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Quem quer governar Minas e para quê?

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Bandeira de Minas Gerais
Bandeira de Minas Gerais • Freepik/Reprodução

Em 1951, Milton Campos passou o governo de Minas a Juscelino Kubitschek. O primeiro, udenista, havia governado o Estado na difícil travessia democrática depois do Estado Novo. O segundo, pessedista, assumia com grande ambição administrativa e uma ideia clara de futuro. Não foi uma sucessão sem disputa. UDN e PSD eram adversários ferrenhos. Mas havia, apesar das diferenças, uma pergunta pública central: que Minas Gerais se queria construir?   

Juscelino transformou essa pergunta em planejamento e capacidade de execução. Energia e transporte formaram o binômio de sua administração. A Cemig nasceu em seu governo, as estradas avançaram, usinas hidrelétricas foram construídas, a industrialização ganhou corpo e a instalação da Mannesmann simbolizou uma Minas que não aceitava permanecer apenas agropastoril. Antes dele, o governo de Milton Campos já havia deixado estudos e orientações para reorganizar a produção mineira. Juscelino estudou, planejou, deu velocidade aos projetos, construiu uma obra administrativa com estratégia e visão de futuro. Deixou legado.   

A lembrança, todavia, não deve nos levar a uma ingênua idealização do passado. A política mineira sempre foi marcada por conflitos, vaidades, acordos difíceis e interesses vários. Mas olhar para o passado é importante para nos mostrar que Minas já foi capaz de discutir sucessão estadual em torno de projetos. As perguntas, agora, devem ser: qual é o projeto para Minas Gerais? Que estado teremos nos próximos 10, 20 ou 30 anos? Qual futuro possível para um Estado endividado e sem perspectiva de curto prazo?    

A eleição de 2026 começa a se organizar em um ambiente bem diferente dos anos 50 do século passado. A política se transformou em espetáculo, a comunicação e o marketing pesam mais do que os programas. Além disso, os palanques nacionais tentam capturar a agenda estadual. Quem vai ser o candidato do presidente Lula e de Flávio Bolsonaro parece ser mais importante do que discutir os desafios de Minas.    

O nosso Estado é grande demais para ser reduzido a peça auxiliar de disputa presidencial. Quem ousa governar Minas deveria falar menos para as bolhas de ocasião e mais para a história do Estado, para os desafios enfrentados cotidianamente pelos mais de 20 milhões de mineiros e mineiras e, principalmente, mirar nosso futuro.   

O senador Cleitinho e o atual governador Mateus Simões representam, hoje, dois polos não tão díspares dessa disputa. Ambos flertam com o eleitorado de direita. O senador lidera pesquisas, conversa diretamente com parte expressiva do eleitorado e domina a linguagem novidadeira das redes. Sua força não pode ser desprezada. Mas governar Minas não é fazer vídeo, denunciar absurdos ou performar indignação. Nos bastidores, circulam versões de que o senador mede o peso da candidatura e talvez não deseje assumir esse fardo. É melhor ser pedra do que vidraça nestes tempos instagramáveis.    

Mateus Simões vive o problema inverso. Tem o cargo, a máquina, a continuidade do governo Zema e algum domínio dos temas fiscais. Ainda assim, não decola nas pesquisas. A dificuldade não é apenas eleitoral e Simões precisa mostrar que a sua candidatura propõe algo novo, para além da mera defesa da gestão anterior. Minas precisa de responsabilidade fiscal, sem dúvida. Mas responsabilidade fiscal sem visão de desenvolvimento pode se transformar em mera administração da escassez.   

Os ex-aliados e agora adversários Alexandre Kalil e Gabriel Azevedo ocupam outro campo de possibilidades. Ex-prefeito da capital, Kalil é conhecido, tem voto na Região Metropolitana e memória administrativa em Belo Horizonte. Carrega estilo próprio, popular, direto, às vezes conflitivo. Para disputar Minas, porém, precisa mostrar mais do que a lembrança executiva da capital. O Estado é muito maior do que Belo Horizonte. O eleitor do Norte, do Jequitinhonha, do Mucuri, do Triângulo, do Sul, da Zona da Mata e do Vale do Aço quer saber qual lugar terá em um projeto mineiro.   

Gabriel Azevedo tenta se apresentar como alternativa pelo MDB. Foi vereador, presidiu a Câmara Municipal de Belo Horizonte, tem capacidade comunicativa e busca ocupar um espaço de centro, com diálogo e viés de renovação. É preparado, inteligente e com trânsito político. Seu desafio é transformar habilidade individual em densidade estadual. Minas não se governa apenas com boa fala. É preciso base territorial, equipe, partidos, alianças e compreensão profunda dos desafios do Estado.   

A saída do senador Rodrigo Pacheco reorganizou o tabuleiro. O PSB perdeu o nome de maior peso e passou a procurar uma alternativa. Jarbas Soares Júnior, ex-procurador-geral de Justiça de Minas Gerais, surge nesse contexto. Possui trajetória respeitável, história de vida inspiradora, perfil público sério e pode elevar o nível do debate se conseguir falar para além do mundo jurídico. Segurança, integridade, governança e desenvolvimento regional são temas naturais para sua biografia. O desafio é outro: tornar-se conhecido, construir musculatura eleitoral e apresentar um projeto para Minas.   

