Seis homens e um destino: governar Minas Gerais
Uma análise sobre o debate da TV Globo

Faltam quatro dias para o primeiro turno e só na noite de ontem o eleitor mineiro pôde assistir, no mesmo palco, aos seis candidatos convidados pela TV Globo ao governo de Minas Gerais. Às 22h15 de terça-feira, Alexandre Kalil (PDT), Cleitinho Azevedo (Republicanos), Flávio Roscoe (PL), Gabriel Azevedo (MDB), Mateus Simões (PSD) e Patrus Ananias (PT) ficaram frente a frente, depois de uma campanha em que os debates anteriores não haviam conseguido reuni-los. O encontro permitiu ir além da propaganda eleitoral, das entrevistas individuais e até dos programas de governo e compreender a forma como o candidato pensa, argumenta, reage à pressão e sustenta suas ideias diante da contestação.
Há algumas semanas, examinei nesta mesma coluna os planos de governo apresentados pelas principais candidaturas ao Palácio Tiradentes. Esses documentos são necessários porque registram compromissos, permitem comparar prioridades e oferecem algum parâmetro para a cobrança futura, mas dizem pouco sobre quem será chamado a transformar aquelas páginas em decisões concretas. O bom governo não resulta apenas de um programa bem escrito. Bem governar exige recursos, conhecimento da máquina pública e competência técnica, além de prudência diante do imprevisto, capacidade de decisão, disposição para ouvir e temperamento no conflito.
Um debate televisivo não revela quem será um bom governador, nem três horas diante das câmeras poderiam funcionar como prova de capacidade administrativa. Permite, todavia, observar como o candidato reage a uma pergunta incômoda, se conhece o assunto sobre o qual fala, como recebe uma contestação e o que acontece quando perde parte do controle sobre a própria narrativa. A televisão comprime a complexidade de discussões que exigiriam horas, favorece as frases de efeito e transforma ofensas em cortes de grande circulação, mas existe uma distinção importante entre falar para uma câmera da própria campanha e responder a um adversário interessado em expor seus erros.
Numa sociedade cada vez mais mediatizada, a comunicação eficiente tornou-se decisiva tanto para vencer eleições quanto para exercer bem o poder. Grande parte dos mais de vinte milhões de mineiros não conhece os meandros da dívida consolidada, da renúncia tributária, da regulação do SUS ou das concessões rodoviárias. Cabe a quem pretende governar fazer assuntos dessa complexidade chegarem ao cidadão sem deformá-los. Falar com clareza é uma qualidade política. Transformar problemas difíceis em soluções simplórias é outra coisa. O caminho inverso também produz dificuldades: conhecimento técnico é indispensável, mas, comunicado como demonstração de superioridade, pode afastar justamente quem precisa ser convencido.
A Globo organizou o debate em quatro blocos. No primeiro, os temas eram definidos por sorteio. No segundo e no quarto, os candidatos escolhiam assunto e adversário. O terceiro deslocava a discussão para diferentes regiões de Minas Gerais. Havia ainda um banco de minutos que permitia administrar perguntas, respostas e novas intervenções, favorecendo quem compreendeu melhor a dinâmica. Segurança pública, feminicídio, educação, saúde, transporte metropolitano, dívida estadual, servidores, mineração, emprego e infraestrutura estavam entre os assuntos previstos. Os próprios candidatos levaram depois ao debate IPVA, incentivos fiscais, hospitais regionais, sistema prisional, desenvolvimento regional e relação com o governo federal.
Seria tentador transformar o dia seguinte ao debate em uma classificação de vencedores e derrotados. O comportamento eleitoral, porém, é mais complicado do que uma tabela de pontos. Os cientistas políticos norte-americanos Christopher H. Achen e Larry M. Bartels desenvolveram uma das críticas mais importantes a essa imagem em Democracy for Realists: Why Elections Do Not Produce Responsive Government, publicado pela Princeton University Press em 2016 e ainda sem edição em português. A partir de décadas de pesquisas, mostram a força das identidades sociais, das lealdades partidárias e das avaliações retrospectivas na formação do voto. Não sustentam que o eleitor seja simplesmente irracional, mas demonstram que memória, confiança, identificação, rejeição e pertencimento convivem com propostas e avaliações de governo no momento da escolha.
Cleitinho compreende com eficiência essa relação entre política e identificação. Sua força comunicacional decorre da sensação de proximidade que consegue produzir com parcelas expressivas do eleitorado. Fala como muita gente fala, recorre a situações cotidianas e reduz a distância que o vocabulário político costuma criar entre representante e representado. Adversários passaram parte da campanha confundindo essa informalidade com despreparo. Na Globo, encontraram um candidato que havia estudado os oponentes, recuperava declarações anteriores, acompanhava o que fora dito minutos antes e sabia para quem queria dirigir cada pergunta.
