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Indústria como projeto de país e horizonte de desenvolvimento humano

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Indústria como projeto de país e horizonte de desenvolvimento humano
Indústria como projeto de país e horizonte de desenvolvimento humano • Foto: Unsplash

Estive, na segunda-feira, 3, no Eloos Itatiaia dedicado à indústria. A frase que melhor resumiu o encontro veio logo na abertura. O vice-presidente da República e ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou que “o Brasil não vai passar de renda média para renda mais alta se não agregar valor, se a indústria não crescer”. Lembrou, em seguida, que há cerca de 40 anos o setor enfrenta dificuldades relacionadas à tributação, ao custo do capital e ao chamado Custo Brasil. 

Alckmin fez uma boa exposição. Falou com conhecimento do tema, sem recorrer à defesa nostálgica de uma indústria protegida da concorrência e sem ignorar os obstáculos que ainda pesam sobre quem produz no país. A questão colocada por ele merece a reflexão de todos nós: o Brasil conseguirá se tornar um país de renda alta se continuar perdendo capacidade industrial? Impossível. 

A força do agronegócio brasileiro não está em discussão. Tampouco a importância da mineração ou dos serviços. São ativos fundamentais de uma economia com as dimensões e as características do Brasil. O erro estaria em transformar vantagens naturais em destino econômico, aceitando como suficiente a condição de grande fornecedor de produtos primários, enquanto importamos parcela crescente dos bens, equipamentos e tecnologias de maior valor agregado. 

A indústria respondeu por 23,4% do PIB brasileiro em 2025 e por 35,2% da arrecadação de tributos federais, excluídas as receitas previdenciárias. Os números abrangem toda a atividade industrial, inclusive mineração, construção e serviços industriais. A indústria de transformação representa parcela menor e, há décadas, perde peso relativo na economia brasileira. 

Uma discussão dessa importância não pode permanecer prisioneira da divisão entre esquerda e direita. O Eloos mostrou que alguma convergência é possível. Flávio Roscoe, presidente licenciado da Fiemg e candidato do PL ao governo de Minas Gerais, apresentou críticas à condução da economia, mas reconheceu avanços e classificou Alckmin como “uma pessoa muito preparada”. Segundo levantamento apresentado pela Federação, parte das medidas federais analisadas nos últimos três anos contribuiu para reduzir o Custo Brasil, embora outras tenham produzido, na avaliação da entidade, efeito contrário. 

As divergências são naturais. Um projeto industrial, entretanto, precisa atravessar governos, combinar planejamento de médio e longo prazo e sobreviver às alternâncias partidárias. Nenhum país constrói capacidade produtiva, tecnológica e científica reiniciando sua estratégia a cada quatro anos. 

Também não se trata de ressuscitar o protecionismo das décadas passadas. Empresas eternamente protegidas da concorrência, incentivos sem prazo e subsídios sem contrapartidas cobram um preço alto da sociedade. Uma política industrial contemporânea precisa combinar abertura ao comércio com defesa contra práticas comerciais desleais, financiamento, pesquisa, inovação, qualificação profissional, infraestrutura, previsibilidade regulatória e cobrança de resultados. 

A política industrial voltou à agenda oficial com a Nova Indústria Brasil, empreendida pelo governo federal a partir de 2023 e lançada formalmente em janeiro de 2024. O programa se organiza em quatro grandes eixos: produtividade, inovação e digitalização, sustentabilidade e ampliação da capacidade exportadora. A retomada dessa agenda é acertada. Sua avaliação, entretanto, deverá considerar menos o volume de recursos anunciado, ainda modesto quando comparado aos programas industriais de outras grandes economias, e mais a transformação que for capaz de produzir. 

A reforma tributária pode contribuir. A adoção de um IVA de base ampla tende a reduzir distorções acumuladas ao longo das cadeias produtivas e a melhorar o aproveitamento de créditos tributários. Para a indústria, que compra insumos, máquinas, energia e serviços antes de colocar um produto no mercado, isso tem relevância. A simplificação tributária, contudo, não resolve problemas de logística, educação, energia, burocracia, segurança jurídica, inovação e crédito. 

Rubens Menin tratou dos juros a partir da experiência de quem passou décadas tomando decisões de investimento, criando empresas e empregando pessoas. Relacionou o custo elevado do dinheiro à perda de capacidade de investimento das empresas e ao endividamento das famílias. O Copom reduziu a Selic para 14% nesta semana, mas o Brasil continua entre os países com os maiores juros reais do mundo. 