Antes dos nomes, deve vir o Estado.   

Governar Minas para quê? Para devolver ao Estado capacidade de futuro. Para enfrentar a dívida sem destruir serviços públicos, recuperar investimento, reindustrializar a economia, reduzir desigualdades regionais e recolocar Minas em posição compatível com sua história e seu potencial. Esse deveria ser o centro da campanha.   

Minas Gerais possui hoje a pior situação fiscal do país, expressa de modo contundente pela disponibilidade líquida de caixa de recursos não vinculados: R$ 11,3 bilhões negativos ao final de 2025, o pior saldo entre os estados brasileiros. A dívida não nasceu agora, não pertence a um único governo e não será resolvida por propagandismo. Ganhou escala na década de 1990, com o refinanciamento com a União, atravessando indexadores, postergações, ações judiciais, déficits, frustrações federativas e escolhas políticas sucessivas. A dívida que estava em patamar próximo de R$ 18 bilhões no fim dos anos 1990 passou de R$ 160 bilhões em 2023. No debate recente do Propag, o saldo com a União foi tratado em torno de R$ 181 bilhões.   

Esse número muda tudo e sequestra nosso futuro. Muda a saúde, a educação, a segurança, as estradas, a política de servidores, a capacidade de investimento e o planejamento. O próximo governador não poderá fingir que Minas tem dinheiro para tudo. Mas também não poderá fazer do ajuste fiscal um dogma contra os serviços públicos.   

O Propag melhora o perfil da dívida, alonga o pagamento, reduz encargos e abre algum fôlego. É melhor do que o estrangulamento permanente, mas não resolve, porque o problema é estrutural. Trocar prazo, indexador e ativos não substitui projeto de Estado. Minas não pode aceitar uma solução que apenas organize a sobrevivência fiscal e deixe para depois a reconstrução de sua capacidade de investimento.   

Precisamos de uma discussão fiscal honesta. Há desperdícios, privilégios, estruturas envelhecidas e baixa produtividade em várias áreas da administração pública? Sim, e isso deve ser enfrentado. Mas não é esse, isoladamente, o maior problema financeiro de Minas e o Estado não será reorganizado por slogans contra servidores, nem por privatizações apresentadas como fetiche, nem por uma retórica vazia de “eficiência na gestão”. O governo estadual precisa gastar melhor, arrecadar melhor, planejar melhor e investir melhor. Cortar por cortar é fácil. Difícil é governar com inteligência, resolver gargalos estruturais e ter visão de longo prazo.   

A pauta econômica e fiscal deveria entrar no centro desta eleição. Minas alcançou PIB superior a R$ 1 trilhão em 2024 e responde por algo em torno de 9% da economia nacional. É relevante, mas poderia ser mais. O peso mineiro no PIB brasileiro varia pouco há anos, apesar da dimensão territorial, da população, das universidades, da indústria, do agronegócio, da energia, da cultura, do turismo e da posição logística privilegiada.   

O próximo governador terá de fazer três movimentos ao mesmo tempo. Primeiro, recuperar credibilidade fiscal sem precarizar serviços públicos. Segundo, defender nosso Estado em Brasília, com firmeza, sem submissão e sem bravata. Terceiro, construir uma estratégia de desenvolvimento capaz de religar as várias Minas: a metropolitana, a mineradora, a industrial, a comercial, a agropecuária, a universitária, a histórica, a pobre, a rica, a esquecida e a emergente.   

Essa tarefa exige capacidade política, capacidade de gestão e capacidade de formar equipe. Exige gente que conheça orçamento, dívida, saúde, educação, segurança, infraestrutura e pacto federativo. Exige um governador capaz de dialogar com prefeitos, Assembleia, União, setor produtivo, universidades, servidores e sociedade civil.   

O mineiro costuma desconfiar de entusiasmo fácil. Faz bem. Minas não pode, todavia, confundir prudência com resignação. O Estado tem povo, história, inteligência, cultura, riqueza natural, localização estratégica e instituições fortes. O problema mineiro não é falta de potencial. É falta de projeto à altura de nosso potencial.   

A sucessão de 2026 deveria começar por esta pergunta: quem quer governar Minas Gerais e para quê? Não quem quer usar Minas como palanque.   

Governar, neste momento, significa enfrentar a dívida, reorganizar as finanças, ampliar investimento, proteger serviços públicos, reindustrializar o Estado, reduzir desigualdades regionais e devolver futuro à sociedade mineira.   

A Minas grandiosa e bem governada já teve energia e transporte como binômio de modernização. Agora precisa de outro binômio: responsabilidade e desenvolvimento.   

Sem isso, a eleição será grande em barulho e pequena em destino. 

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Alisson Diego Batista Moraes é advogado, professor e filósofo. Mestre em Ciências Sociais, com especializações em Gestão Empresarial e Direito Constitucional, possui 20 anos de experiência em gestão pública. Foi prefeito e secretário municipal. É escritor, consultor em planejamento e políticas públicas. Site: www.alissondiego.com.br