A discussão sobre o IPVA mostrou, ao mesmo tempo, a força e o limite dessa comunicação. Cleitinho defendeu a redução da alíquota mineira, alegando que Minas Gerais perde competitividade para Estados onde o tributo é menor, e apontou a revisão dos incentivos fiscais como parte da compensação. O raciocínio chega rapidamente ao eleitor. A administração pública acrescenta perguntas menos confortáveis: quanto o Estado deixaria de arrecadar, quais benefícios seriam revistos, quanto essa revisão recuperaria e qual seria a consequência para a parcela constitucionalmente destinada aos municípios? Roscoe fez essa cobrança.
Não é por acaso que o senador lidera com folga os levantamentos. A Quaest divulgada na terça-feira, registrou Cleitinho com 37% das intenções de voto, Patrus com 18% e Kalil com 9%. Pesquisa não determina resultado eleitoral, mas uma liderança mantida ao longo da campanha torna insuficiente qualquer explicação baseada apenas em redes sociais, sorte ou improviso. Existe uma comunicação eficiente e, sobretudo, uma capacidade de identificação que seus adversários subestimam por sua própria conta e risco.
O governador Mateus Simões fala a partir de outro lugar. A experiência no comando do Executivo estadual lhe dá familiaridade com dívida, contratos, infraestrutura e funcionamento administrativo, perceptível nos números, na rapidez das respostas e nas referências a negociações das quais participou. Na questão da dívida com a União, voltou a defender a utilização da negociação federativa para permitir que recursos associados ao pagamento retornem a Minas Gerais na forma de investimentos em rodovias, proposta que já apresentara antes do debate.
A maneira como comunica esse conhecimento diz muito sobre sua candidatura. Segurança, domínio dos assuntos e convicção podem transmitir preparo. O tom categórico, as ironias e determinadas respostas cortantes, por outro lado, podem ser recebidos como autoconfiança excessiva, arrogância ou pedantismo. Cada eleitor fará sua leitura. O fato é que Simões decidiu concentrar parte importante de sua ofensiva em Cleitinho, movimento compreensível para quem ocupa o governo, mas se encontra muito atrás do senador nas pesquisas. Técnica e experiência são atributos importantes. Converter gestão em confiança eleitoral é outro trabalho.
Patrus Ananias, aos 74 anos, é o decano dos seis candidatos e possui a mais longa trajetória política entre eles. Prefeito de Belo Horizonte, ministro, deputado federal e professor, costuma remeter ao patrimônio ético de sua vida pública e a uma compreensão de desenvolvimento vinculada à justiça social, às políticas públicas e à redução das desigualdades. Sua dificuldade no debate esteve menos nesses princípios, bastante conhecidos, do que em traduzi-los, sob pressão, em respostas concretas e convincentes.
Ao falar sobre as regiões mineiras, Patrus defendeu que o desenvolvimento parta das potencialidades de cada território e seja construído em parceria com prefeitos e prefeitas. A ideia possui coerência, mas o debate exigia o passo seguinte: desenvolver como? Quais cadeias produtivas, quais investimentos, quais instrumentos de crédito, quais prioridades e quais recursos? Seu programa contém respostas mais detalhadas, mas o confronto cobrou a passagem do princípio para a ação, e nem sempre Patrus conseguiu fazê-la no tempo disponível.
Fernando Pimentel continua consumindo um tempo precioso da campanha de Patrus. Cleitinho, Simões e Gabriel voltaram ao último governo petista, e Patrus repetiu que não é advogado do ex-governador e responde pela própria história. A distinção é legítima, mas não encerra a pergunta política: quais erros daquela administração ele reconhece e o que faria para impedir sua repetição? Patrus poderia ter utilizado a cobrança para estabelecer diferenças e apresentar o aprendizado que uma nova gestão petista retiraria daquela experiência. Preferiu, mais uma vez, separar as biografias, o que não é ilegítimo.
Alexandre Kalil valeu-se de características que o acompanham desde que entrou na política eleitoral: linguagem direta, confiança na própria experiência e pouca aversão ao confronto. Há dez anos, o empresário e ex-presidente do Atlético disputou a Prefeitura de Belo Horizonte com o slogan “Chega de político”, apresentando-se como alguém de fora da política tradicional. Venceu aquela eleição, foi reeleito em 2020, disputou o governo estadual em 2022 e agora enfrenta sua quarta eleição. Já não há espaço para a identidade de outsider, embora permaneça muito do estilo que o tornou conhecido.
