As muitas Minas de Guimarães Rosa

Há setenta anos, em julho de 1956, chegava às livrarias brasileiras Grande sertão: veredas. No mesmo ano, Guimarães Rosa publicava Corpo de baile. Uma década antes, em 1946, surgira Sagarana, que completa agora oitenta anos. As três obras fazem aniversário, e as efemérides justificam a lembrança de um dos maiores escritores que o mundo já produziu. Não explicam, porém, por que Guimarães Rosa continua tão presente, atual e importante.
Para mim, essa presença começou antes mesmo da leitura.
Na infância, em Itaguara, eu ouvia falar de um médico-escritor enigmático que vivera na cidade muitas décadas antes, atendera famílias e percorrera nossas estradas rurais, deixando histórias e colhendo estórias por onde passava. Eu ainda não compreendia o tamanho daquele homem.
Ao assistir a uma peça de teatro sobre sua passagem pela cidade, manifestei a vontade de ler seus livros. Uma professora me advertiu: “Guimarães Rosa não é leitura para crianças. Vai chegar a sua hora”. Aceitei. O encontro ficou adiado.
A hora chegou na adolescência, por uma razão particular. Dona Maria Geralda Costa, professora, pesquisadora e uma das grandes guardiãs da memória rosiana em Itaguara, conhecera o escritor e convivera com pessoas que acompanharam sua passagem pela cidade. Foi ela quem me contou que meu tataravô, Antônio Luís de Oliveira Vilela, teria inspirado o Major Anacleto, personagem de Traços biográficos de Lalino Salãthiel ou A volta do marido pródigo, o segundo conto de Sagarana, logo após O burrinho pedrês, o meu predileto desse livro.
Movido pela vontade de encontrar naquela literatura alguém da minha própria família, finalmente abri o livro. Entrei em Sagarana procurando o meu tataravô. Encontrei Minas Gerais e a humanidade.
Encontrei a inteligência escondida nas conversas mais simples, a política e seus ardis, as hierarquias rurais, os sujeitos ladinos, os chefes locais, os trabalhadores das estradas, os animais dotados de uma existência quase humana, as crenças, os medos e os silêncios que eu reconhecia sem que fossem cópias da realidade. Guimarães Rosa recolhia pessoas e acontecimentos, mas a literatura os devolvia transformados.
Aí está uma das proezas de Rosa. Minas Gerais alcança em sua obra uma dimensão universal sem perder o sotaque, a paisagem, a religiosidade, o humor e as contradições. Rosa não alisou a fala mineira para apresentá-la aos grandes centros culturais. Não tratou os moradores do interior como curiosidades pitorescas, tampouco escreveu o sertão a partir de uma superioridade urbana. Confiou inteiramente na densidade humana daquelas vidas.
Riobaldo é jagunço, fazendeiro e narrador de uma existência marcada pela guerra. Sua dúvida sobre a existência do diabo, contudo, atravessa qualquer fronteira regional. Ao rememorar o possível pacto nas Veredas-Mortas, interroga a origem do mal, a liberdade humana e as desculpas que criamos para aquilo que fazemos. O diabo pode ser uma entidade exterior. Pode também ser o nome dado à parcela de nós mesmos que preferimos não reconhecer.
Diadorim leva para o centro do romance o amor, o segredo, o desejo e a impossibilidade. Miguilim contempla o mundo com a atenção de uma criança e percebe violências que os adultos naturalizaram. Augusto Matraga atravessa a brutalidade, a queda e a tentativa de reconstruir a própria vida.
Em Sarapalha, os primos Ribeiro e Argemiro, consumidos pela maleita e isolados numa fazenda abandonada, esperam a morte enquanto revolvem antigas mágoas, afetos e culpas. A doença corrói os corpos, mas é a revelação de um amor guardado que rompe a solidariedade possível entre os dois e expõe, com extrema crueza, a solidão e a finitude humana. Lalino Salãthiel se move pela esperteza, pela conversa e por uma política feita de favores, arranjos e fidelidades pessoais. Major Anacleto é chefe local, homem de autoridade e cálculo, mas integra uma comédia humana muito além de Itaguara.
Todos possuem raízes reconhecíveis em Minas. Nenhum se resume a um tipo regional.
