A inclusão em primeiro plano: o palco Culturando e o Brasil real na Festa do Peão de Barretos

Recentemente, quando estava navegando em uma rede social, me apareceu um digital influencer do meio da música sertaneja divulgando uma apresentação de um cantor autista na Festa do Peão de Barretos. Aquilo me emocionou e eu logo pensei que esse tema não poderia faltar aqui na minha coluna, pois, quem olha para a grandiosidade da Festa do Peão de Barretos por trás das telas da televisão e redes sociais, costuma enxergar apenas o brilho do circuito principal, os maiores cachês do sertanejo e as multidões na arena e acaba se esquecendo de falar sobre inclusão.
Que Barretos é uma festa gigante, ninguém questiona, mas, se o público apurar o ouvido com carinho e decidir caminhar pelo Parque do Peão sem pressa, vai perceber que uma parte importante desse evento pulsa em um canto muito especial: o Palco Culturando. Mantido em parceria com a Associação de Gestão Cultural no Estado de São Paulo (AGCIP), esse espaço prova que cultura de verdade não é apenas o que vende milhões de ingressos, mas aquilo que acolhe, inclui e dá voz a quem geralmente é invisível para os grandes holofotes.
Arte sem barreiras no coração da arena
Em 2026, com o tema "O Brasil se encontra aqui", o Palco Culturando reforçou ainda mais seu compromisso com o que costumo chamar de a verdadeira responsabilidade social, que transforma para melhor a vida das pessoas dando a elas protagonismo e oportunidades. O espaço, além de receber manifestações regionais de todos os cantos do país, reservou momentos de pura emoção e representatividade ao colocar a pessoa com deficiência (PcD) exatamente onde ela deve estar, no centro do espetáculo e visível para todos.
Somente na noite do dia 24 de agosto, oito atrações formadas por artistas com deficiência subiram ao palco e mostraram que o talento não enxerga limitações físicas ou sensoriais. As apresentações arrastaram o público com performances marcantes tais como as do Projetovariart e ARCOD Cia, Almas em Movimento e diversos talentos musicais com shows emocionantes dos cantores e instrumentistas Thiago Tadeu, Fernando Pavone, Cristian Siqueira, Marielle Legramandi e de Sérgio Guedes também chamado carinhosamente como A Voz de Ouro do Brasil.
Quando o público para diante do Palco Culturando e assiste por exemplo, a um artista cego, um dançarino em cadeira de rodas ou um cantor com deficiência intelectual dominar o microfone, o recado é direto: o capacitismo desmorona. Esse foi meu sentimento quando vi a publicação daquele digital influencer, perceber que a arte precisa chegar à todos, respeitar as diferenças e ser uma ferramenta de inclusão muito potente.
A responsabilidade social na prática
Eu já falei várias vezes por aqui, não é possível falar de responsabilidade social sem encarar a nossa função coletiva, que envolve o poder público, as empresas, organizadores de eventos e a própria sociedade civil. Criar um espaço como o Palco Culturando exige mais do que ceder um espaço; exige estrutura acessível, cuidado e sensibilidade da equipe responsável pela inclusão, e, acima de tudo, o reconhecimento de que o acesso à arte é um direito fundamental.
A Festa de Barretos, que historicamente tem a filantropia cravada em seu DNA através do apoio e arrecadação contínua para o Hospital de Amor, dá um passo maduro quando entende que o investimento no social precisa andar de mãos dadas com a diversidade e inclusão. Iniciativas assim nos fazem refletir sobre como o ambiente de entretenimento e a economia criativa podem e devem ser ferramentas transformadoras de desenvolvimento social e autonomia.
O nosso papel além do aplauso
Ver a diversidade ocupar o Palco Culturando na 71ª Festa do Peão de Barretos renova as minhas esperanças, mas também, lança uma provocação para o nosso dia a dia.
A inclusão não pode ser um evento isolado no calendário ou uma ação pontual para "cumprir tabela". Ela precisa fazer parte da cultura e rotina das nossas empresas, cidades e atitudes diárias. Deveríamos ter um “Palco Culturando” em todos os grandes eventos desse país, afinal, da mesma forma que temos artistas independentes e com deficiência ligados ao sertanejo precisando de espaço, temos outros que sabem e querem um espaço para mostrar sua cultura de rock, axé, música clássica, pagode, dentre outras vertentes culturais.
Fazer a nossa parte é sermos vigilantes, cobrarmos sempre por inclusão e principalmente, escolher, todos os dias, aplaudir o talento de todos.
Bruna Braga é jornalista, consultora em RSC e fundadora da Terceirolhar



