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O Brasil no espelho do desenvolvimento humano

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A favela de Paraisópolis, na Zona Sul da cidade de São Paulo • Rovena Rosa/Agência Brasil

Nesta semana houve uma divulgação relevante para o Brasil: o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em parceria com a Fundação João Pinheiro e o IBGE, informou que o país alcançou, pela primeira vez, o patamar de muito alto desenvolvimento humano no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, o IDHM. Em 2024, o índice brasileiro chegou a 0,805, o melhor resultado da série.

O IDHM reúne três dimensões estruturantes da vida humana: renda, educação e longevidade. O número, portanto, não trata somente de economia. A passagem para a faixa de muito alto desenvolvimento humano não elimina as contradições nacionais, mas registra uma mudança expressiva. Um país marcado por desigualdades profundas conseguiu, em pouco mais de uma década, avançar na média nacional em renda, educação e longevidade.

A notícia chega num momento também importante para a economia brasileira. Projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam que o Brasil voltou ao grupo das dez maiores economias do mundo em Produto Interno Bruto nominal, com valor estimado em torno de US$ 2,64 trilhões em 2026. Trata-se de um resultado relevante, sobretudo em um cenário internacional instável, marcado por juros altos, tensões geopolíticas e desaceleração de várias economias.

A grandeza econômica, sozinha, não basta. Um país pode produzir muito e distribuir mal, crescer no agregado e manter milhões de pessoas em situação de privação. O aspecto mais relevante está na combinação entre escala econômica e desenvolvimento dos indicadores sociais. O avanço é lento, desigual e insuficiente, mas é real. O desafio brasileiro sempre foi este: transformar potência econômica em vida digna, presença do Estado, escola funcionando, saúde acessível, segurança pública e oportunidades reais.

Esse avanço não surgiu por acaso. Desenvolvimento humano elevado é resultado de políticas públicas que atravessam governos e se consolidam como estratégias de Estado. O SUS e o SUAS ampliaram a vacinação, a atenção básica, o acompanhamento das famílias, a assistência materno-infantil e a atenção às pessoas em situação de vulnerabilidade social. A expansão educacional aumentou os anos de estudo e a permanência escolar. Programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, reduziram vulnerabilidades extremas e ajudaram a manter crianças e adolescentes na escola. A alimentação escolar, a assistência social, o Benefício de Prestação Continuada, a valorização do salário-mínimo e a presença do Estado em territórios mais pobres compõem uma rede de proteção social.

Mais do que atestar virtudes de governos, o IDHM revela a capacidade de uma sociedade transformar recursos públicos, políticas continuadas, serviços acessíveis e condições sociais concretas em melhoria de vida. Família nenhuma prolonga sozinha a expectativa de vida sem vacinação, saneamento, atenção básica e acesso a serviços de saúde. Criança nenhuma permanece na escola apenas por mérito abstrato, sem transporte, merenda, renda familiar, busca ativa e rede de proteção. Renda não se distribui por espontaneidade moral do mercado. Há escolhas políticas por trás de cada melhora social relevante. Desenvolvimento humano resulta dessa combinação entre esforço individual, presença pública e organização coletiva.

A Fundação João Pinheiro, parceira do PNUD nesta pesquisa, merece reconhecimento especial nesse processo. Criada em Minas Gerais em 1969, a FJP tornou-se uma das principais referências brasileiras em estatística pública, planejamento, pesquisa aplicada e formação de quadros para o Estado. A Escola de Governo Professor Paulo Neves de Carvalho, criada em 1992, formou e qualificou gerações de servidores, gestores e pesquisadores comprometidos com a administração pública. Em um tempo dominado pelas opiniões apressadas, a produção técnica e metódica da Fundação João Pinheiro reafirma a importância de conhecimento científico para orientar decisões públicas. Parabéns à Fundação João Pinheiro e aos pesquisadores envolvidos nesse trabalho. Legítimo motivo de orgulho mineiro.

A melhora do IDHM, contudo, não significa otimismo eufórico. O Brasil continua atravessado por desigualdades raciais, regionais e territoriais estruturantes. A média nacional não mostra sozinha a distância entre centro e periferia, entre Norte e Sul, entre brancos e negros, entre municípios ricos e municípios abandonados. O avanço agregado precisa ser desdobrado em perguntas mais complexas: quem ficou para trás? Onde a renda não chegou? Em quais territórios a educação ainda falha? Que grupos seguem vivendo menos, estudando menos e recebendo menos?

A educação revela essa ambiguidade. O país avançou, mas ainda convive com um gargalo decisivo na aprendizagem. Em 2025, o Brasil chegou a 66% de crianças alfabetizadas na idade adequada, segundo o Indicador Criança Alfabetizada, um avanço relevante, mas o outro lado do indicador é pesado: cerca de um terço das crianças ainda não chega ao fim do 2º ano do ensino fundamental com alfabetização adequada. A comparação internacional confirma o tamanho do desafio. No PISA 2022, avaliação aplicada pela OCDE a estudantes de 15 anos, o Brasil ficou abaixo da média dos países da organização em matemática, leitura e ciências. A pontuação brasileira foi de 379 pontos em matemática, 410 em leitura e 403 em ciências, diante de médias da OCDE de 472, 476 e 485 pontos, respectivamente. Sem alfabetização na idade certa e sem aprendizagem consistente ao longo da trajetória escolar, o desenvolvimento humano fica incompleto.

