Eleições em tempos de desencanto e apatia

A 37 dias do primeiro turno, começa hoje o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. A campanha, porém, ainda encontra um eleitor majoritariamente desinteressado. A polarização até mobiliza as bases mais engajadas, mas, apesar de todo o aparato bilionário da disputa, uma parcela expressiva da sociedade continua pouco interessada na eleição.
Em 4 de outubro, o Brasil elegerá os 513 deputados federais, 54 dos 81 senadores e os 27 governadores. Poderá conhecer também, já no primeiro turno, o próximo presidente da República. Se houver segundo turno para presidente ou governadores, a decisão ocorrerá em 25 de outubro.
Falta pouco tempo para uma decisão coletiva importantíssima. Todavia, o clima eleitoral parece morno ou um tanto quanto chocho, desinteressante, quase tedioso. Algo bem diferente das últimas eleições presidenciais.
Uma pesquisa da Quaest, realizada entre 10 e 13 de agosto, mostra exatamente esse cenário de desalento vivido pelos eleitores brasileiros: 63% disseram estar pouco ou nada interessados nas eleições. Entre os independentes, que não se identificam com os principais campos políticos, o percentual chegou a 80%.
O ex-ministro José Dirceu tem dito há algum tempo que aquilo que se chama de polarização seria, na verdade, sinal de politização da sociedade brasileira. O conflito político pode, de fato, produzir politização. Isso acontece quando interesses, projetos e visões de sociedade se tornam reconhecíveis, quando o cidadão compreende o que está em disputa e dispõe de razões para escolher entre alternativas. Todavia, não me parece ser esse o fenômeno predominante no Brasil.
Não vivenciamos uma polarização de ideias sobre o país, mas uma polarização moralizante dos afetos. Organizam-se primeiro simpatias e aversões; depois, procuram-se argumentos que as justifiquem. O adversário deixa de ser alguém que defende políticas públicas distintas e passa a representar, para cada campo, uma ameaça moral, cultural ou existencial. O conflito democrático, que deveria organizar diferenças e escolhas, converte-se assim em disputa de pertencimentos e identidades.
Essa radicalização retórica também exagera a distância entre os projetos em disputa, como se cada eleição colocasse diante do país dois futuros absolutamente inconciliáveis. Há diferenças reais e importantes, mas nenhum governo começa do zero. Qualquer presidente encontrará um Congresso poderoso, restrições fiscais, interesses econômicos organizados, contratos em execução, decisões judiciais que condicionam e restringem a ação executiva, compromissos internacionais e uma gama de políticas públicas consolidadas. Pode alterar prioridades e produzir mudanças profundas, mas governará dentro de uma realidade que impõe muitos limites, infindáveis negociações e algumas continuidades.
A história recente contraria essa fantasia de ruptura permanente. As reformas trabalhista e previdenciária, duramente combatidas por Lula e seus aliados, permaneceram em seus fundamentos. O fortalecimento do Congresso sobre o Orçamento também atravessou três mudanças de governo.
A polarização afetiva tende a obscurecer essa complexidade. Precisa apresentar os adversários como expressão de projetos inteiramente incompatíveis e cada eleição como uma batalha definitiva sobre o destino do país. Diferenças políticas reais acabam convertidas em identidades totais.
O eleitor, entretanto, tem percebido cada vez mais a distância entre essa promessa de refundação e os limites do governo possível. Parte do desencanto nasce justamente daí: campanhas anunciam grandes transformações, enquanto o exercício do poder devolve negociações difíceis, limites e compromissos.
Esse desencanto, porém, não torna a eleição menos consequente. Enquanto quase toda a atenção se concentra na Presidência, o Congresso que sairá das urnas terá enorme capacidade de definir os rumos do próximo governo. Decide parcela crescente do Orçamento, altera a Constituição, aprova autoridades, fiscaliza o Executivo e pode modificar, bloquear ou inviabilizar políticas presidenciais.
Atribui-se a Ulysses Guimarães esta célebre advertência: “Você acha ruim este Congresso? Espere o próximo.” A frase atravessa décadas porque toca numa contradição persistente da democracia brasileira: o Congresso que tantos criticam é também aquele que o próprio eleitorado produz. Afinal, a classe política não vem de Marte.
A duríssima verdade é que a apatia eleitoral favorece máquinas políticas organizadas, grupos com interesses concentrados e candidaturas capazes de mobilizar seus próprios nichos enquanto grande parte da sociedade permanece à margem da disputa.
Frei Betto escreveu em A Mosca Azul: “Quem não gosta de política, deixa-se governar por quem gosta.” Não há obrigação alguma de gostar de política. Há, porém, uma impossibilidade de escapar dela. Pode-se desprezá-la, ignorá-la ou cansar-se profundamente de seus personagens; ainda assim, serão decisões políticas que definirão impostos, direitos, prioridades, investimentos e boa parte das condições da vida comum. O afastamento dos cidadãos da vida pública não esvazia o poder. Apenas deixa ainda mais espaço para quem continua disposto a disputá-lo. Nem todos os políticos, evidentemente, o fazem em nome do interesse público.
Alisson Diego Batista Moraes é advogado, professor e filósofo. Mestre em Ciências Sociais, com especializações em Gestão Empresarial e Direito Constitucional, possui 20 anos de experiência em gestão pública. Foi prefeito e secretário municipal. É escritor, consultor em planejamento e políticas públicas. Site: www.alissondiego.com.br