Minas Gerais não se reduz à imagem do sertão. Nosso estado reúne a Mata Atlântica, o Cerrado e a Caatinga, além de serras, campos, veredas, regiões mineradoras, zonas industriais, cidades coloniais, vales, áreas agrícolas e alguns dos principais rios brasileiros. O sertão existe, sobretudo nas extensões do Norte e do Noroeste mineiros, nos gerais, nas veredas, no Urucuia e no São Francisco, mas representa apenas uma das muitas paisagens de Minas.
Em Guimarães Rosa, porém, o sertão não é somente geografia. Nasce de um território reconhecível, com seus rios, caminhos, animais, secas e formas de vida, mas se amplia até adquirir uma dimensão metafísica. O sertão designa também o lugar da incerteza, da solidão, do conflito moral e das escolhas feitas sem garantia. Por isso pode ser “do tamanho do mundo” e estar “em toda parte”.
Aliás, o escritor formulou a pluralidade de nossa terra numa frase genial e concisa: “Minas Gerais é muitas”.
Em Aí está Minas: a mineiridade, texto publicado em 1967 e posteriormente reunido na coletânea póstuma Ave, palavra, Rosa apresenta o nosso estado como uma encruzilhada brasileira. Diferentes climas, paisagens, costumes e formas de vida se encontram em seu território. Há a Minas do ouro, a pastoril, a sertaneja, a urbana, a devota, a rebelde, a política, a ensimesmada e a aberta ao país.
Depois de percorrer as tantas possibilidades, o autor admite: “Minas, a gente olha, se lembra, sente, pensa. Minas, a gente não sabe”.
A mineiridade rosiana não cabe numa coleção de estereótipos sobre as montanhas, a gastronomia, a prudência ou a desconfiança. Minas é plural, contraditória, difícil de encerrar numa definição. Cada tentativa de explicá-la por inteiro deixa outra Minas do lado de fora.
Esse sertão metafísico não apaga o sertão real. Sua força nasce do encontro entre os dois. Há rios, animais, vegetação, distâncias e formas de trabalho. Ao mesmo tempo, cada travessia geográfica carrega uma travessia moral.
A natureza não aparece atrás dos personagens como cenário. Rios, buritis, chuvas, secas, animais e caminhos interferem nas escolhas e guardam saberes acumulados durante gerações. Em 1952, Rosa acompanhou uma boiada pelo interior mineiro, ouvindo vaqueiros e anotando plantas, falas, sons e situações. Sua imaginação partia de uma atenção obsessiva ao mundo.
A universalidade de Guimarães Rosa passa igualmente pela língua.
Sua originalidade costuma ser resumida à invenção de palavras, como se tudo dependesse de um repertório de neologismos, mas Rosa foi além. Escutou o português falado, recuperou palavras antigas, estudou outras línguas, combinou expressões populares e eruditas e percebeu possibilidades sonoras que a escrita convencional ignorava.
Em seus livros, o português recorda possibilidades que havia esquecido. Algumas palavras soam antigas e acabam de nascer. Outras chegam da conversa sertaneja e dizem aquilo que uma longa explicação acadêmica dificilmente alcançaria. A frase acompanha a memória, a dúvida, o medo e o desejo. Avança, hesita, retorna, corrige o próprio caminho.
Muitos escritores encontram um estilo. Guimarães Rosa abriu uma vereda dentro da própria língua.
Por isso sua obra é impossível de imitar. A inspiração está em outra parte: na liberdade de buscar uma voz própria, na disciplina da escuta e na recusa das fórmulas gastas. A originalidade exige intimidade com a língua e fidelidade ao mundo que se deseja narrar. Na frase atribuída a Tolstói, “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.
Rosa não se tornou universal abandonando o próprio lugar, mas aprofundando-se nele até alcançar aquilo que pertence a todos nós. O que há de mais humano em nós. Todo o repertório de sentimentos que nos faz humanos.
Alisson Diego Batista Moraes é advogado, professor e filósofo. Mestre em Ciências Sociais, com especializações em Gestão Empresarial e Direito Constitucional, possui 20 anos de experiência em gestão pública. Foi prefeito e secretário municipal. É escritor, consultor em planejamento e políticas públicas. Site: www.alissondiego.com.br