A violência impõe outro limite ao retrato positivo. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 44.127 mortes violentas intencionais em 2024, com taxa de 20,8 por 100 mil habitantes. O número representa queda em relação a períodos anteriores, mas continua incompatível com uma noção consistente de desenvolvimento humano. Não há desenvolvimento pleno em territórios nos quais jovens morrem cedo, famílias vivem sob medo permanente e o Estado aparece mais pela repressão do que pela escola, pela cultura, pela saúde e pela oportunidade.

A corrupção também integra esse quadro de contradições. Pesquisa Genial/Quaest de abril deste ano apontou a violência como principal preocupação nacional, com 27% das menções, seguida pela corrupção, com 19%, pelos problemas sociais, com 16%, e pela saúde, com 14%. Esses dados ajudam a compreender a distância entre melhora estatística e percepção cotidiana. A população pode reconhecer avanços na renda, no emprego ou no desenvolvimento humano e, ao mesmo tempo, sentir que a vida pública continua vulnerável à captura, ao desperdício, à desconfiança e ao mau uso dos recursos públicos. Corrupção corrói o desenvolvimento humano porque desvia dinheiro, energia administrativa e legitimidade das políticas públicas que deveriam alcançar quem mais precisa e transformar realidades estruturais.

Esses limites não anulam o avanço, mas definem os próximos passos da agenda pública brasileira. O Brasil melhora no IDHM, volta ao grupo das dez maiores economias e amplia indicadores sociais; ao mesmo tempo, permanece diante de problemas estruturais que não admitem complacência: aprendizagem insuficiente na educação pública, violência persistente, avanço das organizações criminosas, corrupção percebida como problema central pela população, infraestrutura deficiente, renda média aquém das necessidades, gargalos na saúde pública e desigualdades territoriais profundas. A maturidade democrática consiste em sustentar as duas afirmações ao mesmo tempo: o país avançou, e o país ainda falha em dimensões essenciais da vida republicana.

A resposta a essas perguntas não cabe apenas ao governo federal. Os municípios são entes federativos, estão na ponta das políticas públicas e conhecem a realidade imediata das famílias. Prefeituras, câmaras municipais, conselhos, secretarias de educação, saúde, assistência social, planejamento e fazenda precisam estudar o Radar IDHM com atenção. O índice pode e deve orientar a formulação de políticas públicas, bem como a elaboração dos instrumentos de planejamento, como Plano Plurianual, Lei de Diretrizes Orçamentárias e Lei Orçamentária Anual, definindo metas de governo, pactos de gestão e investimentos prioritários. O índice precisa chegar aos diagnósticos municipais, aos instrumentos de planejamento e às decisões concretas de investimento.

Há uma disputa narrativa em torno do país. Dizer que o Brasil não melhora é uma forma enviesada de leitura política. Colocar todos os períodos no mesmo saco, como se nenhuma escolha pública produzisse consequência diferente, apaga responsabilidades e resultados. Se é verdade que nosso país possui problemas imensos, é igualmente verdade que estamos avançando em diversas áreas. Ser crítico não é negar a realidade, mas olhar para o todo, inclusive para aquilo que contraria o pessimismo automático e viralatista.

O Brasil no espelho do IDHM aparece melhor do que muitos gostariam de admitir e ainda muito distante do que precisa ser. Melhorou porque políticas públicas foram eficazes, porque saúde, educação, renda e proteção social produziram efeitos concretos e porque conhecimento técnico, planejamento e continuidade fazem a diferença e geram valor para a sociedade. O desafio agora é transformar o bom resultado em compromisso: avançar mais, reduzir desigualdades, transformar a educação, enfrentar a violência, combater a corrupção, melhorar a saúde e fazer do desenvolvimento humano uma tarefa cotidiana da República, sobretudo nos municípios, onde a vida realmente acontece.

Nenhum índice substitui a ação humana do fazer político. Tampouco a técnica deve se sobrepor à decisão democrática. O importante é o alinhamento entre técnica e política, ética e decisão. Pesquisas sérias devem lembrar à vida pública a sua obrigação mais nobre e elementar: melhorar a vida das pessoas e cuidar da vida na Terra.

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Alisson Diego Batista Moraes é advogado, professor e filósofo. Mestre em Ciências Sociais, com especializações em Gestão Empresarial e Direito Constitucional, possui 20 anos de experiência em gestão pública. Foi prefeito e secretário municipal. É escritor, consultor em planejamento e políticas públicas. Site: www.alissondiego.com.br