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A saga do envelhecimento

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A saga do envelhecimento • Inteligência artificial

Completar meio século de vida já traz, por si só, seus desafios. Algumas dores aparecem pelo corpo; ir ao médico significa receber um novo diagnóstico de doença; a pele e a musculatura tornam-se flácidas; os cabelos brancos prevalecem; as rugas insistem em ficar mais profundas; a ressaca vira quase uma doença e os quilos insistem em aumentar na balança a cada dia. Isso sem mencionar a menopausa e a andropausa.

Tudo bem! Há o lado positivo. Acumulamos experiências e certa maturidade; vemos os filhos tornarem-se adultos; escolhemos melhor as pessoas com quem queremos conviver.

Mas, ver nossos pais de 80 anos envelhecerem, definitivamente, não está sendo fácil. Ao fazer uma varredura da saúde dos idosos em minha família, encontro mais contratempos que júbilos. Quando converso com os amigos, a situação não parece ser muito diferente.

Diante disso, fico refletindo. O que será que temos que aprender com o avançar da longevidade conquistado pela tecnologia da Medicina? Será que esse ganho de anos, sem qualidade, faz algum sentido?

Entre meus parentes, especificamente pais e tios, há muitos desafios. Uma releitura, somente dos últimos 7 anos, traz os seguintes exemplos:

  1. Sofreu quatro pequenos AVCs em um ano e vive com medo de um novo episódio.
  2. Está no sexto ano de demência e sofre com a perda gradual de autonomia.

T.D. faleceu após uma trajetória de internações motivadas por complicações de saúde. Em um dos episódios, foi diagnosticada com três úlceras gastrointestinais, quadro decorrente do uso prolongado e excessivo de anti-inflamatórios para manejo de dores crônicas.

Após um AVC grave sofrido há quatro meses, P.P. permanece acamado, passando por um longo e delicado processo de cuidados.

T.G. lutou por seis meses contra uma doença rara que comprometeu subitamente sua mobilidade e funções fisiológicas. Durante a recuperação, sofreu complicações por infecções e comprometimento renal, não resistindo.

Um câncer agressivo de mama foi descoberto após a ocorrência de um desmaio. T.A. já estava com metástase cerebral e partiu em 3 meses.

T.P. vivenciou uma demência agressiva, com fraturas por quedas, emagrecimento extremo, até culminar em limitação para caminhar e se alimentar. Faleceu após 5 anos de doença.

Já T.P.A. teve AVC leve, mas convive com sequelas motoras.

Quais serão os propósitos de Deus com tudo isso? Seria esta uma oportunidade para retomarmos as reuniões familiares, tão frequentes e espontâneas décadas atrás? Só que, dessa vez, estaremos forçados a nos encontrar pela dor? Será que deixamos escapar algum aprendizado importante no curso da vida e, agora, ao vermos nossos pais adoecidos, nos é dada uma nova chance? Quem sabe seja uma oportunidade para aprendermos o "bem sofrer", sem nos colocarmos na posição de vítimas, revoltados ou raivosos diante dos grandes desafios?

Pensando bem, deve ser um alerta para pararmos de fumar, reduzir o uso de álcool, fazer mais atividade física e comer de uma forma saudável? Talvez, ainda, trabalhar nosso emocional; perdoar os que nos fizeram mal; contemplar mais a natureza; curtir o simples; não tentar controlar a vida? Quem sabe, para não sermos tão teimosos como nossos parentes idosos?

Não sei a resposta. Pode ser que seja um pouco de cada uma dessas coisas.

O que me traz alento é ver alguns idosos vencendo os 80 com saúde, vigor e alegria. Tenho visto mais no Instagram, confesso. Sigo algumas contas como Sitxty, saúde e terceira idade @_60_sixty, que me deixa bastante animada.

Vi também ótimos exemplos no documentário "Como Viver até os 100: Os Segredos das Zonas Azuis", baseado no trabalho do pesquisador Dan Buettner da National Geographic. O título explora as regiões do mundo onde as pessoas vivem por mais tempo e com melhor qualidade de vida, frequentemente ultrapassando um século de vida, e desvenda os hábitos que contribuem para essa longevidade.

Não posso deixar de refletir que devemos ser gratos pela oportunidade de ter nossos idosos ao nosso redor por tantos anos. Quantos perderam seus familiares queridos ainda jovens?

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Fabiana de Lemos é jornalista e médica. Membro da Sociedade Brasileira de Clínica Médica. Trabalhou no Caderno Gerais do Jornal Estado de Minas, de 1997 a 2003. Foi concursada da Prefeitura de Belo Horizonte e atuou como médica no SUS, de 2012 a 2018. Foi professora de Medicina pelo UniBH, até 2023. Atualmente, atende em consultório.