A responsabilidade fiscal pertence à mesma discussão. Inflação, trajetória da dívida, expectativas e credibilidade econômica influenciam os juros e precisam ser consideradas. Isso não altera uma realidade objetiva: manter por longos períodos um custo de capital muito superior ao dos países concorrentes torna mais difícil financiar fábricas, modernizar equipamentos, incorporar tecnologia e ampliar a produção. 

Indústria depende de investimento, e investimento depende de horizonte. Para uma empresa, horizonte significa a possibilidade de calcular o retorno de uma decisão que pode levar cinco, dez ou vinte anos para amadurecer. Custo do crédito, tributação, demanda, estabilidade das regras e condições de competição influenciam a decisão de construir uma fábrica, instalar uma nova linha de produção ou modernizar equipamentos. Sem previsibilidade, o capital tende a buscar alternativas de retorno mais rápido e menor risco. 

Para o país, o horizonte é mais amplo. Significa transformar capacidade produtiva, recursos naturais e conhecimento em produtividade, tecnologia e renda, criando as condições para que o Brasil alcance outro patamar de desenvolvimento. Uma política industrial de longo prazo deve ser julgada também pela sua capacidade de aproximar o país desse horizonte. 

O agronegócio ajuda a compreender o tamanho dessa oportunidade. Em 2025, o setor exportou 169,2 bilhões de dólares, equivalentes a 48,5% das vendas brasileiras ao exterior. O Brasil lidera diversas cadeias globais e não precisa produzir menos soja, café, carne ou açúcar. Precisa ampliar a parcela da produção que recebe processamento, tecnologia, conhecimento e marca antes de deixar o país. Produzir muito é uma vantagem; agregar valor ao que produzimos permite transformar essa vantagem em mais produtividade e renda. 

Minas Gerais concentra esse dilema. Nos cinco primeiros meses de 2026, o estado exportou 17,9 bilhões de dólares e permaneceu como o terceiro maior exportador do país, responsável por 12% das vendas brasileiras ao exterior. Ouro e minérios continuam tendo grande peso nessa pauta. 

Os minerais críticos e as terras raras abrem uma oportunidade que não deveria repetir velhos padrões. São insumos fundamentais para veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, equipamentos médicos e outras tecnologias avançadas. Se Minas retirar esses materiais, embarcá-los e depois importar os produtos transformados, pouco terá mudado na estrutura econômica. O interesse está também nas etapas seguintes: processamento, componentes, engenharia, pesquisa, propriedade intelectual e fabricação. 

A Embraer demonstra que o Brasil consegue participar de cadeias de enorme complexidade tecnológica. Sua trajetória reuniu formação de engenheiros, pesquisa, investimento público e, posteriormente, capital privado, competição e expansão internacional. Não é necessário reconstruir toda a história da empresa para extrair dela uma constatação simples: capacidade tecnológica não surge espontaneamente, deve ser construída, exige investimento e depende de continuidade. 

Um projeto industrial não pertence a um partido e não deveria terminar a cada troca de governo. Precisa combinar responsabilidade fiscal, competição, sustentabilidade e inserção internacional com planejamento, inovação e capacidade de coordenação do Estado. Os instrumentos podem mudar conforme os governos e as circunstâncias. O horizonte não deveria mudar: um país mais produtivo, tecnologicamente mais capaz e preparado para alcançar o grupo das economias de renda alta. 

Durante décadas, discutimos a indústria como se fosse necessário escolher entre passado e futuro, Estado e mercado, campo e fábrica. Essas oposições pouco ajudam. A questão é quanto conhecimento, tecnologia e valor o Brasil consegue acrescentar às enormes vantagens que já possui. 

Minas conhece há séculos o valor da riqueza retirada da terra. Conhece também os limites de uma economia que se contenta apenas com a retirada. 

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Alisson Diego Batista Moraes é advogado, professor e filósofo. Mestre em Ciências Sociais, com especializações em Gestão Empresarial e Direito Constitucional, possui 20 anos de experiência em gestão pública. Foi prefeito e secretário municipal. É escritor, consultor em planejamento e políticas públicas. Site: www.alissondiego.com.br

 

 

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