético que conheci lá em 2000, só algumas dívidas sobraram. No mais, muita coisa mudou e para melhor.

Apresentador do programa Bastidores | Informações exclusivas e opiniões fortes sobre o Esporte
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