Na Globo, a saúde foi um dos terrenos em que Kalil conseguiu vincular essa linguagem à experiência executiva. Ao discutir hospitais regionais, insistiu que uma obra não se confunde com um serviço em funcionamento. Hospital exige profissionais, equipamentos, custeio e integração à rede. Kalil enfrenta hoje um desafio bastante diferente daquele de 2016. O eleitor já conhece sua personalidade, seu modo de falar e sua disposição para o embate. A questão é saber o que a experiência acumulada significa para um projeto estadual novo, e não apenas para a memória de sua passagem pela Prefeitura de Belo Horizonte. Ademais, buscar um espaço no coração e nas mentes dos eleitores fora dos polos parece algo inviável nestes tempos.
Outro com o mesmo desafio em superar a polarização é ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte Gabriel Azevedo. No debate, explorou uma habilidade desenvolvida em seus dois mandatos como vereador da capital: indagar incisivamente, cobrar números e insistir quando considera que o interlocutor fugiu da resposta. O banco de minutos combinava com esse estilo. Gabriel pressionou Kalil sobre sistema prisional e segurança, voltou ao governo Pimentel ao confrontar Patrus e procurou testar o conhecimento específico dos adversários.
Sua candidatura não se resume, contudo, ao papel de fiscalizador. Gabriel colocou ferrovias e aprendizagem escolar entre as prioridades de seu programa, defendeu integração do transporte metropolitano e, no bloco regional, falou em “cidades-esponja” para prevenção de enchentes e em monitoramento independente da recuperação do Rio Doce. O desafio eleitoral consiste em fazer com que o projeto próprio seja tão lembrado quanto as perguntas dirigidas aos adversários.
Flávio Roscoe defendeu uma agenda econômica centrada na competitividade empresarial e nos incentivos fiscais. O ex-presidente da Fiemg sustentou que uma renúncia tributária não corresponde automaticamente a receita perdida, porque o benefício pode ser determinante para atrair um investimento que, de outra forma, seguiria para outro Estado. Citou Extrema como exemplo e se contrapôs frontalmente à ideia de utilizar uma redução ampla dos incentivos como fonte simples de recursos para outras políticas.
Roscoe também disputa abertamente uma identidade política. Declarou ser o único candidato efetivamente de direita entre os principais concorrentes e procurou diferenciar-se de Cleitinho e Simões nesse campo. A afirmação diz menos sobre uma classificação objetiva dos demais do que sobre o lugar eleitoral que o candidato do PL decidiu ocupar. Sua concepção de desenvolvimento está fortemente associada à liberdade econômica, à atração de investimentos e à expansão da atividade privada. Resta ao eleitor examinar como esse modelo responderia também às desigualdades regionais, aos serviços públicos e aos passivos sociais e ambientais de Minas Gerais.
A noite deixou as seis candidaturas mais nítidas. Cleitinho combinou identificação popular e comunicação direta com uma preparação que seus adversários por vezes lhe negam. O governador Mateus Simões demonstrou domínio da administração e uma forma de exercer autoridade que pode produzir leituras distintas. Patrus carregou sua história, sua experiência, seus princípios e, novamente, o peso de responder pelo último governo petista em Minas Gerais. Kalil voltou a ser o político de linguagem frontal que o eleitor conhece há uma década, agora obrigado a mostrar o que sua experiência acrescenta ao futuro. Gabriel levou para o palco a disposição fiscalizadora que marcou sua passagem pela Câmara, além do apreço pelo planejamento e pelo debate público. Roscoe afirmou tanto sua visão econômica quanto o campo ideológico no qual deseja ser reconhecido.
Nenhuma dessas características, isoladamente, definirá um bom governo. Comunicação não fecha contas públicas, técnica não produz legitimidade sozinha, experiência não impede erros, compromisso ético precisa transformar-se em ações concretas para melhorar a vida das pessoas e crescimento econômico não distribui automaticamente seus benefícios. Quem assumir Minas Gerais receberá um Estado diante de uma dívida gigantesca, dos efeitos da reforma tributária, de desigualdades territoriais persistentes, de problemas na infraestrutura, na saúde e na educação, do crime organizado, da violência contra as mulheres, das mudanças climáticas e de uma economia ainda profundamente marcada pela mineração.
No domingo, 16,3 milhões de mineiros e mineiras trocarão a condição de espectadores pela de eleitores. Votarão por razões diferentes, combinando avaliação de propostas, memória, identidade, confiança, esperança, rejeição e experiência.
Ontem, eram seis homens diante das câmeras, todos com o mesmo desejo: governar Minas Gerais. Ao fim do processo eleitoral, apenas um poderá transformá-lo em mandato. A escolha será dos mineiros.
Alisson Diego Batista Moraes é advogado, professor e filósofo. Mestre em Ciências Sociais, com especializações em Gestão Empresarial e Direito Constitucional, possui 20 anos de experiência em gestão pública. Foi prefeito e secretário municipal. É escritor, consultor em planejamento e políticas públicas. Site: www.alissondiego.com.br



